Talvez a coisa mais difícil para o ser humano da contemporaneidade seja aceitar que a coisa mais importante que aconteceu em nossas vidas tenha sido, paradoxalmente, um fato que, historicamente, ocorreu na vida de outra pessoa: Nosso Senhor Jesus Cristo. A sua paixão, sua morte de cruz, não é algo que diz respeito a nós apenas de um ponto de vista externo, mas é o mais relevante que poderia nos ter acontecido. (“Quanto a mim, não pretendo, jamais, gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo“, Gálatas 6, 14).
É pela sua cruz, pela associação a ela, que temos a vida eterna. Seria possível provar, usando da melhor filosofia, que há algo no ser humano que sobrevive à morte. Seria possível sonhar, como fazem certos pós-humanistas e cientificistas, que a morte biológica venha a ser vencida pela humanidade, e que possamos criar um mundo em que a vida biológica permaneça para sempre. Mas não é disso que estamos falando, quando falamos da vida eterna: falamos da vida plena, da realização inexprimível e simultânea de toda aspiração, de todo desejo, de toda inclinação: a amizade eterna e pessoal com Deus. (“É como está escrito: Coisas que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou (Is 64,4), tais são os bens que Deus tem preparado para aqueles que o amam“, 1 Coríntios 2, 9).
Neste sentido, criar uma vida biológica interminável, ou alegrar-se com o fato de que há indícios filosóficos de que algo em nós sobrevive à morte, e confiar nisto para imaginar que podemos vencer a morte sem a cruz de Cristo, talvez seja a maior tentação que podemos enfrentar. De nada adiantaria viver uma vida pós-humana aqui na terra, ajudado pela mais avançada tecnologia, de nada adiantaria sobreviver à morte como um vago espírito lançado no mundo do nada, se não pudermos alcançar aquilo que, sem mérito nosso, Jesus nos garantiu na cruz: a amizade plena com Deus pela eternidade.
E como podemos nos associar a isto? antes de mais nada, sacramentalmente; viver liturgicamente é viver pessoalmente aquilo que não pode ser mais pessoal: a amizade com Deus. A liturgia é, assim, vida, e vida em plenitude, porque os sacramentos são a própria fonte da graça – “Se não comerdes a carne do Filho do Homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós mesmos” (João 6, 53) . Desprezar a liturgia significa desprezar a graça – mesmo que saibamos que Deus tem outras maneiras de derramar a graça sobre a humanidade. Deus não está adstrito à vida sacramental e litúrgica para derramar a sua graça maravilhosa. Mas eu, pessoalmente, estou adstrito a ela para recebê-la, e se desprezo a vida sacramental e a liturgia, renuncio, livre e conscientemente, a recebê-la – imaginar que Deus continuará a derramá-la quando eu expressamente a desprezo é violar a palavra de Jesus que nos ordena: “não tentarás o Senhor teu Deus” (Mateus 4, 7, Lucas 4, 12). Importante, em segundo lugar, é procurar viver uma vida santa, para não acontecer que, mesmo dizendo a Jesus, um dia, que “comemos e bebemos na presença dele” (Lucas 16, 26), não venhamos a ouvir dele: “Não sei de onde sois, afastai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade“.
Feliz sexta-feira santa a todos.
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