1. Retomando para finalizar. 

Se a liberdade se esgotasse na capacidade de escolher, indefinidamente e sem limites, dentre as infinitas possibilidades que a vida, em seus acidentes, nos apresenta, então ela seria contraditória em si mesma: quanto mais eu fosse compelido a escolher, menos livre eu iria me tornando, a tal ponto de que uma pessoa madura, que tem uma profissão e constituiu uma família, seria menos livre do que um jovenzinho que tivesse diante de si todas as infinitas oportunidades da vida, mas ainda não tivesse abraçado nenhuma. Quando alguém, digamos, escolhe um cônjuge, ele está, na prática, afastando a possibilidade de escolher entre milhares de outras pessoas para casar-se – mas nem por isso ele se torna menos livre. É justamente o contrário: somente é livre para constituir família aquele que escolheu, dentre todas as infindáveis possibilidades, uma alternativa concreta para si. É justamente neste sentido que dizemos que o ser humano precisa determinar seus fins para ser livre, e por isso não se pode imaginar que há uma infinidade de fins para o exercício de sua liberdade.  

De posse dessas ideias maravilhosas, que adquirimos nos textos anteriores, vamos reexaminar os argumentos iniciais, aqueles mesmos argumentos que tentavam comprovar a hipótese de que não há um fim último para o agir humano, mas apenas uma infinidade de alternativas que não se esgotam jamais, para aprender com as respostas que Tomás propõe a cada um deles. 

2.Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento lembra que o bem tende a se expandir – conforme sabiam os antigos e, digo eu, percebemos ainda hoje; prova-o o fato de que aquelas coisas que agradam a muita gente tendem a se tornar populares e difundidas, enquanto aquelas coisas que não são do agrado de muitos tendem a reduzir-se. Ora, prossegue o argumento, se o bam tende a se difundir, significa que alguma coisa boa tende a dar origem a outras coisas boas, e assim por diante. Sabemos, então, que os atos humanos são movidos pela busca de fins que são considerados bons pelos agentes. Se o bem atrai e dá origem a mais bens, então podemos dizer que os fins tendem a se multiplicar de modo indefinido, de tal modo que não podemos apontar alguma coisa como “bem supremo” ou “fim último” do ser humano, conclui o argumento, apressadamente.

A resposta de Tomás. Tomás seria o último a negar que o bem tende a se difundir. Mas isto não significa que o próprio bem seja algo que se difunde a partir de uma origem superior a ele mesmo. Por isso, não prova que não exista um Sumo bem que seja a origem certa de todo o bem que decorre dele. Ao contrário, a difusão do bem é possível porque existe um primeiro bem que dá origem a todo o bem que deflui dele. Algo só pode se difundir quando existe de maneira certa e definida

Além disso, estamos falando aqui do bem como algo que pode ser o fim da ação propriamente humana, e portanto o sumo bem seria o fim mais elevado que o ser humano poderia perseguir ativamente em seu agir. Desse fim elevadíssimo, certo e único, decorreria uma infinidade de bens subordinados que podem ser vistos como fins intermediários, ou ainda como meios para o fim último. A difusão do bem significa apenas que, do sumo bem, que é originário, podem difundir-se uma infinidade de bens derivados. 

Mas não podemos nos esquecer que todo bem que pode ser perseguido livremente pelo comportamento deliberado do ser humano deve ter a possibilidade de ser conhecido pela inteligência e desejado pela vontade. Desse modo, nenhum bem pode decorrer do primeiro bem se não for caracterizado pela inteligibilidade, pela ordem, pela medida. Assim, a difusão do bem não se dá de modo indefinido, subjetivo, relativista, mas ordenado, inteligível, mensurado e mensurável pela inteligência. É por isso que a Bíblia (Livro da Sabedoria, 11, 20) nos ensina que Deus dispôs tudo “com medida, quantidade e peso”. A ideia de que o bem se expande, se difunde por meios indefinidos e potencialmente indefiníveis não pode justificar nenhum tipo de relativismo ético que retire a própria inteligibilidade da conduta humana.

O segundo argumento objetor.

Tudo aquilo que pode ser quantificado pela nossa razão pode também ser multiplicado ao infinito. Pensemos, aqui, na matemática: para qualquer quantidade que eu possa imaginar, existe sempre a possibilidade de acrescentar mais uma unidade, de tal modo que a série de números pode prosseguir virtualmente até o infinito.

Ora, a vontade busca, como fim da atuação humana, justamente aquilo que a razão apreende e quantifica como bem. Mas a razão é sempre capaz de aumentar o bem apreendido, compreendido e perseguido pelo ser humano em seu agir, porque aquilo que é inteligível é também sempre capaz de aumento. Desse modo, parece que não há um bem mais elevado, que seja o fim último da conduta humana, mas apenas uma série infinita de bens que podem ser sempre aumentados, conclui um tanto levianamente o argumento. 

A resposta de Tomás.

