- Introdução.
É preciso sempre relembrar qual é o assunto que está sendo debatido nesta primeira questão desta parte I-II da Suma: Estamos tratando exatamente do fim último do ser humano, isto é, do objetivo, da meta – o que é que torna o ser humano pleno, realizado, completo. Feliz, em suma. Mas atenção – não falamos aqui de realização no sentido econômico-financeiro, nem sequer de prazer no sentido hedonista, mas daquilo que representa a coroação de uma vida plena, honorável, desejável, completa. Daquela completude que muitas vezes está oculta aos sábios e poderosos, mas acessível aos pequeninos, como ensina Jesus em Mateus 11, 25. Existe algo como uma meta suprema para o ser humano, algo que possa ser reconhecido como aquilo que de mais alto, de mais elevado, podemos perseguir? Será que cada um pode escolher qual a sua meta suprema de vida, ou será mesmo que cada meta elevada, cada objetivo último, que escolhermos, sempre estará aberto a que seja possível vislumbrar um objetivo ainda mais alto, e assim por diante, até chegar ao infinito?
Creio que os tempos modernos tenderiam a acreditar nisso: nenhum objetivo, nenhuma meta seria final para o ser humano: quanto mais dinheiro, mais desejamos dinheiro, Quanto mais poder, mais desejamos poder, quanto mais prazeres sexuais e alimentares, mais desejamos comer, beber e usufruir desses prazeres. Será assim mesmo? Será que podemos dizer que há algo que pode ser reconhecido por todos os seres humanos como “meta suprema“ de sua caminhada existencial, mesmo que, na prática, poucas pessoas cheguem a fazer esse reconhecimento?
Vamos ao debate.
- A hipótese controvertida inicial.
A hipótese controvertida inicial, que quer provocar e aprofundar o debate, propõe que não se pode dizer que há uma meta suprema, um fim último para o ser humano, que pudesse ser igualmente identificado para todos os seres humanos e fosse objetivo, meta e estímulo para todos igualmente; haveria, na verdade, um número infinito de metas supremas, de tal modo que, cada vez que uma meta é atingida, uma meta ainda mais alta pode ser identificada pelo agente e assim até o infinito. O artigo apresenta três argumentos iniciais que tentam comprovar esta hipótese. Vamos examiná-los.
- Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O bem tende a se difundir, a se multiplicar – ou, como diziam os antigos, “bonum diffusivum sui”. Talvez seja um pouco difícil para nós, pessoas da contemporaneidade, aceitar que isso seja verdade, mas é fácil constatar que as coisas são assim: de fato, quando alguma coisa é boa, ela tende a se difundir, a se multiplicar, e vemos isso no nosso dia-a-dia – nas redes sociais, compartilhamos as coisas que achamos interessantes, e elas se tornam “virais”. No mercado, aqueles produtos que são bons tendem a permanecer e fazer sucesso, enquanto os produtos ruins tendem a desaparecer. Até na esfera governamental, vemos que maus gestores, maus governantes, tendem a ir para o esquecimento da história, enquanto bons governantes são amados e prestigiados por seu povo. Isso tudo demonstra a verdade da ideia antiga de que o bem tende a se difundir.
Ora, se o bem se difunde, ele se multiplica indefinidamente, diz este argumento. Por isso, um bem gera outro, e assim por diante – e sabemos que a noção de “bem” se confunde, justamente, com a noção de “Fim” ou “finalidade’: “bem” é aquilo que me move, que move a minha vontade a agir, a perseguir como um fim. Logo, se o bem se difunde indefinidamente, também os fins se multiplicam indefinidamente, de tal modo que aquilo que me parece um bem pode não parecer a você, ou aquilo que hoje me parece um bem amanhã pode não ser, ou ainda, aquilo que eu atingi ontem, aquele fim que eu alcancei, pode me parecer insuficiente hoje e assim por diante. Logo, não existe algo como um “fim último”, uma meta comum suprema, mas uma cadeia interminável de fins que se multiplicam até o infinito, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
Sabemos que aquilo que pertence à razão, isto é, aquilo que pode ser objeto de pensamento e conhecimento, pode se multiplicar indefinidamente. De fato, existe uma série infinita de números na matemática, como existe uma quantidade indefinida de futuros possíveis e de possíveis desejos. De fato, sempre que penso em um número, alguém pode pensar em um número mais elevado; sempre que penso em algo desejável, alguém pode conceber algo mais desejável ainda. Ora, se a razão humana não conhece limites, e se o fim, ou meta, do agir humano, é algo que deve ser pensado para ser desejado, então não se pode defender que exista algo como um “fim último”, um “bem fundamental”, ou uma “meta suprema” para o bem, mas apenas uma cadeia interminável de fins que se prolongam até o infinito, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
Aquilo que é bom é sempre aquilo que a nossa inteligência discerne como bom. Assim como na nossa conduta: aquilo que perseguimos como fim de nosso agir é sempre aquilo que a nossa inteligência percebe que é bom, que deve nos mover a agir.
