- Retomando.
Será que a alma humana existe antes mesmo que exista o indivíduo? Será que Platão estava com a razão, quando imaginava que nossa alma preexistia à nossa existência corpórea, e que, portanto, a vida biológica é uma espécie de “prisão” de uma alma que subsiste sozinha e previamente à vida biológica?
Se as coisas fossem assim, estariam com razão aqueles que chamam de “encarnação” a concepção humana. Esse momento sublime em que o gameta paterno encontra com o gameta materno seria reduzido apenas ao surgimento desse corpo material e biológico no qual uma alminha já existente “encarnaria” para formar o indivíduo humano que agora somos. Será que isso é verdade?
Vimos, no texto anterior, a hipótese de que a nossa alma foi criada antes por Deus, durante a criação do mundo. Todos os seres humanos, todas as suas almas estariam criadas desde o início dos tempos por Deus, e a concepção sexuada seria apenas aquela oportunidade em que aquela alminha preexistente “encarnaria” no corpo biológico formado de modo sexual pelos genitores. Vimos três argumentos objetores neste sentido; o primeiro argumento cita a Bíblia para afirmar que toda a atividade criadora de Deus ocorreu no princípio dos tempos, simbolicamente chamados de “seis dias da Criação, no capítulo 1 do Gênesis. Logo, todas as almas de todos os seres humanos que vão existir teriam sido criadas simultaneamente naquele momento. O segundo argumento diz que, se deus é perfeito e cria com perfeição, ele não poderia ficar “acrescentando perfeições” posteriores à sua criação, com a criação de novas almas. E, por fim, o terceiro argumento diz que, uma vez que a alma não morre com o corpo, então também não se inicia com o corpo.
O argumento contrário diz somente que a Igreja sempre ensinou que a alma é criada junto com a formação do corpo pela concepção, ou seja, a concepção envolve, simultaneamente, a união dos gametas masculino e feminino e a atividade criadora de Deus para criar a nova alma espiritual.
Estudaremos agora a resposta sintetizadora de Tomás.
- A resposta sintetizadora de Tomás.
Muita gente, mesmo tantos anos após Tomás escrever a Suma Teológica, ainda parece acreditar que os seres humanos não são substancialmente corpo e alma, mas são essencialmente uma alma que acidentalmente pode estar unida a um corpo. Muitos acreditam que a alma preexiste ao corpo e entra nele no momento da concepção, ficando presa nele, mas não depende dele para começar a existir. Daí que alguns chegaram a defender que a alma, todas as almas humanas, foram criadas simultaneamente por Deus no início dos tempos. Mas esta opinião, diz Tomás, é falsa.
Se o ser humano fosse essencialmente espiritual, e a união com o corpo fosse um acidente, nós seríamos do mesmo gênero dos anjos, seres puramente espirituais que, eventualmente, ficariam presos em corpos durante algum tempo. Então a nossa existência biológica não seria a existência de uma coisa em sua unidade, mas apenas um composto sem unidade, um conjunto de corpo biológico e alma independente acidentalmente reunidos durante a vida corpórea. Mas nós não somos assim. Somos seres que nascem a partir da concepção biológica, em sua inteireza e unidade ontológica: somos uma coisa só, um ser que tem, por elementos, uma alma espiritual e um corpo biológico que surgem ao mesmo tempo e estão em relação de unidade entre si.
Seres humanos não são anjos.
Aqueles que acreditam na preexistência das almas, e que a concepção de um novo ser humano consiste apenas na geração de um corpo, no qual uma alma preexistente “encarnaria”, parecem crer que os seres humanos não são senão almas espirituais autônomas, que eventualmente estariam presas a um corpo. Mas as coisas não são assim.
Os anjos, como seres puramente espirituais, não dependem da intermediação da matéria para se relacionar com o mundo. Eles possuem todo o conhecimento necessário à sua vida, transmitido a eles pelo próprio Deus quando eles foram criados. São, ademais, capazes de se relacionar com os outros anjos, com Deus e com o mundo material sem necessidade de alguma intermediação material. Ou seja, os anjos se relacionam pelo modo diretamente espiritual com todas as outras coisas e com Deus.
