- Retomando para finalizar.
Um universo cheio de finalidade; cada coisa tem seu fim, e é concebida e existe em função dele, para alcançá-lo. Cada coisa é movida para o fim por sua própria forma substancial, e o fim existe como tal na mente de Deus – já que não existe fenomenologicamente ainda. aliás, esta é a quinta prova da existência de Deus, se nos lembramos da questão 2 da primeira parte: é justamente aquele que guarda em si todas as finalidades, antes que elas se manifestem empiricamente, que nós chamamos Deus. Um mundo vazio de Deus é um mundo sem sentido, sem finalidade. Ou ao menos sem outra finalidade que aquela criada pela mente humana.
Vimos, aliás, que é um privilégio de nossa razão conhecer o fim – não criá-lo, não concebê-lo, porque ninguém pode escolher o próprio fim, nem o fim de coisa alguma – e querê-lo livremente, elegendo nosso caminho até ele.
Vimos, no entanto, que este artigo iniciou justamente com a ideia de que o fim é algo exclusivo dos seres inteligentes, e todos os outros seres não se dirigem a uma finalidade pré-estabelecida. Mas vimos o grande debate que nos provou o contrário.
Munidos agora desses princípios, examinemos os argumentos iniciais, que tentavam provar que as coisas não providas de razão não se moviam para um fim, e escutemos as refutações de Tomás a esses argumentos.
- Os argumentos objetores iniciais e as respostas de Tomás.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento lembra que nós, humanos, justamente porque somos capazes de conhecer os fins de nossas ações, nunca agimos sem refletir sobre eles e eleger o caminho de modo deliberado. Ocorre, prossegue o argumento, que muitos seres não podem conhecer o fim, simplesmente porque não têm capacidade para tanto – pensemos nos seres inanimados, ou mesmo nos seres muito simples como as plantas – ou, mesmo sendo dotados de órgãos dos sentidos, não são capazes de refletir e formar noções abstratas sobre ele – não alcançam a razão de fim do que estão fazendo. Assim, conclui o argumento, agir para um fim é algo próprio de nossa natureza racional.
A resposta de Tomás.
Mesmo nós, seres humanos, nem sempre conhecemos de modo refletido nossos fins, ou mesmo nem sempre elegemos livremente alcançá-lo; Muitas vezes, estamos sob a autoridade daquele que cuida da comunidade, ou mesmo sob a força de alguém que nos arrasta sem nosso conhecimento ou consentimento. Nem por isso esse movimento deixa de ter um fim, embora não o persigamos livremente. Assim ocorre com as outras criaturas, desprovidas de razão.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento objetor parte da ideia de que a própria noção de fim envolve a liberdade, e portanto só pode existir quando o ente é capaz de livre arbítrio, isto é, de refletir sobre o fim e buscá-lo deliberadamente. Portanto, se agir para um fim implica ordenação da própria conduta em direção a ele, fica claro, diz o argumento, que os seres desprovidos de razão simplesmente não podem se mover para um fim, conclui.
A resposta de Tomás.
É verdade que ordenar o próprio agir para um fim é algo próprio dos seres que têm livre arbítrio, e o utilizam. Mas ser ordenado por outro para mover-se não significa que esse movimento não tenha uma finalidade, embora a condução para o fim seja de responsabilidade de outro. Por isso, os seres inanimados ou irracionais também se movem para um fim, mas sempre levados por algum ser inteligente, conclui Tomás.
O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento objetor lembra que a noção de bem envolve justamente aquilo que é objeto da vontade e nos inclina a persegui-lo. Portanto, o bem, como fim de nossas ações, é algo que se manifesta nos seres racionais, que são dotados de inteligência e vontade, e são capazes de perceber o fim como um bem e de se dirigir deliberadamente a ele. Logo, agir para um fim é próprio das naturezas racionais, diz o argumento.
A resposta de Tomás.
Vamos acompanhar, aqui, a profunda resposta de Tomás. Que, aliás, é capaz de explicar a diferença entre a vontade, como apetite da razão, e o instinto, como apetite dos sentidos.
De fato, diz Tomás, mesmo os seres vivos irracionais, que são dotados de sentidos e de cogitação sensorial, são capazes de perceber o bem em alguma situação; mas percebem apenas o bem concreto que existe ali, porque não são capazes de abstrair e perceber o bem abstratamente. Um leão que vislumbra uma presa percebe o alimento como bem concreto a ser perseguido, mas não é capaz de abstrair e pensar: aquela presa é mãe de cinco filhotinhos, e se eu a mato, impeço a procriação e posso não ter alimento no futuro. Não. Ele não é capaz de pensar desse modo, porque não é capaz de abstrair o bem e colocar-se numa posição universal. Um cãozinho que se depara com a cadela do vizinho no cio não é capaz de pensar que aquela cadelinha é o par do cãozinho Totó, que mora na casa ao lado, e privar-se da relação sexual com ela por respeito à amizade entre vizinhos. Ele não consegue fazer esse tipo de abstração, e portanto, ao perceber o cio da cadelinha, simplesmente cruza com ela.
Ora, os seres que não têm inteligência são movidos sempre por bens parciais, concretos, que estimulam suas inclinações naturais. Mas o ser humano é capaz de perceber o bem que transcende a situação concreta, e raciocinar a partir do bem abstrato: pode, por exemplo, fazer um jejum por motivos religiosos, vencendo a atração concreta que o alimento exerce sobre seus sentidos, ou privar-se de um relacionamento sexual com alguém que ele respeita porque está comprometido com outra pessoa. Do mesmo modo, o rei ou presidente de um país pode agir em razão do bem comum, enquanto um pequeno operário, ordinariamente, não se move senão pelo bem de si mesmo e de sua família, incapaz de enxergar a magnitude do bem comum.
Por isso, entendemos que o universo, com sua ordem (kosmos) é regido por uma inteligência capaz de mensurar e nos conduzir para o bem comum universal, que é a vontade divina. Há, portanto, três níveis, aí: as inclinações naturais, concretas e desprovidas de liberdade; as inclinações inteligentes, que deliberam sobre o bem a ser feito, concretamente, a partir da inteligência que é capaz de abstrair o bem abstrato, e a inteligência divina, que conhece tudo simultaneamente e tudo conduz ao bem que é ele mesmo.
- Concluindo.
Vivemos, portanto, num universo que se move finalisticamente, e a inteligência e a vontade são as características dos entes que se movem nele livre e responsavelmente. A liberdade humana, de conhecer o fim sob uma razão abstrata e buscá-lo concretamente, é caracterizada pela virtude da prudência, que estudaremos mais à frente, e consiste justamente em eleger a conduta concreta a partir de princípios abstratos.No próximo artigo estudaremos em que medida é a finalidade que caracteriza, que especifica nossos atos.
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