Mas a nossa vontade tem uma capacidade reflexiva, que é fácil de notar: podemos querer alguma coisa, e em seguida podemos querer aquele querer, ou podemos não querer aquele querer, e em seguida podemos querer um querer que queríamos, e assim por diante. Um exemplo: podemos, por exemplo, querer comer carne em algum momento, e em seguida, quando descobrimos que se trata de um dia sagrado de jejum e abstinência – uma sexta-feira, por exemplo, e podemos não querer aquele “querer comer carne”, Mas sucessivamente descobrimos que precisamos de alguma energia para realizar uma atividade muito penosa que salvará a vida de muitas pessoas, mas só teríamos a energia necessária para fazê-lo se comêssemos o único alimento disponível naquele momento, que é justamente uma sopa de carne; aí passamos a não querer aquele não querer o desejo de comer carne, e os exemplos podem prosseguir até o infinito, já que não existem limites para a quantidade de reflexões que a vontade pode fazer sobre si mesma. Logo, há uma série infinita de bens, de fins que se sucedem, e não se pode falar na existência de um bem último, um fim supremo para todos os seres humanos, conclui apressadamente este argumento.
- O argumento sed contra.
O argumento contrário vai nos trazer a autoridade do próprio Aristóteles, que afirmava: “supor que uma coisa é indefinida é negar que ela seja boa”. Com isso, ele queria dizer que, para que alguma coisa possa mover em primeiro lugar a nossa vontade, ela deve ser algo definido, que pode ser compreendido, discernido. Mas se o fim último, o bem supremo do ser humano, é algo indefinido, infinito, impossível de fixar e de discernir, então ele não poderia nos atrair, porque não poderia ser entendido por nós – e ninguém pode ser atraído por aquilo que não conhece, que não pode entender, que não pode alcançar. Logo, deve haver algum bem último, algum fim supremo efetivamente definido que é capaz de atrair todo e qualquer ser humano como aquele bem sumamente desejável, conclui este argumento.
5. Encerrando por enquanto.
Essa discussão pode nos parecer muito estranha, mas precisamos entender o que Tomás busca, aqui: estabelecer se existe, ou não, algo como uma “natureza humana’, que se inclina para um mesmo fim último em comum. De fato, se podemos entender “natureza’ como “aquilo que se inclina a um mesmo fim” – e, de fato, tudo que é “natureza’ se inclina ao mesmo fim (pensemos nas abelhas fazendo mel, ou nos leões caçando, ou mesmo nas flores desabrochando), teríamos que descobrir qual é o “fim” da natureza humana. Se não conseguimos mais pensar em algum “fim” que seja comum a todos nós, temos que admitir que não existe uma natureza humana, e que há uma infinidade de fins que cada um de nós pode perseguir por si mesmo, sem nenhuma identidade com os fins de outra pessoa.
Notemos que não estamos fazendo, aqui, um debate normativo – não estamos discutindo quais “normas de vida” deveriam ser impostas a todos, ou quais condutas todo mundo deveria adotar para ter uma vida “correta”, perfeitinha. Não é esse o debate. Trata-se de algo mais profundo: será que, no fundo, existe alguma coisa que nos move como objetivo fundamental a ser atingido, independentemente de classe social, idade, etnia, gênero ou religião?: Há algo que podemos apontar como “meta suprema” do agir humano, independentemente de estar colocado em alguma “regra” ou alguma “imposição cultural”? Algo que seria capaz de ser descrito por qualquer ser humano como “sim, de verdade é isto, afinal, que eu busco como meta em minha vida”?
Veremos mais sobre isto no próximo texto.
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