1.  Introdução.

Estamos, agora, em outro ponto da Suma: a parte que diz respeito, mais de perto, ao ser humano e ao seu modo de ser, especialmente à liberdade humana. Se, na primeira parte, estudamos o movimento pelo qual a criação sai das mãos de Deus, encontramos agora o ser humano num movimento de tomar consciência de si e retornar a Deus. Neste movimento, partimos, neste primeiro momento, da busca do sentido desse movimento. 

Aqui, precisamos lembrar que somos movidos, também em nossas ações, por causas – e em que medida essas causas interferem, determinam ou impedem a liberdade humana. Tomás está longe de ser um pensador gnóstico, ou seja, alguém que acha que há oposição entre a dimensão material e a dimensão espiritual do ser humano, de tal modo que somente no plano espiritual é que a liberdade se poderia dar. Tomás sabe que a liberdade inclui o jogo de causalidade e se pauta por ele: especialmente a finalidade se relaciona com a liberdade de tal forma que a liberdade somente se constitui quando envolve um fim. Não se trata apenas de agir sem estar condicionado por determinações físicas; mas se trata de ser capaz de reconhecer o fim das próprias ações e dirigir-se voluntariamente a ele. 

Este é o tema agora: agimos por um fim? E que fim seria este? 

Este primeiro texto diz respeito à primeira abordagem: será que, de fato, a causa final está relacionada à liberdade? Ela determina a natureza de ação voluntária do comportamento humano? 

Trata-se de debate importantíssimo para a questão da responsabilidade – ética e jurídica – do agir humano. Vamos ao debate.

  1. A hipótese controvertida inicial.

A hipótese, aqui, quer afastar a ideia de que os atos do ser humano tem uma natureza finalística;, isto é, a hipótese inicial, para provocar o debate, propõe que nós somos  determinados pelas suas causas material, formal e eficiente – quer dizer, pelas forças da natureza, externas à vontade do ser humano – e não se dirigem, antes de mais nada, às finalidades que elegemos. Isto é, no fundo somos determinados pela natureza, e não atores livres. Para tentar comprovar esta hipótese inicial, que soa muito contemporânea para nós, há três argumentos objetores. Vamos examiná-los.

  1. Os argumentos objetores iniciais. 

O primeiro argumento objetor. 

O primeiro argumento objetor quer provar que, no fundo, todos os comportamentos humanos são determinados pelas mesmas causas eficientes, materiais e formais que determinam todas as outras ocorrências da natureza, mas que não somos movidos pela busca consciente e deliberada de alguma finalidade, quando agimos.

O argumento afirma que o fim, a finalidade, é, como o próprio nome indica, a última coisa no encadeamento causal de qualquer acontecimento. Mas é claro, diz o argumento, que aquilo que desencadeia um acontecimento não pode ser a última coisa na sua série de eventos, mas a primeira. Portanto, não podemos considerar o fim, a finalidade, como uma causa, mas apenas como uma consequência do agir humano. Ora, o que desencadeia nosso agir, que o caracteriza e determina,  é aquilo que funciona como causa, não aquilo que funciona como consequência. Logo, não é próprio do agir do ser humano encaminhar-se a uma finalidade, conclui apressadamente o argumento. 

O segundo argumento objetor.

Aquilo que se constitui como uma finalidade não pode se referir a outra coisa senão a si mesma, porque, caso contrário, não seria uma finalidade, mas um meio. ora, há certas ações humanas que são fins em si mesmas, e portanto não se dirigem a outra coisa. Mas se todas as ações do ser humano fossem dirigidas a um fim, esse fim seria algo externo às próprias ações. Logo, nem todas as ações humanas se dirigem a algum fim, conclui um tanto levianamente este argumento. 

O terceiro argumento objetor.

Para que pudéssemos dizer que as ações humanas são sempre dirigidas a um fim, deveríamos constatar que, sempre que age, o ser humano tem em mente, de modo consciente e refletido, a finalidade que busca com aquela ação, elegendo-a deliberadamente. Ora, todos nós sabemos que a maioria dos atos que fazemos não envolvem essa reflexão e deliberação,  como aqueles atos de coçar o cabelo, de agitar as mãos ou balançar os pés. Logo, nem todas as coisas que fazemos são movidas a uma finalidade, conclui irrefletidamente o argumento. 

  1. O argumento sed contra.

O argumento sed contra é profundamente filosófico, e recorre a Aristóteles para estabelecer a ideia de que tudo aquilo que pertence a um gênero qualquer está contido nesse gênero porque deriva de seu princípio. É fácil entender essa afirmação: digamos que vamos construir um conjunto de números pares. O princípio adotado para colocar um número qualquer nesse conjunto é que ele seja um número par. Podemos dizer, então, que este é o conjunto do gênero par de números.

Ora, qual o princípio do conjunto das ações humanas? Se fôssemos construir um conjunto deste tipo, diz Aristóteles, o seu princípio deveria ser a finalidade, ou seja, para que um agir seja considerado como pertencendo ao gênero das ações humanas, ele deve visar algum fim. Logo, conclui este argumento, agir por um fim é próprio do ser humano. 

  1. Encerrando por enquanto.

 Assunto da maior importância. Seremos realmente seres capazes de identificar um fim e dirigir conscientemente nossos esforços para alcançá-lo? Ou será que somos seres estritamente condicionados por forças naturais e sociais, e apenas nos enganamos quando acreditamos que estamos buscando deliberadamente alguma finalidade, em nossas ações? Eis o que debateremos no próximo texto