1.  Retomando para concluir.

Estamos, com este artigo, iniciando o chamado “Tratado sobre a Felicidade”, que faz a transição entre a primeira parte da Suma – que trata de Deus e da criação, bem como da relação de Deus com tudo que ele criou – para lidar, aqui, com o ser humano em sua busca por Deus, que é, como veremos no final, a única maneira que temos para sermos felizes. Podemos viver uma vida sem refletir as coisas que estamos refletindo aqui, podemos rejeitar tudo o que diz respeito a Deus e sua busca pelo ser humano, mas, do mesmo modo que aquele turista que queria ir de Brasília ao Rio de Janeiro usando a estrada que vai para Manaus, não chegaremos lá. A felicidade não consiste em prazer corporal ou em exercer poderes materiais ou espirituais, mas em desfrutar do fim – e apenas Deus é fim em sentido próprio. Por isso, de certo modo, agir por um fim é buscar a Deus e, portanto, perseguir a própria felicidade.

Vimos, no texto anterior, que todos os seres vivos têm movimento, têm dinâmica, fazem coisas. Mas apenas o ser humano pode chegar a conhecer conscientemente a finalidade daquilo que existe e mesmo daquilo que persegue, e visar intencionalmente alcançar esse fim, elegendo livremente os meios para tanto. eis o que distingue os atos humanos das meras condutas que compartilhamos com outros seres vivos, como respirar e se alimentar. Eu acrescentaria que a felicidade não está na possibilidade de escolher, mas justamente em alcançar o fim de modo deliberado, por movimento interior. Eu posso conhecer reflexivamente o fim, mas não posso criá-lo: o fim não pode ser construído, ele é reconhecido e buscado por amor, ou não será encontrado. O fim é sempre dado, nunca construído. Discutiremos mais sobre isto ao longo destes artigos.

após termos aprendido com Tomás que aquilo que distingue os atos humanos das condutas simplesmente humanas (que compartilhamos com os outros seres vivos), vamos acompanhar o modo pelo qual ele revisita os argumentos contrários do início e os responde a partir dos princípios agora estabelecidos.

  1. Os argumentos objetores iniciais e a resposta de Tomás.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor lembra que as causas determinam o modo de ser dos efeitos. Ora, o fim sempre vem depois, como o próprio nome diz. Logo, ele não pode ser considerado uma causa, porque as causas devem ser anteriores aos efeitos, de modo a poder desencadeá-los. Assim, o ser humano age movido pelas causas que desencadeiam seu agir,  e portanto são essas causas, e não alguma finalidade visada com o agir, que movem o ser humano. Portanto, não podemos dizer que o ser humano age por causa de algum fim, conclui o argumento, erroneamente.  

A resposta de Tomás.

Não há dúvida de que, no mundo empírico, temporal, material em que vivemos, o fim sempre vem por último, o que é, aliás, o próprio significado da noção de fim.  A última coisa que executamos, em nosso agir, é o fim, ou finalidade, do que estamos fazendo. Mas, avaliando a conduta humana a partir da nossa reflexão e deliberação, a finalidade é a primeira coisa que ocorre em nossa mente, quando estamos deliberando a respeito da nossa conduta. Neste sentido, a primeira coisa em nossa intenção é o fim, ou finalidade, e ela é quem guia as eleições concretas e refletidas que pautam a ação propriamente humana. Neste sentido, podemos dizer que o princípio por excelência da ação humana é a finalidade.

O segundo argumento objetor.

Aquilo que chamamos de “fim” não pode existir em função de alguma coisa ulterior. Quer dizer, se alguma coisa é fim último, ela não pode ser meio para outra coisa. Mas há alguma coisa que nós fazemos que é um fim último, como bem disse Aristóteles no início de sua Ética a Nicômaco. Há algum fim último, alguma coisa que desejamos mais do que qualquer outra, que é o bem supremo para nós. Ora, se há, em nosso agir, algo que é o bem supremo, então esse algo que é o bem supremo não existe em razão de algum outro fim, mas é, ele mesmo, o objetivo final do nosso agir. Logo, a ação que é entendida como bem supremo não é finalística, e portanto nem toda ação humana é finalística, diz o argumento, sofisticamente.

