1.  Retomando.

O conhecido parágrafo introdutório de Aristóteles na sua obra “Ética a Nicômaco” nos ensina que “toda arte e toda indagação, assim como toda ação e todo propósito, visam a algum bem; por isto foi dito acertadamente que o bem é aquilo a que todas as coisas visam”. De certa forma, está estabelecido, aqui, que o fim tem razão de bem, e que a sua busca é aquilo que nos move. Mas estamos adiantando aquilo que discutiremos ao longo dos artigos desta questão. 

Neste artigo, a hipótese inicial quer provar exatamente o contrário disso: não haveria essa busca pelo fim, na razão humana. A nossa ação humana não seria finalista, isto é, não se encaminharia, deliberada e conscientemente, em direção a uma finalidade conhecida, refletida e deliberadamente buscada. Esta primeira hipótese é defendida por três argumentos iniciais que tentam refutar quaisquer objeções a ela, e por isso nós chamamos de “argumentos objetores”. 

O primeiro argumento objetor do presente artigo argumenta que todo efeito traz, em si, as marcas da sua causa principal. Ora, a finalidade é uma causa também, mas é certamente a última, no decurso temporal. Logo, ela não pode dar a identidade ao efeito. As causas material, formal e eficiente vêm cronologicamente antes da causa final. Portanto, não é o fim que determina as nossas ações, segundo este argumento. O segundo argumento lembra que o fim tem a característica, justamente, de ser a última coisa numa linha de valores. Ora, nem tudo o que o ser humano faz, ele o faz em busca de um valor que é o último numa escala . Logo, nem sempre, diz o argumento, agimos pelo fim. Finalmente, o terceiro argumento traz a ideia de que, para buscar deliberadamente um fim, seria preciso que cada ato humano fosse cuidadosamente refletido, que esse fim fosse conscientemente identificado e perseguido. Mas nem tudo o que fazemos é deliberado com tal grau de reflexão. Logo, nem sempre agimos por um fim, conclui o terceiro argumento.

Por fim, o artigo nos traz o argumento contrário, que recorre justamente a Aristóteles, que lembra que a identidade dos fatos decorre do seu princípio. Ora, o princípio de toda ação é justamente a finalidade a que se destina; logo, tudo o que fazemos se dirige a alguma finalidade, e retira dela o sentido.

Examinemos agora a resposta sintetizadora de Tomás. 

  1. A resposta sintetizadora de Tomás.

A primeira ideia que Tomás nos traz é a mais genial, justamente porque é a mais óbvia – e, para lembrar um velho chavão, às vezes o óbvio é o mais difícil de ser notado. 

O que é um ato propriamente humano? Deve ser algo que não compartilhamos com outros seres, lembra Tomás. Que nos caracteriza, que nos são próprias como humanos. 

Ora, das muitas coisas que fazemos, diversas delas não nos são próprias nesse sentido. Todos os seres vivos se reproduzem, logo o simples fato da reprodução não é um ato humano, porque não é próprio do ser humano. Como não o são a alimentação, a respiração, a percepção sensorial, a defesa, enfim, tudo aquilo que compartilhamos com os outros seres. Mas, mesmo quando fazemos, materialmente, uma atividade ou conduta que os outros seres vivos fazem, no entanto não fazemos do mesmo modo que eles. 

De fato, somos dotados de uma capacidade de reflexão e escolha que os demais seres não possuem. Pela nossa inteligência, podemos refletir até mesmo sobre os reflexos que provocam, em outros seres vivos, apenas respostas instintivas, e podemos eleger metas e escolher caminhos para chegar a elas. Somos, nesse sentido, senhores das nossas ações, mesmo daquelas que, para outros seres vivos, são apenas reativas. 

Esta capacidade, que envolve o conhecimento reflexivo das nossas metas e a capacidade de escolher os caminhos para alcançá-las, empenha, pois, as faculdades da inteligência e da vontade, que possibilitam o exercício do livre arbítrio, pelos seres humanos. 

Portanto, podemos afirmar que, ao lado dos atos casuais ou automático que realizamos, e que podem ser chamados de simples atos dos seres humanos (ou, para usar a linguagem tradicional, atos do homem), que não são específicos do ser humano (pois são realizados do mesmo modo que o fazem os outros seres vivos), existem os atos propriamente humanos, que decorrem da identificação do fim e da sua livre eleição, vale dizer, da nossa inteligência e, principalmente, da sua faculdade apetitiva que se chama vontade

Ora, a vontade se inclina naturalmente àquilo que a inteligência percebe como bem. E, como vimos na citação aristotélica acima, o bem tem razão de fim, vale dizer, o bem que conhecemos intelectualmente, de modo reflexivo, se apresenta à nossa vontade como meta a ser perseguida. Nossa finalidade, como seres livres, é perseguir o bem em nossas ações, o que significa que sempre agimos, quando agimos livremente, por um fim que se apresenta para nós como bem a ser perseguido. Isto caracteriza os atos propriamente humanos, que, justamente por serem livres, empenham nossa responsabilidade.

  1. Encerrando por enquanto.

Inteligência e vontade. Finalidade e responsabilidade. Eis o comportamento propriamente humano, pelo qual somos, ao mesmo tempo, responsáveis perante os outros e capazes da felicidade. A felicidade propriamente humana só pode decorrer dos nossos atos livres, isto é, de nossa vontade orientada por nossa inteligência.

Mais uma vez, estamos nos adiantando muito, quanto àquilo que será objeto dos próximos debates.

No próximo texto examinaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.