- Retomando.
Dizíamos, no final do outro texto, que a discussão aqui não era cultural nem jurídica, mas a busca de algo como a própria razão de ser da natureza humana: aquilo a que todos nós, por compartilharmos a mesma natureza, temos como meta comum última e singular de nosso desenvolvimento, que deliberadamente buscamos como fim comum de nossa existência. Existiria algo assim?
Vimos que a hipótese inicial é a de que tal meta, ou fim, ou bem pleno do ser humano, não existiria, mas existiria apenas uma sucessão infinita de fins; ou seja, para cada fim que o ser humano atingisse com seu agir deliberado, sempre haveria um mais elevado que ele poderia almejar, até o infinito. Vimos três argumentos que tentam comprovar essa hipótese: o primeiro lembra que é próprio do bem difundir-se, sendo de esperar que ele nunca se apresente como algo único, final, comum para todos, mas que se multiplique infinitamente. O segundo lembra que os fins que movem a vontade decorrem da razão e a razão é sempre capaz de conceber algo ainda mais elevado – como ocorre no caso dos números, que podem ser aumentados até o infinito. Por fim, o terceiro argumento lembra que a vontade é reflexiva: podemos querer algo, mas em seguida podemos querer aquele querer e, sucessivamente não querer mais querer aquele querer, e assim até o infinito. Logo, se pode haver uma série infinita de “quereres”, é porque deve haver uma série infinita de bens a serem perseguidos como fins, e portanto não haveria algo como um “fim último” para a vontade.
Em seguida, examinamos o argumento contrário à hipótese inicial – que busca a autoridade de Aristóteles para dizer que, se não há um fim último definido, mas apenas uma sequência infinita de fins, então não haveria nenhum fim, porque o bem tem valor de fim, mas apenas quando é um fim definido. Aquilo que é indefinido não pode ser bom, porque não pode ser compreendido pela inteligência e desejado pela vontade. Se houvesse apenas uma série infinita de fins, na verdade nada poderia mover a vontade humana, porque o bem não seria reconhecível por nós de modo algum. Assim, conclui o argumento sed contra, deve haver, em algum lugar, um fim último para o ser humano que, ao mesmo tempo, é seu bem, sua meta mais elevada.
Colocados assim os termos do debate, vamos estudar agora a resposta de Tomás.
- A resposta sintetizadora de Tomás.
Séries essencialmente ordenadas e séries acidentalmente ordenadas.
Não se pode imaginar que exista uma série infinita de fins para o ser humano, diz Tomás. De fato, em qualquer série de coisas do mesmo tipo, existe sempre algum tipo de ordem.
Existem dois tipos de séries de coisas, lembra Tomás, fazendo uma de suas distinções geniais. 1. Existe, em primeiro lugar, aquela série de coisas que são ordenadas entre si de modo essencial – pensemos, aqui, por analogia, nos vagões que formam um comboio ferroviário. Elas são ordenadas de tal maneira a constituir esse comboio, que está destinado a andar nos trilhos.
2. Existe aquela série de coisas que são ordenadas entre si de modo acidental, ou seja, numa relação que não forma, ela própria, uma unidade essencial. Pensemos, aqui, na série de antepassados de uma pessoa qualquer, ou numa grande linha de pedras ao longo de uma rua.
Toda série de causas que explica, então, a própria existência e o movimento de alguma coisa é uma série do tipo essencial, não acidental.
Ora, se tenho um comboio ferroviário com um número infinito de vagões, posso ter certeza de que esse comboio nunca andará. É preciso que haja, em algum lugar, um último vagão, para ser atrelado a uma locomotiva, de tal modo que o comboio inteiro possa se mover. Sem a locomotiva, o comboio não se move. É por isso que Aristóteles nos ensina que, em qualquer série de coisas ordenadas entre si de modo essencial e que pode se mover, existe algo que é o primeiro, e que é a causa principal de movimento de todas as outras coisas na série.
Quando estamos falando dos fins que movem um ser humano a agir, falamos daquilo que se apresenta à vontade como um bem a ser perseguido, de modo a nos mover a praticar atos propriamente humanos na busca daquele fim. Trata-se, pois, de um objetivo para o agir, e que é a causa para que possamos nos mover, como a locomotiva move seus vagões. É claro que, na ordem da ação humana, a causalidade não é mecânica (como nos trens), mas é uma causalidade final – move-nos por atração, não por empuxo.
A ordem da intenção e a ordem da execução no agir humano.
No agir humano, diz Tomás, existe uma dupla ordem, quanto aos fins que nos movem:
- Existe a ordem das intenções. A intenção é aquele fim que não pode ser alcançado com apenas um movimento, mas explica todo o comportamento voluntário sob determinado aspecto. Um exemplo, aqui, seria o de um estudante que tem a intenção de se formar em medicina, digamos. Ele não alcança essa graduação com apenas um gesto: precisará de uma série longa de atos no tempo, se quiser se formar – atingir sua intenção.
