- Introdução.
Mais uma vez, vamos nos deparar com uma reflexão que tem que ser lida à luz do seu tempo, da ciência do tempo de Tomás – que, como sabemos, ele conhecia e respeitava. À míngua de equipamentos como o microscópio e outros que nos capacitam a ver o que é invisível a olho nu, restava tentar compreender o mistério a partir dos dados visíveis e à luz da razão. O dado visível era o de que o ato sexual levava à reprodução, e que o animal de sexo masculino emitia, na cópula, um líquido (o sêmen) que levava à fecundação da fêmea – também no caso dos seres humanos. Não havia a menor possibilidade de descobrir que o sêmen era, ele mesmo, composto de gametas masculinos microscópicos. Portanto, a antiga ciência imaginava que era o próprio sêmen, em sua totalidade, que carregava a capacidade de fecundar a fêmea. Não se conhecia, tampouco, a existência de algum tipo de gameta feminino, mas eles não desconheciam o fenômeno da herança de caracteres: não somente a prole herda a espécie dos genitores (humanos geram humanos, cães geram cães e assim por diante), como herda, também, inegáveis semelhanças físicas com os indivíduos antepassados, quer do tronco feminino, quer do tronco masculino.
A explicação era a de que a informação básica do corpo viria do sêmen, enquanto a materialização do corpo viria do útero materno. Isso parecia explicar a origem dessas semelhanças: a semelhança do pai vinha impressa no sêmen, mas a semelhança da mãe era desenvolvida ao longo da gestação, pelo fornecimento da matéria ao corpo da prole. A gestação tinha etapas, que, para aquela ciência, caminhava do geral ao individual. Assim, primeiro o embrião era do gênero animal (o que parecia ser demonstrado pelo fato de que, nos primeiros dias de gestação, os embriões de todas as espécies animais se parecem muito). Depois, ele adquiriria os elementos próprios da espécie humana em geral, para, apenas ao final da gestação, desenvolver sua individualidade dentro da espécie (adquirindo um formato próprio de nariz, de boca, cor de cabelo e assim por diante). Hoje, com os conhecimentos da genética, da embriologia e da medicina em geral, sabemos que não é assim que as coisas acontecem. Mas nos interessa entender este debate, para perceber como Tomás chega a intuições que ainda permanecem válidas para nós, e de certo modo como ele conseguiu antecipar elementos que a ciência só viria a descobrir séculos depois.
No presente artigo, o mistério debatido é quanto à natureza e a origem daquilo que, fenomenologicamente, interpela o observador, no tempo de Tomás e no nosso: que coisa é esta que transporta, do homem para a mulher, a capacidade de fecundar e transmitir humanidade, semelhança, pertença? É certo que, hoje, explicamos de modo mais complexo: conhecemos as moléculas envolvidas, os gametas, o DNA, o processo de ontogênese, mas nada disso resolve o mistério que está em jogo: como pode ser que sejamos parecidos com nossos ancestrais? Por que o somos? Qual o sentido disso? Isso não é mais explicado pela ciência do nosso tempo do que era no tempo de Tomás. Por isso, ainda vale a pena revisitar este debate. Vamos a ele.
- A hipótese polêmica inicial.
A hipótese polêmica inicial, que se depara com todo esse fenômeno da reprodução sexuada, que transmite os caracteres de semelhança dos antepassados à prole, e que percebe a existência palpável desse elemento que sai do corpo masculino para fecundar a fêmea – o sêmen – e tenta explicá-lo. A hipótese propõe, então, que o sêmen não é construído, no corpo masculino, a partir dos elementos e da energia adquiridos pelo alimento superveniente que consumimos e assimilamos, mas é a própria substância do pai que se condensa naquele pequeno volume de líquido e se transmite ao corpo feminino para a fecundação. O artigo nos traz, então, quatro argumentos objetores iniciais que tentam comprovar esta hipótese inicial.
- Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor lembra que São João Damasceno, tentando explicar este mesmo fenômeno da reprodução, afirma expressamente que a geração humana não ocorre por mágica nem por milagre, mas é um fenômeno natural, pelo qual, como resultado da atividade sexual, a prole surge a partir da substância do genitor. Ora, se é assim, então o sêmen não é produzido em nós pela utilização de elementos e matéria assimilada pela alimentação, mas pela condensação da própria substância essencial do genitor, conclui apressadamente o argumento.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento objetor parte de uma interpretação do fenômeno da semelhança entre a prole e o genitor. Os filhos, diz o argumento, são parecidos com o pai. Isto prova que eles recebem alguma coisa do pai, por intermédio do sêmen. Mas se o sêmen fosse construído, no corpo masculino, a partir dos elementos e da energia recebida pelo alimento consumido, então ele não poderia transmitir ao filho as características do avô e dos demais antepassados paternos, porque o alimento é assimilado pelo pai, mas não esteve nem no avô, nem nos demais antepassados. Assim, a semelhança do filho com o pai não poderia envolver nenhuma semelhança de netos com avós e assim por diante, se o sêmen fosse formado do alimento ingerido pelo pai. Logo, o sêmen se forma da própria substância essencial do pai, e não de algum elemento advindo da alimentação que ele assimila, conclui imprudentemente o argumento.
O terceiro argumento objetor.
O homem se alimenta de carne de boi, de carne de porco, de frango, de legumes e frutas. Ora, se o sêmen fosse construído a partir dos elementos assimilados pelo alimento que advém, então a prole humana guardaria semelhança com aquilo que comemos, e não com o pai. Logo, conclui levianamente o argumento, o sêmen é formado da nossa própria substância essencial, e não de elementos sucessivamente adquiridos na alimentação.
O quarto elemento objetor.
Segundo Santo Agostinho, nós herdamos de Adão não somente uma semelhança relacionada com elementos do sêmen, mas verdadeiramente herdamos a própria identidade substancial da nossa biologia, de nosso corpo. Mas se o sêmen fosse formado por elementos sucessivamente extraídos daquilo com que nos alimentamos, não poderíamos ter essa identidade substancial que remonta aos primeiros pais. Logo, o sêmen não é construído a partir de elementos advindos da assimilação de alimentos, mas extraído da própria substância do nosso ser, conclui com muita convicção este argumento.
- O argumento que recusa a hipótese inicial.
O argumento contrário à hipótese controvertida inicial, e que tenta provar que ela não pode ser aceita – estabelecendo o debate – é retirado de Aristóteles. De fato, no livro “Da Geração dos Animais”, Aristóteles afirma expressamente que o sêmen é construído em nós a partir dos elementos que assimilamos pela digestão dos alimentos que consumimos, e não é algo que se condensa em nós a partir da substância original de nosso corpo. A autoridade de Aristóteles, portanto, diz este argumento, nos impede de aceitar a hipótese inicial.
- Encerrando por enquanto.
No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de Tomás, no qual ele apresentará sua teoria de que o alimento que digerimos passa por duas etapas, em sua assimilação por nós: uma primeira etapa, em que ele se transforma numa espécie de “matéria prima” de nosso corpo individual, e uma segunda etapa, em que ele finalmente se transforma no tecido deste ou daquele órgão. Diríamos hoje que há, aí, uma certa intuição daquilo que, hoje, chamamos de “células-tronco” totipotentes, a partir do conhecimento de biologia que temos hoje em dia. Mas estamos nos adiantando. No próximo texto isto será debatido mais detidamente.
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