Não é assim com os humanos. Nossa mente é criada sem conhecimentos prévios. Qualquer conhecimento, qualquer relação, qualquer contato, somente pode ser feito por meio do corpo. Mesmo o contato com Deus, que não é material, sempre tem a intermediação de alguma realidade tangível. Seja a palavra escrita ou ouvida, seja o sinal material, seja o sacramento (no sentido amplo de sinal visível da graça invisível). Não existe nenhum meio, para nós, de relação com o outro ou com o mundo, sem algum tipo de mediação material. Por isso, o corpo não é um acidente em nossa vida, mas é parte integrante e indispensável daquilo que somos e sempre seremos. Mesmo a sobrevivência da alma, após a morte, é apenas um estado incompleto de espera da ressurreição corpórea final. De tal modo que as almas (até as almas dos santos) são seres incompletos, e não podem se relacionar diretamente entre si – nem conosco – sem a graça de Deus.
Deus não cria coisas imperfeitas.
Além disso, imaginar que Deus criou, desde o começo, alminhas incompletas, imperfeitas, que esperam que, no futuro surja um corpo biológico para que elas possam “encarnar” e se transformar num ser humano pleno é imaginar que Deus deliberadamente crie coisas imperfeitas, incompletas, o que seria um contrassenso. Seria algo análogo a imaginar que Deus pudesse criar mãos ou pés separados, que só depois viessem a compor um corpo humano inteiro. Por isso, não se pode admitir a ideia de que Deus criou, no início, alminhas separadas para esperar corpos posteriores.
Na verdade, a perfeição da nossa alma está justamente em sua perfeita integração com o corpo, com o qual forma uma coisa só, e do qual depende inteiramente para se relacionar com Deus, com os outros e com o ambiente. Toda relação natural do ser humano é feita por meio do corpo – e daí a importância dos sacramentos como meio ordinário de relação com Deus. Não é uma opção da alma estar unida ao corpo, como se, em determinado momento, ela “escolhesse” se unir a um corpo para “evoluir” ou “se purificar”. Isto não existe, porque não existe uma alma antes de existir um corpo. Os dois surgem no mesmo momento, pela concepção, e na verdade é a alma, como forma substancial do corpo, que guia o desenvolvimento corporal. Ademais, seria irracional, insano e inexplicável que uma alma, sendo preexistente e plena independentemente do corpo, optasse voluntariamente por se unir a um corpo, “prendendo-se” a ele. Não seria razoável admitir que Deus criasse o corpo como “instrumento de punição” da alma, e não como unidade ontológica com ela. Além disso, prossegue Tomás, não poderíamos dizer que a alma escolhe um corpo “após tanto tempo” de sua criação, justamente porque o tempo, que é uma característica do mundo material, não atingiria a uma alma que fosse um ser puramente espiritual desde o início.
Apenas Jesus Cristo, Deus filho, preexistia, em sua divindade, à própria concepção.
Daí que não faz sentido pensar que almas preexistentes pudessem “encarnar” depois num corpo. Há apenas um ser humano de quem se pode falar propriamente que encarnou, porque preexistia a seu corpo – é Jesus Cristo, em sua divindade de Filho Eterno. Apenas Jesus encarnou, apenas dele se pode dizer que preexistia a seu corpo. Todos os outros seres humanos foram gerados num processo de concepção que envolve, simultaneamente, o encontro dos gametas masculino e feminino e a vontade criadora de Deus, dando início, num mesmo e exato momento, a um ser humano pleno, novo, uno, insubstituível, de corpo e alma como uma coisa só. Nós, seres humanos, não encarnamos nem reencarnamos. Somos concebidos num processo maravilhoso que envolve a fecundação biológica e a ação criadora de Deus numa união maravilhosa. A morte, portanto, é real, e a sobrevivência da alma quanto ao corpo é, na verdade, uma sobrevivência precária, incompleta, que espera a ressurreição para recobrar sua unidade ontológica de corpo e alma. Exceto, é claro, o próprio Jesus Cristo, que já ressuscitou de corpo e alma, e Nossa Senhora, a quem tal privilégio foi excepcionalmente concedido. Os demais que já faleceram, inclusive os santos, aguardam a ressurreição naquele estado intermediário de sobrevivência incompleta da alma.
- Encerrando por enquanto.
Ufa! Longo debate, muito rico. Verdadeira catequese de Tomás para nós. No próximo texto estudaremos as respostas dele aos argumentos objetores iniciais.
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