- De volta.
A tendência que tem o ser humano de pensar em si próprio como alguma espécie de “anjo” preso num corpo material que não faz parte de sua identidade substancial é antiga e permanece ainda hoje. Daí a importância de debater a relação do ser humano com seu ambiente, e em nenhum aspecto essa relação é mais rica do que na alimentação. Depois de grandes debates e de posições que hoje nos parecem curiosas, Tomás concluiu que a hipótese inicial, de que os alimentos, quando digeridos por nós, não passam a integrar nossa identidade, não é verdadeira. De fato, eles nos fornecem não somente a energia, mas também a matéria que pode regenerar nossos corpos pelo crescimento e pelos desgastes da vida.
Com estes princípios na mente, vamos examinar novamente os argumentos iniciais, que tentavam comprovar aquela hipótese que foi devidamente desmentida. Uma vez que há muitos argumentos, e suas respostas são longas, este exame ocupará dois textos, o presente e o posterior a este. Aqui, examinaremos os dois primeiros argumentos e as respostas de Tomás a eles.
- Os primeiros argumentos objetores iniciais e suas respostas.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor lembra que, em Mateus 15, 17, Jesus ensina que “Tudo o que entra pela boca passa ao ventre, e se lança depois num lugar escuro”. Ora, tudo o que é expulso do organismo não se transforma em parte do próprio organismo. Assim, o alimento que comemos, de acordo com a palavra de Jesus na Bíblia, não se incorpora à nossa identidade, conclui equivocadamente o argumento.
A resposta de Tomás.
É sempre uma má ideia usar a Bíblia como fonte de referência científica, e Tomás sabe disso. Mas responde com grande delicadeza a esse argumento aparentemente tão piedoso, que procura tirar um conhecimento nutricional e mesmo filosófico das palavras de Jesus. Tomás vai lembrar, com toda leveza, que, no trecho citado, Jesus não está ensinando que a totalidade daquilo que entra pela nossa boca vai ser evacuado depois; ele apenas está dizendo que não é o alimento que nos torna impuros, porque não somos nós que nos transformamos naquilo que comemos, mas é aquilo que comemos que passa pelo processo de digestão e se transforma, parte é incorporada a nós como reserva de energia e parte como reposição de matéria. Aquilo que não pode ser aproveitado é evacuado, e era a isso que Nosso Senhor se referia. Portanto, trata-se de entender bem a palavra bíblica: o alimento não nos torna impuros, ele se torna parte de nós. Mas as más intenções, as palavras ruins, os pensamentos e as ações maléficas saem do coração e nos tornam impuros.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento retoma um debate antigo, a respeito da chamada ‘carne material” e a “carne específica”, como Aristóteles costumava diferenciar. Para entendermos essa diferença, pensemos num açougueiro: para ele, não faz diferença que este pedaço de músculo venha deste ou daquele boi; para ele, só interessa o fato de que a carne pertence à espécie bovina. Ora, quando um boi é abatido, sua carne material desaparece, mas a carne de boi de modo geral não desaparece, porque a espécie bovina continua existindo no mundo.
Assim, exagerando essa distinção entre aquilo que constitui este corpo individual, que pode surgir e desaparecer sem que a espécie desapareça, e aquilo que diz respeito à espécie como um todo, o argumento diz que o alimento pode até ser absorvido e se transformar nesta carne material de algum corpo individual, mas nunca se transformará, de fato, na carne específica. Assim, no fundo, o alimento digerido, diz o argumento, não se transforma realmente em carne especificamente humana em nós, conclui o argumento, erroneamente.
A resposta de Tomás.
O que será que Aristóteles quis dizer quando ele falava de “carne específica”, ou “carne da espécie”?
Alguns, diz Tomás, entenderam que a “carne da espécie” seria aquilo que os filhos recebem dos genitores na reprodução, e que determina que eles sejam da mesma espécie que os genitores. Esta “carne” seria, para eles, imutável, e garantiria a identidade do filho; ela não sofreria desgaste nem dano, e não seria reposta pela alimentação. A carne individual, portanto, seria aquilo que sofre desgaste e dano pela vida afora, e pode ser reposto pela alimentação, mas não faria realmente parte de nossa identidade – já que pode ser perdido e substituído sem que deixemos de ser quem somos, ensinam estes.
Tomás diz, no entanto, que este não era o pensamento de Aristóteles. Aristóteles entende a noção de “espécie” como aquilo que permite que alguma coisa seja inteligível por nós como sendo isto e não aquilo. E entende por “carne” o tipo de conteúdo material que forma o corpo de alguma coisa, viva ou inanimada.
Ora, nas coisas inanimadas, que não são capazes das funções biológicas da reprodução e da nutrição, a “carne específica” coincide totalmente com a “carne individual”; a pedra, por exemplo, tem um “recheio” material fixo, e ela existe enquanto esse “recheio” permanece igual a si mesmo. A matéria da pedra não pode ser substituída sem que a pedra se torne outra coisa, de outra espécie.
Mas com os seres vivos isso não se dá, diz Aristóteles. A matéria do nosso corpo sofre degradação, desgaste, é consumida pelo uso de energia, sofre danos, etc. Logo, a alimentação se transforma naquilo que é perdido, quer dizer, transforma-se na carne de nossa espécie, mesmo quando a carne individual é perdida e precisa ser recuperada.
Neste sentido, não há, a rigor, diferença entre a carne específica e a carne individual; materialmente, são a mesma coisa, e essa diferença é apenas de ponto de vista: do ponto de vista de um observador externo, a carne individual de um ser humano não é a mesma quando ele tem meses de idade – é um bebê – ou quando ele tem 90 anos de idade. Possivelmente as moléculas de seu corpo já foram perdidas e repostas ao longo dos anos. Mas, do ponto de vista de sua identidade, ele tem a mesma carne específica, desde a concepção até a morte. Por isso, a matéria alimentar, pela digestão, transforma-se em matéria específica que vai constituir a matéria individual daquele ser humano.
- Encerrando por enquanto.
É muito interessante acompanhar essa discussão hoje. Vemos o quanto essas pessoas – Tomás inclusive – tinham dificuldade para expressar uma intuição que, hoje, podemos facilmente expressar com a linguagem da genética (estabelecida, originalmente, pelo frade agostiniano Gregor Mendel em seus estudos com vegetais no século XIX). Essa intuição de que há, em nós, algum tipo de “carne” que não muda, mesmo quando há a reposição de nossos tecidos pelo processo digestório, expressa a intuição de algo como o genoma, que, embora sendo de suporte material, nos identifica porque codifica, em sua informação, o programa de nossa constituição biológica. Isto explica claramente a razão pela qual o processo de perda e reposição material, com a assimilação do alimento, não nos torna diferentes do que somos.
No próximo texto examinaremos os últimos argumentos objetores e as respostas de Tomás a eles.
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