1. De volta para finalizar.

De fato, o mistério da nossa identidade, frente ao dinamismo do nosso corpo, intrigou cientistas e filósofos desde há muito.

O que somos não permanece imutável, quanto ao conteúdo material, desde que nascemos até o dia em que morremos. A dinâmica da alimentação explica nossa interação com o mundo, realizando a troca de matéria e de energia que nos favorece e favorece o ambiente, se realizada de modo adequado.

Hoje, a teoria genética, com a descoberta do DNA, ajuda a explicar a profundidade da nossa identidade (inscrita no genoma de cada uma das células do nosso corpo) frente à dinâmica que envolve a assimilação de alimentos e a perda de tecidos e de energia que está relacionada ao próprio fato de estar vivo. Isto, é claro, não elimina o mistério – dado que mistérios são inesgotáveis por definição – mas certamente aprofunda nosso conhecimento e confirma, de modo muito interessante, as intuições de Tomás. Não é simples explicar a relação entre essa maravilhosa codificação genética e a nossa própria identidade, mas certamente demonstra que essa troca de energia e matéria não modifica quem nós somos.

Depois dessa profunda discussão, levada a termo ao longo de todos estes textos, chegou a hora de examinar os três últimos argumentos objetores e as respostas de Tomás a eles. 

  1. Os três últimos argumentos objetores iniciais e suas respostas.

O terceiro argumento objetor.

Para examinar este argumento, precisamos retomar a noção de umidade, que é bastante importante na filosofia antiga e medieval – a ponto de Tales de Mileto, observando-a, estabelecer que o elemento água seria o mais fundamental do universo.

De fato, a ciência antiga acreditava que a vida estaria presente ali onde  houvesse um perfeito equilíbrio entre os elementos (água, fogo, terra e ar), e que esse material se mantinha saudável e operante enquanto houvesse um adequado nível de umidade no corpo vivo. Ora, pensavam os antigos, esse equilíbrio essencial da umidade podia ser irremediavelmente perdido, por excesso ou por falta de determinados elementos, e isso conduziria inevitavelmente à morte

É a partir daí que o argumento tenta comprovar que o alimento ingerido não pode realmente ser absorvido e se transformar naquilo que nós somos. Se fosse assim, a perda do equilíbrio da umidade poderia ser reposta, e jamais morreríamos. Mas ocorre que a morte é real, e portanto a alimentação não se dirige à absorção do alimento que se transforma no que somos, conclui erroneamente o argumento.

A resposta de Tomás.

Tomás, ainda bem fundamentado na ciência de seu tempo, que ele conhecia e respeitava (como respeitaria a ciência do nosso tempo, se vivesse hoje), lembra que, com relação aos seres vivos, podemos falar em dois níveis de equilíbrio dos elementos, isto é, em dois tipos de umidade: a umidade “fundamental” ou “radical”, que está no fundo daquilo mesmo que mantém vivo um indivíduo de uma espécie e que, uma vez perdida, não pode ser reposta, e uma umidade “nutritiva” ou “alimentar”, que envolve a perda e a recuperação do equilíbrio entre os elementos do corpo e o meio ambiente. Esta última, a umidade nutritiva, tende ao restabelecimento da umidade fundamental, mas não diretamente. Pela alimentação, com a ingestão de sólidos e líquidos, os nutrientes são, primeiro, absorvidos pelo organismo pelo sistema digestório, e em seguida inseridos no sistema circulatório, para progressivamente reconstruir a energia e os tecidos desgastados, de tal modo que a perda da umidade nutritiva, que se manifesta como fome ou sede, não implica imediatamente na perda definitiva da umidade fundamental, nem a absorção de alimentos e líquidos que restabelece a umidade nutricional pode levar à imediata recuperação da umidade fundamental pelo corpo. Assim, o fato de que a morte pode chegar no caso da perda da umidade fundamental (quer dizer, do equilíbrio profundo dos elementos nas estruturas mais vitais do corpo) não pode levar à negação de que nosso corpo tem a capacidade de reconstruir a umidade nutritiva pela alimentação, transformando o alimento naquilo que nós mesmos somos

O quarto argumento objetor.

O quarto argumento também tem cunho filosófico, ou mesmo biológico, e segue uma linha muito similar ao argumento anterior – envolvendo o mistério da nutrição e da reconstrução de estruturas corporais desgastadas por meio do processo de alimentação. Ora, diz o argumento, se houvesse de fato essa ampla capacidade de converter o alimento naquilo que nós somos, ou seja, de converter a matéria que o compõe na matéria das estruturas e tecidos do nosso próprio corpo, então nada, em nosso corpo, seria irremediavelmente danificado pelo desgaste ordinário, de tal modo que nosso corpo nunca sofreria desgaste e, portanto, nunca envelheceria nem morreria. Mas o envelhecimento e a morte natural por causa de fatores relacionados à longevidade são uma realidade humana inegável. Portanto, conclui apressadamente o argumento, não existe a verdadeira absorção e conversão do alimento naquilo que nós somos

A resposta de Tomás.  

