- Retomando.
Perguntávamos, no último texto, se o fim, a finalidade, é algo que está inscrito na natureza, ou se é algo imposto de fora por algum ser inteligente, como o olho do ser humano “lê” as horas no relógio – que, em si mesmo, nada sabe sobre as horas?
Será que o grão de milho existe para virar pé de milho e, por fim, espiga? Será que o coração existe para bombear sangue, ou será simplesmente que a evolução cega criou um músculo cego que eventualmente bombeia sangue e nos dá a impressão de existir para esse fim? Será que “atuar para um fim” é algo próprio apenas da natureza humana, de uma natureza racional?
Vimos, no texto anterior, a hipótese inicial de que a finalidade tem que ser reconhecida de fora por algum ser racional, não existindo como uma dimensão da própria natureza. Vimos três argumentos que tentavam justamente provar que “atuar para um fim” depende de uma inteligência dotada da capacidade de reconhecer o fim e de buscá-lo de modo deliberado, de tal maneira que o restante da natureza, desprovido de inteligência, age cegamente, sem visar algum fim. O argumento contrário, retirado de Aristóteles, reitera a ideia de que todos os seres movem-se para alguma finalidade, ainda que não o saibam.
Examinemos agora a resposta sintetizadora de Tomás.
- A resposta sintetizadora de Tomás.
Tudo aquilo que age, diz Tomás, age sempre para um fim. Nada age cegamente, nada age simplesmente de modo mecânico.
Existe uma hierarquia nas causas. Sabemos que, de acordo com Tomás (e com Aristóteles em primeiro lugar) a explicação para o dinamismo da natureza, para o fato de que as coisas mudam, é a teoria das quatro causas. Apesar de muito antiga – registros de mais de dois mil e quinhentos anos – essa permanece como uma boa teoria básica da mudança, do movimento, até nossos dias. Embora tenha sido bastante esquecida na modernidade, em prol de uma visão que quer explicar todas as coisas a partir das causas materiais e das causas eficientes apenas. Mas voltemos à teoria das quatro causas.
De fato, diz Aristóteles, tudo aquilo que se transforma – ou seja, todo o universo, tudo aquilo que não é Deus – obedece a quatro causas: a causa material, que explica de que uma coisa é feita, a causa formal, que explica o modo pelo qual ela está estruturada, a causa eficiente, que explica como ela passou da potencialidade (da simples promessa de ser) ao ato, e a causa final, que, embora seja a última a existir no tempo, é a primeira e mais importante das coisas, na ordem das explicações.
De fato, vamos imaginar, apenas por analogia, um escultor que deseja fazer uma estátua. A primeira coisa que ele deve fazer é decidir que estátua será esta, ou seja, quem ele visa representar com essa estátua. Qual o fim de sua atuação? Fazer uma estátua do rei para colocar ao ar livre? Fazer uma pequena estátua de Jesus para um oratório?
Quando ele decide isto, é capaz de decidir, então, qual o material adequado (madeira para uma estátua de oratório, pedra para uma estátua ao ar livre), qual a proporção e quais as feições que deverá retratar (qual forma a estátua deverá ter) e quais as técnicas e instrumentos que usará.
Ora, sem decidir qual a finalidade de seu trabalho, nenhuma outra das decisões posteriores pode ser tomada. De fato, qualquer coisa que age, precisa agir para um fim, ou então sua ação será aleatória, sem sentido, e não produzirá resultados.
Sabemos que, mesmo na natureza, as coisas não agem aleatoriamente. De uma semente de feijão não nasce um pé de manga. De um casal de lobos não pode nascer um elefante. Do choque de duas pedras de gelo não pode surgir fogo. Essa ordenação das causas, mesmo nos movimentos naturais, demonstra que tudo age para um fim, mesmo as coisas inanimadas apontam, em suas transformações, para um sentido que limita a direção dos acontecimentos.
Mas há dois modos pelos quais uma coisa se move para um fim:
1) pode fazê-lo em resposta a estímulos ou ações exteriores, aos quais não pode senão reagir daquela dada maneira, ou
2) pode fazê-lo a partir de decisões interiores, por um movimento deliberado da vontade que reage a um conhecimento adquirido pela inteligência.
No primeiro caso, pensemos num cão faminto. Ao ver a presa, ele não pode senão reagir, caçando-a e predando-a. Ele não tem a opção de jejuar voluntariamente à vista do alimento, ou de deixar de cruzar sexualmente com uma fêmea disponível por achar que isso poderia ser pecado. Ou, ainda, pensemos numa flecha: ela recebe o impulso do arqueiro na direção do alvo, e somente lhe resta cruzar os ares e atingi-lo (desde que o arqueiro seja hábil e tenha boa mira). Assim, as coisas dotadas de vida são movidas sempre de modo instintivo, determinado, para o fim que se manifesta aos seus sentidos, enquanto as coisas inanimadas obedecem simplesmente às causas eficientes que as lançam ao seu fim próprio.
Mas a natureza não é um grande mecanismo cego, conduzido de fora por algum deus imanente e poderoso, como um grande Atlas sustentando o universo. A própria substância da coisa já traz impressas as suas potencialidades, de modo que o jogo de causalidades é capaz de conduzir a natureza aos seus fins de um modo que faz sentido. A natureza tem um sentido, e o sentido está em Deus, e o sentido é Deus. Mas ela se conduz para ele de um modo não deliberado, não livre, não se movendo, mas como que sendo movido. A essa inclinação natural para o fim, Tomás chama de “apetite natural”. Ao movimento que decorre do estímulo sensorial, ele chama de “apetite sensível”, como aquele que impele o animal à presa.
No caso das criaturas racionais, ou seja, no caso dos seres humanos, temos os movimentos naturais (como o movimento de cair ao solo por atração da gravidade), temos os movimentos sensíveis (como o reflexo de resposta de alguém atingido no nervo do joelho) e temos os movimentos deliberados. A estes, que decorrem da vontade informada pela inteligência, Tomás chama de “apetite da inteligência”, ou ato voluntário.
- Encerrando por enquanto.
O apetite da inteligência, que é a vontade, gera os atos livres, fundados na capacidade de conhecer o bem e persegui-lo. Estes nos interessam de modo especial, aqui, porque são simultaneamente a fonte da felicidade e o fundamento da responsabilidade humana perante Deus e perante os outros.
No próximo texto examinaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
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