A resposta de Tomás.

Mesmo que admitamos, como faz Aristóteles, que há uma ação humana que é o fim último de tudo, que é o bem supremo do nosso agir (e veremos nos artigos seguintes que tipo de ação poderia ser esta, se é algo como receber uma grande honraria, apossar-se de uma grande fortuna, etc.), ela tem que ser voluntária, ou então não seria uma ação propriamente humana, como vimos na resposta sintetizadora. 

Mas o que é uma ação voluntária? Tomás nos diz que há dois sentidos pelos quais uma ação pode ser chamada de voluntária:

  1. Ela pode ser uma ação que a vontade controla, mas é externa à própria faculdade da vontade – como andar para casa, conversar com alguém, etc.; Estes são os chamados atos imperador pela vontade, já que andar para algum lugar é um ato voluntário, mas é um ato do aparelho locomotor, e não da faculdade da vontade;
  2. Ou ela pode ser interna à própria vontade, como querer, ou mesmo querer ter vontade

Mas um ato interno à própria vontade não pode ser um fim último, pelo simples fato de que uma faculdade humana não existe para si mesma. Por exemplo, nosso sentido da visão não existe para ver a si mesmo, ou pela mera possibilidade de enxergar, mas para enxergar as formas, cores e movimentos do mundo que se põe diante de nós. 

Assim, de maneira análoga, a vontade não existe para querer a si mesma, ela não existe em busca de alguma vontade cega de poder, que signifique apenas poder querer cada vez mais, como o olho não existe para querer ver, mas para ver coisas

Por isso, mesmo que um determinado ato voluntário seja fim último – e portanto não seja realizado por outra coisa, mas apenas por ele mesmo (como ficar rico, receber honrarias, etc.), esse fim deve ser, necessariamente, algum bem que se persegue fora da vontade mesma, e portanto aquela ação que teria o significado de fim último não pode ser uma ação interna à própria vontade (item 2 acima), mas um ato imperado pela vontade (item 1 acima), isto é, algum ato externo à faculdade da vontade, mas que seja por ela eleito e dirigido. Mesmo o ato de querer esse ato, que é um ato interno à própria vontade, tem sempre por referência algo que está além da faculdade da própria vontade, e portanto envolve algum processo de busca por um fim. Assim, podemos dizer com segurança que toda ação propriamente humana, eleita e imperada pela vontade, mesmo o próprio querer, tem uma finalidade que ela persegue, e assim podemos concluir que o ser humano sempre age por um fim. Mesmo quando a sua ação tem o valor de fim último.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento objetor admite que, quando o ser humano age refletidamente, ele está sempre em busca de algum fim. Mas este argumento lembra que nem sempre agimos refletidamente, como nas ocasiões em que coçamos o nariz, arrastamos os pés ou esfregamos o cabelo. Então nem tudo o que o ser humano faz se dá em busca de um fim, conclui o argumento, apressadamente. 

A resposta de Tomás.

Nem tudo aquilo que fazemos pode ser considerado, propriamente, como atos humanos em sentido próprio. Algumas coisas são simplesmente atos do ser humano, como coçar a cabeça ou mover os pés, porque, embora possam até ter alguma finalidade (como a reação reflexa a algum inseto que se prendeu no cabelo), essa finalidade não é refletida conscientemente em nossa inteligência nem escolhida deliberadamente pela vontade. 

  1. Concluindo.

Deste artigo, devemos reter algumas coisas:

  1. existe uma diferença entre atos humanos, voluntários e deliberados e simples ações do ser humano, que não diferem em espécie daquelas realizadas de modo semelhante por outros seres humanos.
  2. A finalidade está sempre presente de modo consciente e refletido nos atos humanos propriamente ditos – que são, portanto, deliberadamente escolhidos.
  3. Mesmo quando algum ato humano é visto por nós como um fim em si mesmo, esse fim sempre diz respeito a algum aspecto de nós que não é apenas a vontade de querer, mas envolve algum tipo de ação externa à vontade e por ela imperada.

Este tema será aprofundado em toda esta primeira seção da segunda parte, de modo que este artigo é um excelente preâmbulo de tudo o que veremos aqui – liberdade, responsabilidade e felicidade.