Todas as capacidades do nosso corpo sofrem o desgaste natural da vida e da passagem do tempo, porque mesmo nossas capacidades ativas também são, em certo grau, passivas, isto é, também sofrem a ação de outros fatores que atuam sobre nós. 

Assim, também a capacidade de nutrição e assimilação do alimento sofre desgaste e definha com o tempo, de tal modo que, no início da vida humana, esta é uma capacidade tão poderosa que não apenas pode repor as estruturas e a energia perdida, mas até possibilita o crescimento e o desenvolvimento humano. Atingida a idade adulta, esta capacidade passa a ser capaz de nos sustentar, mas não mais de nos fazer crescer saudavelmente. Por fim, na idade madura, a própria capacidade nutritiva se debilita, de tal modo que já não conseguimos nem sequer repor as estruturas e as energias perdidas, e a morte biológica acontece. Conforme nos explica Aristóteles, a alimentação, em nós, é análoga àquela atitude de adicionar água ao vinho: no princípio, a água se mistura com o vinho sem que a diluição possa ser notada. Mas, na medida que a diluição vai aumentando, o vinho progressivamente enfraquece até tornar-se apenas água. De certo modo, algo similar ocorre no processo nutricional humano, diz Tomás.

O quinto argumento objetor.

O quinto argumento vai no mesmo sentido dos dois anteriores, e apela à biologia. Mas apela, aqui, não ao fenômeno de uma possível imortalidade, como o quarto argumento, mas a uma questão de identidade: se é verdade que, ao longo da vida, o corpo vai perdendo matéria, e a digestão repõe a matéria perdida, temos que concluir que, ao final de um longo tempo, já não haveria mais nada da matéria original do corpo, e portanto aquele indivíduo já não seria mais o mesmo indivíduo, porque não seria mais composto pela mesma porção individualizante de matéria. Seria outro corpo, e portanto outro ente. Logo, não faz sentido dizer que a alimentação converte o alimento em parte de nosso próprio corpo, conclui imprudentemente o argumento.

A resposta de Tomás.

A resposta de Tomás vai fazer uma analogia entre o nosso corpo e uma chama de fogo. Diz ele: se um fogo se apaga, e eu acendo um outro fogo mais tarde, usando o mesmo combustível (digamos, uma pilha de lenha), existe aí outro fogo, um novo fogo, que não é o mesmo fogo que havia antes. Mas se, ao perceber que a lenha está quase totalmente consumida, eu alimento o fogo, colocando um novo pedaço de lenha na fogueira, há, aí, o mesmo fogo que foi alimentado. Assim, a reposição de material consumido, em nosso corpo, não altera a identidade do corpo

Precisamos guardar esta conclusão, até porque há correntes espíritas que negam a ressurreição justamente por argumentar que, para que a pessoa mantivesse a identidade na ressurreição, seria necessário que seu corpo fosse composto dos mesmos átomos que a compunham antes da morte, o que é falso: nem sequer durante a vida biológica nosso corpo se mantém como composto pelos mesmos átomos. A substituição de átomos e moléculas não altera nossa identidade, como sabemos e a ciência, mesmo depois de oitocentos anos, confirma. No caso da ressurreição, é claro que a destruição ou o desaparecimento do corpo biológico não altera a identidade do ressuscitado, que passa a ter um corpo espiritual – ou seja, um corpo cuja composição e qualidades supera o campo do espaço estritamente geométrico e tridimensional em que vivemos. O corpo espiritual dos ressuscitados não está preso ao espaço-tempo, mas o supera e domina. Sabemos deste mistério pela capacidade que Jesus, ressuscitado, tinha, por exemplo, de entrar em lugares com portas fechadas (João 20, 19), ser ou não reconhecido (João 20, 25), aparecer e desaparecer quando quisesse (Lucas 24, 31). Aquilo que seremos depois da ressurreição, ultrapassa qualquer possibilidade de especulação da nossa parte (1 Coríntios 2, 9).

  1. Conclusões.

Assim, fica respondida a hipótese inicial: de fato, quando nos alimentamos, o alimento digerido passa a ser o que nós somos, porque é sintetizado e transformado em tecidos e em energia acumulada, em nós, que recebe a marca de nosso genoma. Esse profundo mistério determina que estamos todos relacionados, nós humanos, os outros seres vivos e os seres inanimados. Mas não é uma relação que dilua, dissolva ou elimine as individualidades. Somos quem somos. E, pela alimentação, somos um pouco de tudo o que é.