1. Retomando para encerrar.

Belíssima visão da concepção humana, a que acompanhamos no último texto. Um ato complexo, em que agem simultaneamente o genitor, por seu gameta masculino, a genitora, pelo gameta feminino, e Deus, com sua atividade criadora, que nos infunde uma alma humana. Infunde em que, ou em quem? Em ninguém. A alma é criada simultaneamente com o encontro dos gametas, e esse triplo encontro dá origem ao novo ser humano, unidade substancial de corpo material e alma espiritual. Não se trata de uma alma preexistente, ou alheia, “incorporando” num corpo gerado biologicamente pela reprodução, mas de uma simultaneidade que faz tudo entrar em existência ao mesmo tempo. Não há corpo sem alma, porque a alma é a estrutura do corpo, como não há alma sem corpo, salvo a alma separada daqueles que já morreram e esperam ser reintegrados ao corpo pela ressurreição final. a importância prática disso é enorme: como nos ensina o Catecismo da Igreja Católica, § 2270, “A vida humana deve ser respeitada e protegida, de modo absoluto, a partir do momento da concepção. Desde o primeiro momento da sua existência, devem ser reconhecidos a todo o ser humano os direitos da pessoa, entre os quais o direito inviolável de todo o ser inocente à vida”. 

Cientes desses princípios, vamos revisitar os argumentos objetores iniciais, para ver as respostas que Tomás oferece a eles.

  1. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas. 

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento, para provar a ideia de que as almas preexistem ao corpo e foram criadas no início, nos primeiros dias da criação, lembra Gn 2, 2: “No sétimo dia, Deus concluiu a obra que havia feito, e descansou de todo o seu trabalho no sétimo dia”. Ora, ele não teria descansado se tivesse que continuar criando almas a todo momento, em cada ato de concepção humana. Logo, o argumento conclui que todas as almas dos futuros seres humanos foram criadas por Deus logo nos primeiros dias da criação. 

A resposta de Tomás.

Que Deus não cessou de trabalhar após o sétimo dia, disso nos dá testemunho o próprio Jesus, quando nos ensina: “Meu pai continua a trabalhar até agora” (João 5, 17). Assim, devemos entender essa passagem bíblica do Gênesis no sentido de que Deus não introduziu inovações na criação, depois daquele início: tudo estava criado, mesmo como semente, mesmo virtualmente, e a história que se segue é apenas a história do desdobramento daquelas sementes criadas no início. Deste modo, no primeiro homem e na primeira mulher já estavam inscritos todos os seus descendentes, e desde o surgimento de sua primeira prole há a intervenção criadora incessante de Deus na concepção de novos seres humanos. Tudo, porém, estava inscrito na criação desde o princípio.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento objetor tem natureza filosófica, e recorre inclusive ao raciocínio lógico. As criaturas espirituais, diz o argumento, também fazem parte da perfeição do universo. E surgem apenas por criação de Deus, porque não se reproduzem. Ora, as criaturas materiais se multiplicam pela reprodução, sexuada ou assexuada, e portanto sua multiplicação não é algo que aumenta a perfeição do universo, mas está sob as leis que o regem.

Assim, se todas as criaturas espirituais não estivessem criadas logo no início da criação (que a Bíblia chama de “obra dos seis dias”, isto significa que o universo não estava perfeito assim que foi criado, mas sua perfeição se completaria e aumentaria a cada criação de uma nova alma. Mas a perfeição de Deus não permite imaginar que ele não desse ao universo, desde os primeiros dias, toda a perfeição que ele deve ter, e que sua obra precisa ser completada paulatinamente ao longo do tempo. Isso iria contra  Gn 2, 2, que diz expressamente que, findos os seis dias, Deus completou seu trabalho criador. Logo, as almas não são criadas ao longo do tempo, mas todas as almas humanas foram criadas na obra dos seis dias, no momento mesmo da criação relatada na Bíblia, conclui apressadamente o argumento. 

A resposta de Tomás.

A reprodução humana não aumenta a perfeição do universo; aumenta apenas a quantidade de indivíduos da espécie humana, que, como espécie, já tem sua própria perfeição desde o início da criação, de modo virtual, ou seja, de modo potencial, que vai se manifestando ao longo da história com o surgimento de cada novo ser humano. Por isso, cada novo nascimento humano manifesta a perfeição plena da criação de Deus no início; isso não significa que Deus não intervenha, a cada nova concepção humana, para criar uma nova alminha humana que compõe esse novo ser. é bom lembrar que a alma humana não é uma “coisa”, não é uma “substância espiritual”, como são os anjos, mas é apenas um elemento de um um ser biológico que se reproduz de modo sexuado – a espécie humana.

O terceiro argumento objetor.

A alma sobrevive ao corpo, não sendo destruída pela morte, que destrói apenas o corpo. Ora, tudo o que tem o mesmo fim, deve ter o mesmo princípio. Se a alma permanece e o corpo se corrompe pela morte, então o princípio da existência da alma é diferente do princípio da existência do corpo. Pode-se, pois, afirmar que as almas foram criadas quando foram criadas as substâncias espirituais, no início da criação, e não juntamente com o corpo, conclui equivocadamente o argumento.

A resposta de Tomás.

De fato, a morte destrói o corpo mas não destrói a alma, que segue existindo. Mas existe de modo incompleto, ferido, intermediário, esperando o retorno de Jesus e o Juízo Final para voltar a se reunir com o corpo, na ressurreição. Ora, a morte, que destrói o corpo e faz com que a alma permaneça incompleta, não é parte da criação (não está descrita nos dois primeiros capítulos do Gênesis). Ou, como está escrito no Livro da Sabedoria (1, 13; 16): “Porque Deus não fez a morte (…) Mas os ímpios invocam sobre si a morte com gestos e palavras”. 

Foi por causa do pecado que a morte entrou no mundo. Logo não haveria sentido em imaginar que Deus fosse criar primeiro a alma como um ser incompleto, parcial, intermediário, no início da criação, e o corpo, que dá perfeição a essa alma incompleta, só viesse a surgir muito depois. Logo, pode-se dizer que o ser humano surge inteiro, completo, do ato reprodutivo, no qual participam os genitores, com o material biológico, e Deus, criando, a cada vez, a alma espiritual.

  1. Concluindo.

As almas humanas não são um ente, não são uma coisa por si mesmas. São aquela parte, aquele elemento do ser humano que sobrevive à morte, de modo incompleto e precário, até a ressurreição dos corpos. Não há pessoa humana que não seja corpo e alma. E este momento maravilhoso, no qual a concepção faz surgir um novo ser, envolve a união dos gametas masculino e feminino e, simultaneamente, a ação criadora de Deus. Daí se pode perceber a enormidade do crime que é o aborto. Graças ao bom Deus, sempre é possível, para aqueles que o praticaram, obter o perdão sacramental pela confissão.