- Introdução.
A questão, aqui, diz respeito à fixação de algo que pode parecer óbvio, mas é essencial, porque dificilmente pensamos nisso. Se, por um lado, Deus criou tudo em “seis dias”, e no sétimo descansou, como se diz no início do Livro do Gênesis, e se, por outro, em cada nova concepção humana há a intervenção criadora direta de Deus, de tal modo que a alma humana não existe sem que ele a crie diretamente, será que as almas humanas foram criadas todas juntas lá no princípio da criação?
O problema diz respeito, portanto, a quando começamos a existir. existe, ainda hoje, quem pense que nossa alma preexiste a nosso corpo, como pensavam Platão e muitos reencarnacionistas ao longo da história. Será que a concepção, aquele momento em que se encontram o gameta masculino, o gameta feminino e a ação de Deus, é realmente o início de nossa existência em sentido pleno? Somos efetivamente essa unidade de corpo e alma ou a ligação da alma com o corpo é apenas acidental? Será que a concepção humana é apenas a formação de uma “embalagem descartável” para uma alma que já existia antes? Belo debate. Vamos a ele.
- A hipótese controvertida inicial.
A hipótese inicial, aqui, propõe, para nos provocar ao debate, que as almas todas, de todos os seres humanos que já existiram, que existem e que existirão, já foram criadas por Deus no início da criação, dentro daquele momento que a Bíblia chama de “seis dias da criação” (Gn 1) e que condensa todo o trabalho criador de Deus. Assim, aquilo que chamamos de “concepção”, quer dizer, o encontro do gameta masculino com o feminino que dá origem à vida biológica, resulta apenas num ser de vida biológica que dá oportunidade a uma alma preexistente para “encarnar”, tornando-se um ser de carne e osso até que a morte volte a separar o corpo da alma. Existem três argumentos iniciais que tentam objetar quaisquer refutações a esta hipótese e tentam comprová-la. Vamos examiná-los.
- Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
No Livro do Gênesis, 2, versículo 2, está escrito que no sétimo dia “Deus descansou de todo o seu trabalho”. Ora, se Deus continuasse criando novas almas depois disso, ele não teria descansado de todos os trabalhos, porque esse trabalho continuaria pelos séculos adiante. Então, segundo a Bíblia, todas as almas humanas foram criadas de uma só vez nos primeiros dias da criação, afirma de modo apressado o primeiro argumento.
2. O segundo argumento objetor.
Se Deus é um criador perfeito, então tudo o que ele cria é perfeito. Logo, cada alma humana (por ser criada diretamente por Deus) representa uma das perfeições do universo, e o próprio universo tem que ser, ele mesmo, pleno e perfeito desde sua criação. ora, se Deus tivesse que continuar criando, a cada vez que há uma concepção de um novo ser humano, novas almas humanas, então a cada vez seriam acrescentadas novas perfeições ao universo, e portanto Deus seria um criador imperfeito, incapaz de criar algo que já estaria perfeito desde o início. Mas a própria Bíblia diz: “no sétimo dia, Deus acabou a obra que havia feito”. Portanto, diz o argumento (sem muita reflexão), as almas não são criadas simultaneamente com a concepção biológica, mas preexistem a ela.
O terceiro argumento objetor.
Assim como a coisa é, assim ela principia e assim ela finda. Quer dizer, a maneira como uma coisa termina revela não somente o que ela é, mas também nos diz qual é o seu princípio.
Ora, sabemos que, na morte, o corpo é destruído, mas a alma espiritual permanece, sobrevive à morte. Ora, se ela sobrevive ao corpo, continuando a existir, é porque seu princípio também precede o corpo, diz o argumento de modo irrefletido. Logo, as almas existem antes da concepção biológica do novo ser humano, conclui levianamente o argumento.
- O argumento sed contra.
O argumento contrário, que tenta demonstrar que a hipótese inicial é falsa, lembra que a Tradição da Igreja sempre ensinou que a alma é criada simultaneamente com o corpo. Está assim no antigo Livro dos Dogmas Eclesiásticos, que é uma espécie de catecismo antigo que teve muito prestígio na Idade Média, assim como no atual Catecismo da Igreja Católica atualmente em vigor. No Catecismo em vigor, no § 366, a Igreja ensina que “toda alma espiritual é criada imediatamente por Deus – não é ‘produzida” pelos pais’”, e o Livro dos Dogmas Eclesiásticos era ainda mais explícito, para dizer que ela é criada simultaneamente com o corpo. Assim, conclui este argumento, não procede a ideia de que a alma preexiste ao corpo.
- Encerrando por enquanto.
É preciso notar, aqui, que a discussão não diz respeito à reencarnação, mas à simples preexistência da alma frente ao corpo – ideia igualmente errônea, mas que não se confunde com aquela.
No próximo texto estudaremos a resposta sintetizadora de Tomás.
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