- Introdução.
Que é necessário ter um ponto de partida para começar a agir, já estamos convencidos: quem não consegue decidir o primeiro ato, o primeiro gesto, não chega em lugar algum. Também estamos convencidos, por tudo quanto debatemos nos últimos textos, de que é preciso intencionar um “fim último”, uma meta final, para que possamos começar a agir. Quem sai numa viagem sem saber qual o destino final procurado estará sempre na estrada errada.
A pergunta, agora, é outra: será que é possível ter várias metas supremas, vários “fins últimos” simultâneos para guiar nossa intencionalidade e dirigir nosso agir? Vamos ao debate.
- A hipótese provocadora inicial.
Já sabemos que cada artigo da Suma começa com uma hipótese controvertida, que quer provocar o debate. No nosso caso, agora, a hipótese propõe que uma mesma pessoa pode adotar, como meta que dá sentido à sua vontade e impulsiona seu agir, mais de um “fim último” simultaneamente. Essa proposta parece, aliás, muito coerente com a vida que temos hoje em dia, oitocentos anos depois dos tempos de Tomás: de fato, muitas vezes parece que estamos tentando realizar várias metas simultaneamente, viver muitas vidas ao mesmo tempo, conquistar muitos objetivos simultâneos.
O artigo propõe, logo de início, três argumentos que tentam justificar e comprovar esta hipótese. Vamos examiná-los.
- Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor cita ninguém menos do que Santo Agostinho – que, na obra “Cidade de Deus”, afirma que alguns apontam o último fim do ser humano como consistindo em quatro coisas: o prazer, o repouso, os bens da natureza e a virtude. Ora, vemos, aqui, uma pluralidade de coisas, que não são necessariamente ligadas entre si, e que são propostas como sendo, conjunta e simultaneamente, o fim último do ser humano. Logo, é possível e admissível que o ser humano adote muitas coisas, simultaneamente, como fim último de sua vontade, conclui apressadamente o argumento.
O segundo argumento objetor.
Apenas as coisas opostas se excluem: não posso almejar uma coisa e a coisa oposta ao mesmo tempo. Por exemplo, não posso ter como fim da minha conduta estar em um determinado lugar num determinado momento e, ao mesmo tempo, não estar naquele lugar naquele momento. Mas há muitos fins que, embora sejam diversos e até não sejam ordenados entre si, não se opõem: alguém pode, por exemplo, ter como fim supremo da sua vida ser um atleta olímpico e um professor doutor de uma grande universidade. Assim, mesmo que se admita que a nossa vontade precisa ter um fim último, nada impede que ela tenha vários “fins últimos” simultâneos e desconexos entre si, desde que não sejam coisas opostas, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
Nosso livre arbítrio não se esgota quando elege para si um fim último como intenção final, como aquilo que é supremo em nossa vida; existe sempre a possibilidade de escolher novamente outro fim último, acumulando-o com o primeiro. Por exemplo, alguém pode eleger como meta suprema da sua vida buscar sempre os maiores prazeres, mas podem ser que escolha, simultaneamente, tornar-se alguém multimilionário. Ou seja, o ser humano pode ter vários fins últimos simultâneos, conclui de modo impensado o argumento.
- O argumento sed contra.
Sabemos que, depois de apresentar os argumentos que tentam justificar a hipótese inicial, o artigo sempre traz um argumento contrário a ela, que Tomás chama de sed contra, que significa “em sentido contrário”.
No presente artigo, o argumento sed contra afirma que aquilo que alguém escolhe para dar sentido completo à sua vida, que elege para constituir seu objetivo final, sua meta de completude, passa a preencher completamente as suas inclinações, de tal modo que passa a governar sua vida e suas escolhas. isso é uma coisa tão evidente que a própria Bíblia nos dia (Mateus 6, 24) que ninguém pode servir a dois senhores, porque ou odiará a um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Servir a dois senhores significa, aí, ter duas metas de vida não relacionadas entre si, não conexas, relativamente independentes uma da outra. Assim, completa o argumento que se opõe à hipótese inicial, nenhum ser humano pode ter mais de um fim último como meta suprema de sua vida, que dará sentido às suas escolhas.
- Encerrando por enquanto.
Será que não podem existir pessoas que elegem mais de um objetivo, desconexos entre si, como meta final de sua vida? Sim, creio eu, podem existir – e de fato existem – pessoas assim. São profundamente divididas, tendem ao burnout e ao fracasso, quando não à depressão e, mesmo se conseguem realizar algum de seus objetivos – e mesmo os dois – dificilmente o fazem a contento, e mais dificilmente ainda podem repousar satisfeitos, plenos, realizados, no final. é disso que estamos falando aqui: da realização, da plenitude humana. Da felicidade. E corações divididos não podem ser felizes.
No próximo texto estudaremos a resposta de Tomás quanto a esta interessante questão.
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