- Retomando para concluir.
Perguntávamo-nos, no final do texto anterior, se este debate traria um interesse meramente histórico, vale dizer, se ele interessaria apenas a quem deseja saber mais sobre um conhecimento científico ultrapassado de professores medievais. E ali eu respondia que, a mim parece que não. e explicava que não estamos, aqui, no reino das ciências naturais, mas da teologia, e Tomás estava buscando entender o ser humano no seu mistério de criatura divina. A ele interessava, portanto, debater em que medida a reprodução humana está vinculada à biologia e em que medida está nas mãos do próprio Deus.
De fato, Tomás intuiu que a reprodução transmitia não somente a species do ser, mas também as características individuais do espécime humano. Deste modo, restaria perguntar se, como foi proposto na hipótese inicial, haveria uma “bipartição” da própria essência do genitor – e o sêmen seria uma “Miniatura” do genitor” – ou se essa transmissão se daria por algum tipo de “comunicação material” (que a ciência antiga enxergava como ocorrendo pelo líquido seminal) de uma semelhança que, mesmo sendo abstrata, é capaz de portar as informações necessárias para a nova vida.
Hoje, sabemos mais do que Tomás sabia, e vemos que as suas intuições ficam ainda mais reforçadas. Não é o sêmen, mas os pequenos gametas masculinos que estão nele, que transportam metade da informação genética do novo ser humano. O gameta feminino guarda a outra metade, de tal modo que o encontro dos gametas no útero já determina a existência de um novo ser humano, com atualidade existencial e potencialidade plena. Ou seja, a informação que Tomás tinha, de que a formação do ser humano começa com o surgimento de um “animal” genérico (no primeiro instante da concepção), que se encaminha progressivamente à diferenciação e à “humanização”, até constituir-se como matéria apta a receber de Deus a alma espiritual, está simplesmente equivocada. Somos atual e plenamente humanos desde a concepção, como mostra a ciência de nossos dias.
Tendo estabelecido estes princípios, vamos revisitar os argumentos objetores iniciais e as respostas que Tomás nos oferece sobre eles.
- Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor lembra um ensinamento de São João Damasceno, de que os genitores geram naturalmente a própria substância do filho, na fecundação. Ora, prossegue o argumento,a causa da fecundação é o fato de que o sêmen é introduzido na fêmea, levando até ela a própria substância do genitor. Logo, o sêmen advém da própria substância do gerador, e não apenas de elementos que ele absorve pela alimentação, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Não há dúvida, diz Tomás, de que a geração envolve a transmissão da própria substância dos genitores à prole, de tal modo que um filhote de cão é um cãozinho, ou a prole humana é sempre de seres humanos. Mas esta substância transmitida não vem ao filho concebido como algo arrancado à substância dos pais, mas como algo que tem as informações potenciais para, no momento da concepção, ser atualizado como um novo ser.
O segundo e o terceiro argumentos objetores.
Examinaremos em conjunto o segundo e o terceiro argumentos objetores, porque Tomás responde a eles também de modo conjunto.
O segundo argumento objetor lembra que, muitas vezes, o filho recebe características do avô e mesmo do bisavô. Ora, se o sêmen fosse formado a partir de elementos assimilados na alimentação do pai, esses alimentos não poderiam trazer informações de antepassados que não o consumiram. No terceiro argumento, acrescenta-se ainda que, se o sêmen fosse formado assim, então o filho teria mais elementos do alimento (pareceria com legumes, com verduras, com bois e porcos, etc.), do que dos genitores. E desse raciocínio os argumentos concluem que o sêmen é formado da substância do genitor e não de elementos adquiridos pela assimilação de alimentos.
A resposta de Tomás para o segundo e terceiro argumentos..