Há coisas que existem no mundo e há entes que só existem em nossa mente, como entes de razão, abstrações. Ora, para conhecer as coisas reais, que existem independentemente de nosso pensamento, nós sempre temos que partir de algum princípio, que conhecemos naturalmente, para alcançar, por raciocínio e método, o conhecimento suficiente sobre o objeto que se apresenta a nós. Neste caso, Aristóteles demonstra muito bem que o processo de conhecimento dos objetos reais não é, nem pode ser indefinido, mas deve ter um ponto de partida certo (os princípios naturalmente conhecidos) e um ponto de chegada certo (o conhecimento do objeto). Portanto, não existe um regresso ao infinito no conhecimento do real, mas um ponto de chegada certo e definido, porque estamos no campo daquelas coisas que se conectam entre si no campo do real, e o real é ordenado e inteligível porque é definido, limitado, determinado. 

No caso dos entes de razão, como são os números, a conexão entre eles está no campo do acidental, não do substancial. Não há uma ontologia que os conecte a padrões externos e independentes da nossa própria inteligência. Deste modo, nada impede que, dada uma quantidade, eu possa imaginar uma quantidade maior, acrescendo a ela alguma coisa, ou uma quantidade menor, subtraindo dela alguma coisa. Neste caso, como a conexão entre as quantidades não é da ordem do externo, do concreto, nada impede que esse processo de pensamento tenda ao infinito (aumentando ou diminuindo quantidades de um modo potencialmente ilimitado). Mas o bem é da categoria do real, não da categoria do mental. Embora muitos, neste nosso século XXI, pensem deste modo, ou seja, pensam que o bem, o fim da conduta humana, é apenas um construto mental subjetivo e acidental. Mas ele está no campo do real, do que existe independentemente do fato de pensarmos nele ou o conhecermos. Por isso, o bem está no campo do definido, do ordenado, e não do imaginário, do construído. É por isso que existe necessariamente um primeiro bem, que é o fim último a que todo ser humano se dirige (ou deveria se dirigir). 

O terceiro argumento objetor.

No terceiro argumento objetor, o ponto de partida é a ideia de que a vontade é capaz de refletir sobre si mesma um número indefinido de vezes: posso querer algo, e em seguida posso não querer esse querer, mas depois posso querer o que antes não queria, e assim por diante. é o caso de alguém que quer ir ao dentista, mas não quer sentir as dores e os incômodos do tratamento dentário, embora, depois, perceba que precisa do tratamento para não perder os dentes, e concorda em fazê-lo, mas percebe que não tem o dinheiro para os honorários do profissional e decide adiar o tratamento, e assim por diante. Ora, se a vontade é capaz de refletir sobre si mesma um número indefinido de vezes, elegendo e rejeitando fins que lhe são propostos, então não existe algo como um fim último definido, que pusesse um ponto final à vontade do agente, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás.

Essa multiplicação de instâncias de tomada de decisão na vontade humana é lgo que tem a ver com a própria vontade e sua posição frente ao bem, e não com o próprio bem em si, objetivo, que pode ser conhecido e buscado pela vontade. Portanto, a multiplicação de reflexões da vontade sobre as decisões que toma perante o bem apenas provam que a vontade é capaz de se distanciar de si mesma e refletir sobre si mesma, desapaixonadamente, e de um modo virtualmente interminável, quando se depara com o bem que a atrai. Mas isto apenas fala sobre a nossa decisão (ou indecisão), sobre a natureza espiritual da vontade e sobre o poder da nossa reflexão, mas não implica de modo algum imaginar que o bem, o próprio bem, seja indefinido e infinito. Nada impede, portanto, que haja um sumo bem que se apresenta como fim último para o ser humano. 

5. Concluindo. 

O sumo bem, que é o fim último que move o proceder humano, deve existir, e deve ser definido, ordenado, inteligível. Isto não é algum tipo de colonização mental, ou de intolerância frente à pluralidade. Ao contrário, é um reconhecimento de que, frente a toda pluralidade possível, há algo definido, cognoscível, no nosso proceder – que nos dá, a todos, a mesma dignidade..

Falamos, aqui, é claro, de uma definição, de uma delimitação, em dois sentidos: 

  1. Uma vez que a conduta humana tem um encadeamento ordenado de causas e efeitos, no sentido de que todos os nossos são históricos, inseridos num contexto concreto, submetidos a tempo e espaço, então existe, entre os fins que perseguimos, uma ordenação essencial: uma causa implica um efeito, que por outro lado é causa do efeito seguinte, e assim por diante. Neste sentido, como um comboio ferroviário precisa ter um número limitado de vagões atrelados a uma locomotiva que funciona como motor (uma vez que a existência de um número ilimitado de vagões implicaria um trem que seria incapaz de se mover), deve haver um bem supremo, um fim último que explique a própria possibilidade de que tenhamos a capacidade de realizar atos livres, humanos, dotados de sentido. Este fim último tem, com relação ao nosso agir, a mesma função que a locomotiva tem no comboio ferroviário: é a forma que atrai e dá sentido ao agir, tornando-o propriamente humano. 
  2. Mesmo com relação à infinidade de possibilidades que se apresentam no nosso agir concreto, histórico e encarnado, a liberdade só se exerce se definirmos um ponto de partida (aquele primeiro gesto que elegemos para atingir o fim) e um ponto de chegada (o fim que não pode ser atingido por um único gesto, mas dá sentido a todas as escolhas concretas que fazemos no caminho). Neste sentido, mesmo na situação concreta que apresenta inúmeras alternativas indefinidas, precisamos definir concretamente, dentre as infindáveis possibilidades, nossos fins e os meios que usaremos para atingi-los.