- Introdução.
No último artigo, vimos que Tomás nos demonstrou que agir para uma finalidade é próprio do ser humano, no sentido de que os atos realmente humanos são aqueles que se dirigem de modo reflexivo e consciente para um fim – embora haja muitos “atos do homem” que não têm essa característica. A questão, agora, é um pouco diferente: trata-se de saber se algum outro ente, alguma outra espécie, também pode praticar esses atos deliberados e refletidos, ou seja, atos livres em direção refletida a um fim. Ou se o fato de que não podem refletir sobre o fim torna sua atuação simplesmente sem sentido.
Esta discussão parece mais atual do que nunca: a nossa contemporaneidade já não sabe distinguir entre humano e não-humano, sob a perspectiva da liberdade e da responsabilidade. Se o critério para distinguir entre o humano e o não-humano não é a capacidade de conhecer o fim e se encaminhar deliberadamente para ele, por reconhecê-lo como bom aqui e agora e saber que ele é capaz de proporcionar completude, aperfeiçoamento, felicidade, mas o critério para reconhecer a inteligência é apenas a capacidade de se deparar com problemas e resolvê-los, então de fato nada caracteriza qualitativamente o humano como diverso da inteligência artificial ou da astúcia dos animais.
Mas se não há finalidade nos atos naturais – sejam eles atos do homem que não envolvem a liberdade, sejam eles comportamentos dos entes desprovidos de razão – então o mundo é apenas um grande mecanismo cego sem sentido, e não aquela criação fundado no logos (Evangelho de João 1, 1-4).
Podemos dizer, então, que este debate que Tomás nos propõe, no início desta primeira seção da segunda parte da Suma, é sobre o que é propriamente humano e sobre o que representa, de fato, para os humanos, a sua completude, a sua finalidade, que, em última instância, é a sua felicidade. Não é à toa que esta primeira questão quer debater justamente a felicidade humana. Mas também é uma busca pelo sentido na criação.
Mas estamos nos alongando. Vamos ao debate.
- A hipótese polêmica inicial.
A hipótese polêmica inicial, neste artigo, simplesmente inverte a hipótese do artigo anterior. Se ali debatíamos se é próprio do ser humano agir para um fim ou não, aqui, tendo alcançado a noção de que o ser humano age para um fim quando está no uso de sua vontade consciente, a hipótese proporá agora: parece que agir por um fim é próprio apenas dos entes racionais, êxodos os comportamentos que não são propriamente humanos são apenas mecânicos, ações cegas desprovidas de sentido. Há três argumentos iniciais que tentam comprovar esta hipótese.
- Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
É fácil perceber que o ser humano sempre é capaz de discernir o sentido de seu agir, e que não age sem deliberar – bem ou mal – quanto ao fim de suas ações. Ora, sabemos que, na natureza, muitos entes nem sequer são dotados de algum tipo de percepção sensorial – como os seres vivos que não têm os órgãos dos sentidos, ou aqueles que, mesmo dotados de capacidade sensorial, não são capazes de refletir sobre os estímulos que recebem. Assim, somente os seres racionais é que agem por alguma finalidade, conclui apressadamente o argumento.
O segundo argumento objetor.
O que significa “agir para alguma finalidade”? Significa, diz o argumento, conhecer o fim e querê-lo deliberadamente, ordenando a conduta para ele. Mas ser capaz de conhecer o fim e ordenar deliberadamente a conduta para persegui-lo é algo próprio dos seres racionais. Portanto, não é próprio dos seres não dotados de razão agir com vistas a um fim, conclui um tanto impensadamente o argumento.
O terceiro argumento objetor.
Sabemos que sentimos inclinação ao fim, ou seja, o fim é o bem que perseguimos quando agimos. Ora, o bem e o fim são objetos para a razão, que é capaz de reconhecê-los e apresentá-los à vontade – a vontade pode ser definida como o apetite da razão, como ensinava Aristóteles. Portanto, essa agir para o bem conhecido e adotado como fim é próprio dos seres de natureza racional, conclui este argumento.
- O argumento sed contra.
Como sabemos, o argumento sed contra traz sempre um argumento de alguma autoridade – seja a Bíblia, seja algum Padre da Igreja, seja algum filósofo, seja mesmo a sabedoria popular ou algum fato notório – que impede a aceitação da hipótese inicial, de modo a representar uma antítese a ele e possibilitar o debate.
No presente artigo, o argumento sed contra traz apenas a notícia de que Aristóteles, em sua visão de mundo, defendia que mover-se para um fim é algo que caracteriza todo e qualquer ente, e portanto não é apenas uma característica da inteligência.
- Encerrando por enquanto.
O fim é realmente um aspecto da natureza, ou é algo que a nossa inteligência impõe de fora a uma natureza cega ao fim? Este é um problema atualíssimo e cheio de consequências.
De fato, a visão mecanicista do mundo imagina que a natureza funciona como um mecanismo neutro a seus próprios fins. Pensemos num relógio. Seu mecanismo nada sabe sobre as horas, suas engrenagens giram por causa de uma relação de velocidade e frequência que é cego paradas horas. É o olhar humano que “lê” as horas no relógio.
Se imaginamos que a natureza é similar a isso, não conseguimos entender, por exemplo, qual o sentido de manter “reservas ambientais fechadas” ao acesso humano – a preservação ambiental de uma natureza sem finalidade intrínseca somente faria sentido se fosse útil, diretamente útil, ao ser humano. Mudar, então, a visão mecanicista da natureza é necessário à própria proteção ambiental.
No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de Tomás.
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