Tomás considera muito errada a ideia de que “nós somos aquilo que comemos”, que é uma ideia ainda presente mesmo em nossos dias. Na verdade, a ciência prova exatamente o contrário: aquilo que comemos, após a digestão e a assimilação, passa a ser parte de nós. Assim, o que Tomás quer dizer é que os gametas não são um “pedaço arrancado de nossa matéria substancial”, mas são alguma coisa que nosso organismo constitui com a função de transmitir as informações necessárias à concepção do filho – e não a matéria dele. Desse modo, a expulsão do líquido seminal não arranca um pedaço de nós materialmente, mas transporta formalmente aquilo que nós somos – nossa carga genética, diríamos hoje em dia. E assim Tomás considera respondidas as objeções de números dois e três.
O quarto argumento objetor.
O quarto argumento objetor resgata um pensamento de Santo Agostinho. Ele dizia que nós existimos em Adão, ou seja, trazemos a herança do primeiro homem, mas não apenas pela herança da nossa espécie, senão também pela própria substância corporal. Mas se o sêmen fosse formado do alimento superveniente, nada da matéria de Adão existiria em nós. Assim, o argumento conclui que o sêmen não é formado apenas da matéria advinda pela nutrição, mas da matéria que constitui a própria substância do nosso corpo.
A resposta de Tomás.
Aqui, na resposta de Tomás, vemos a conjugação da ciência de seu tempo com a teologia que constitui o núcleo da Suma Teológica. Ora, a ciência no tempo de Tomás acreditava, como já vimos, que o homem fornecia o princípio formal da reprodução, pelo sêmen, e a mulher fornecia o “recheio” do ser humano, dando a matéria necessária ao crescimento embrionário. Ora, deste modo, “existir em Adão” significa partilhar, com os primeiros seres humanos, a forma humana, pela transmissão masculina, e a matéria humana, pela transmissão feminina. Hoje, nossa compreensão permite imaginar que compartilhamos tanto o DNA masculino quanto o DNA feminino dos primeiros seres humanos, de tal modo que conseguimos investigar, inclusive, quais traços genéticos ancestrais nos chegaram pelo ramo materno e pelo ramo paterno.
O interesse, aqui, é determinar a própria concepção de Jesus: para Tomás, ele recebeu do Espírito Santo aquela parte que caberia ao pai, e de Maria aquela parte que caberia à mãe. Esta noção nos traz uma bela intuição: a concepção de Jesus envolve a recepção do gameta de Maria e da sua nutrição e sustentação, mas também envolveu a criação de uma carga genética pelo Espírito Santo, de tal maneira que Jesus não era um simples clone de Maria, mas, geneticamente, verdadeiramente homem e Deus ao mesmo tempo – verdadeiro filho de Deus, mesmo geneticamente. Embora legitimamente inserido na descendência de Adão pela herança genética de Maria, ele não recebe a herança maldita do pecado – nem pelo lado de Adão, de quem não tem os cromossomas, nem pelo lado de Maria, que foi preservada, desde a concepção, da mancha do pecado original. Plenamente homem, plenamente Deus, semelhante a nós em tudo, menos no pecado (Hebreus 4, 15b). Glória a Deus!
- Concluindo.
Desde o primeiro momento, o pequeno humano já existe de modo atual, com sua carga genética humana completa, a mesma que estará nele até sua morte e mesmo no seu material biológico que remanesce após a morte. A concepção determina a existência de vida humana e pessoal desde o primeiro momento, e isso é explicitamente ensinado pela Igreja em documentos como a Instrução Sobre o Respeito à Vida Humana Nascente e à Dignidade da Procriação, que vale a pena consultar.
Encerramos assim, depois de oito anos, o comentário despretensioso, não mais do que uma leitura anotada, sobre toda a primeira parte da Suma Teológica. Agradeço de coração aos que nos seguiram até aqui, peço que curtam e compartilhem o material (se acharem interessante) e dirijo a Deus duas orações: uma em ação de graças, por termos chegado até aqui e aprendido tanto, e outra pedindo graças e força para, se for de sua vontade, prosseguir na intenção de ler e anotar a Suma até o final.
A felicidade não é menor por ter alcançado esta etapa justamente no ano em que Tomás de Aquino completaria oitocentos anos de seu nascimento. São Tomás de Aquino, rogai por nós!
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