1. Retomando.

Vamos recordar que, no texto anterior, a hipótese inicial nos propunha que o sêmen, ou seja, a semente paterna que fecunda a mãe e dá origem ao novo ser, seria retirado da própria substância essencial do pai, algo como uma “reprodução por fragmentação”, em que a substância essencial do pai formaria a semente a ser fecundada na mãe. Vimos quatro argumentos que tentam comprovar esta hipótese – aliás totalmente incompatível com os conhecimentos científicos de nossos dias – baseando-se no fato de que, se o sêmen fosse formado a partir de elementos supervenientes obtidos pela nutrição, a transmissão da semelhança específica, ou mesmo das semelhanças individuais, não poderia ser adequadamente explicada. Por fim, vimos um argumento contrário, em que a posição de Aristóteles – que defendia que o sêmen seria formado dos elementos advindos da alimentação, pela assimilação na digestão. 

  1. A resposta de Tomás.

Para entender o modo como Tomás resolve este debate a respeito da reprodução humana, especialmente da sua dimensão biológica (já que a dimensão espiritual já foi estudada na questão 118, que trata da participação de Deus na reprodução humana), é preciso lembrar de tudo que foi debatido no artigo primeiro desta mesma questão 119, que já estudamos em cinco textos, e que Tomás passa a resumir agora.

O resumo do processo de assimilação dos elementos alimentares.

Sabemos, porque já estudamos no primeiro artigo desta mesma questão, que o corpo humano tem o poder de assimilar os elementos dos alimentos que comemos, transformando-os, pelo processo digestivo, nos tecidos do corpo humano. Não é que sejamos aquilo que comemos, mas certamente aquilo que comemos passa a ser nós mesmos. Tomás descreve esse processo de assimilação como uma capacidade do corpo humano de comunicar sua própria forma estrutural à matéria assimilada pela alimentação. Aquilo que antes era, digamos, matéria de frutas e legumes, passa a ser, pela ingestão e digestão, a matéria de nosso próprio corpo – suas células, seus tecidos, seus órgãos.

Mas esse é, diz Tomás, um processo gradativo, que ele compara ao próprio processo de gestação. Assim como o pequeno embrião concebido, que no princípio é constituído por apenas uma célula indiferenciada quanto às estruturas corporais, vai crescendo e se tornando um ser humano cada vez mais diferenciado em suas estruturas, de modo semelhante a matéria absorvida em nosso organismo é primeiro assimilada em nós de um modo indiferenciado, ficando disponível para ser integrada em qualquer estrutura do nosso corpo: ela passará a compor nossos músculos, glândulas, ossos, tendões, fluidos, etc. 

Como se forma o sêmen em nós

Ora, não é da matéria que já se tornou uma das estruturas de nosso corpo que o sêmen é formado. É claro que Tomás não tinha como saber da função dos testículos, dos canais e da próstata nesse processo de formação dos espermatozóides. Mas ele intuiu corretamente que o corpo não precisa recorrer a “pedacinhos” de cada parte do corpo para formar a semente daquilo que provocará a fecundação e a concepção de um novo ser humano. Embora ele não soubesse nada a respeito de genética ou de DNA, ele propõe, a partir do pensamento de Aristóteles, que existe, no corpo, uma “matéria indiferenciada” que já faz parte de nós, mas ainda não foi incorporada a nenhuma estrutura particular do corpo, como músculos, órgãos, etc. Essa estrutura seria, conforme a ciência de hoje, o DNA, que traz em si a informação genética do corpo em cada uma das suas células. o DNA seria, então, essa matéria que já é plenamente nossa, mas ainda é indiferenciada, porque carrega em si a informação completa do nosso corpo. 

Os gametas, então, não se formam por algum tipo de divisão ou bipartição de cada estrutura do corpo, como se dá nos animais que se reproduzem assexuadamente, mas pela concentração da informação indiferenciada do que nós somos. Mais uma vez, Tomás tem a intuição correta a partir da informação incompleta da ciência que dispunha.

Os gametas masculino e feminino.

Na ciência que Tomás conheceu, o sêmen traria para a mulher toda a informação do futuro ser humano, e caberia à mulher a função de ser “campo fértil” para o desenvolvimento. Hoje sabemos que o gameta masculino tem apenas a metade da informação genética necessária para a concepção de um novo ser humano; o óvulo, que é o gameta feminino, traz a outra metade. O papel da mulher na concepção, pois, é ainda muito mais rico do que Tomás esperava.

3. Encerrando por enquanto. 

Será que este debate só traz interesse histórico, vale dizer, interessa apenas a quem deseja saber mais sobre um conhecimento científico ultrapassado de professores medievais? A mim parece que não. Não estamos, aqui, no reino das ciências naturais, mas da teologia, e Tomás estava buscando entender o ser humano no seu mistério de criatura divina. A ele interessava, portanto, debater em que medida a reprodução humana está vinculada à biologia e em que medida está nas mãos do próprio Deus. 

Assim, depois de estudar a origem divina da alma espiritual humana, Tomás debate, com os dados que dispõe, sobre a origem biológica do corpo humano. E questiona em que medida recebemos de nossos pais a semelhança deles, não só a semelhança específica de seres humanos, mas a semelhança individual de traços de aparência e mesmo de traços de temperamento. Vale lembrar que, para Tomás, o corpo humano não é apenas extensão material e mecanismo, como será, depois, para Descartes e os modernos. O corpo humano é a dimensão individualizante e histórica de uma criatura una e integral, que é a um só tempo espiritual e material – e deve sê-lo para sempre. E que, portanto, embora sujeito à morte biológica, é eterno em sua espiritualidade e destinado a recobrar a dimensão material pela ressurreição. 

No próximo texto, que será, finalmente, o último desta primeira parte da Suma (que levamos oito anos debatendo), estudaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.