- Existe a ordem da execução. Para realizar sua intenção de se formar, o estudante terá que executar diversos atos concretos: passar no vestibular ou em algum outro processo de seleção universitária, dedicar-se muitas horas por dia ao estudo, realizar períodos de atividade prática em algum hospital, e assim por diante. Cada ato de execução se dirige no sentido da intenção geral, mas não a esgota. No entanto, somente é possível realizar a intenção se praticarmos os atos de execução.
Tanto na ordem das intenções quanto na ordem da execução é necessário que haja alguma coisa que seja o fim último da série. Se um determinado estudante hoje tivesse a intenção de se formar em medicina, mas amanhã desejasse se tornar um astronauta e no dia seguinte quisesse ser advogado, poderíamos ter certeza de que ele não conseguiria nenhum desses intentos. Seria como aquele comboio de vagões sem locomotiva. Se, por outro lado, na ordem da execução, hoje ele quisesse prestar vestibular na Universidade Federal do Rio de Janeiro, mas amanhã ele preferisse se candidatar a uma vaga numa universidade norte-americana e assim por diante, sem nunca se inscrever de fato em algum processo seletivo concreto, podemos ter a certeza de que ele nunca se submeteria efetivamente a qualquer processo seletivo, e portanto jamais cursaria alguma faculdade de medicina. é preciso que ele execute um primeiro ato definido, como preencher a ficha de inscrição em alguma universidade concreta.
Assim, é preciso que haja uma intenção primeira, para que a conduta de alguém tenha algum sentido, seja de fato uma conduta humana. Sem uma intenção dirigida a um fim concreto, elevado, último, que ordene seus atos num sentido determinado, o comportamento humano não encontraria razão para iniciar-se – não começaríamos a nos mover.
Também na esfera da execução, sem um primeiro gesto concreto não executaremos nenhuma ação.
Aquilo que é o ponto final de nossa intenção, que dá sentido a todo um conjunto de ações concretas que praticamos, é o que nos move em primeiro lugar – e é nosso fim, nossa meta suprema. No nosso exemplo, o fim último daquele estudante é formar-se em medicina, e isso dirige todos os seus atos concretos, suas escolhas existenciais voluntárias.
Por outro lado, o primeiro gesto concreto que ele executa é o princípio do movimento voluntário que o levará a ser médico um dia: no nosso exemplo, a ficha de inscrição no processo seletivo de alguma universidade.
A necessidade lógica de um princípio e de um fim para que o ser humano se mova.
Em nenhum desses dois casos se pode proceder ao infinito. Se ficarmos deliberando indefinidamente sobre qual profissão devemos almejar, jamais chegaremos a nos formar em profissão alguma – o fim supremo da nossa intenção deve ser, pois, determinado, e não infinito.
Por outro lado, se nunca realizamos o primeiro gesto concreto, da inscrição no processo seletivo de alguma universidade, mas continuamos apenas planejando, pesquisando e comparando os cursos do mundo todo, nunca chegaremos a nos formar. Nos dois extremos (tanto na intenção final quanto no gesto inicial) é preciso que haja um termo definido, e não uma série infinita de objetivos e gestos. Portanto, deve haver um fim último que dê inteligibilidade à existência humana como um todo, e não a torne um simples aglomerado de movimentos sem sentido.
Neste ponto, Tomás nos adverte que nada impede que, acidentalmente, haja uma infinidade de fins e de gestos de execução dirigidos ao fim, no sentido de que a potencialidade de decisões a serem tomadas é inesgotável, tanto para escolher uma meta final, quanto para eleger ações concretas que levam a ela. Ainda pensando no estudante do nosso exemplo, podemos imaginar que há, potencialmente, um número ilimitado de estudantes que podem escolher entre um número potencialmente ilimitado de profissões e realizar inscrição num número potencialmente ilimitado de universidades. Mas cada estudante não vai chegar a se formar se não intencionar um fim concreto e não eleger alguma atitude inicial concreta de execução.
- Encerrando.
Não imaginemos que essas considerações de Tomás sejam banais. Elas não são, e não são simples. Na verdade, elas apontam para uma concepção da liberdade humana que é muito diferente da que temos hoje em dia. Escolher, para Tomás, é pressuposto da liberdade, mas a liberdade não se esgota na capacidade de escolher: aquele que não é capaz de atingir seus fins não é livre, mesmo que mantenha diante de si, eternamente, todas as escolhas abertas. Neste sentido, um estudante que tenha diante de si todas as profissões possíveis não é mais livre para efetivamente exercer alguma profissão do que aquele que já não pode ser advogado, porque escolheu ser médico, mas pode efetivamente exercer a profissão de médico com sucesso e prosperidade. Somente definindo os fins e ousando executar os passos é que alguém efetivamente chega a ser livre.
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