- Retomando para concluir.
É de admirar que, mesmo não tendo acesso à ciência que temos hoje, intui acertadamente quanto à natureza intelectual da pessoa humana, e quanto aos estágios embrionários com sucessivos desenvolvimentos de capacidades – a princípio apenas vegetativas, depois também de ordem sensorial e somente num momento mais tardio, quando já há base biológica para tanto – surgiriam as capacidades propriamente intelectuais. Tomás enxerga uma sucessão de destruições e gerações, com a intervenção de Deus apenas no último estágio. Hoje, de tudo que sabemos da carga genética e da biologia do nascituro, parece ser mais certo dizer que há apenas uma única geração, que é a concepção inicial, quando o gameta masculino se encontra com o feminino e define integralmente o novo ser com todas as suas peculiaridades. Como ensina a Igreja na instrução Donum Vitae, da Congregação para a Doutrina da Fé, “[é] certo que nenhum dado experimental, por si só, pode ser suficiente para fazer reconhecer uma alma espiritual; todavia, as conclusões da ciência acerca do embrião humano fornecem uma indicação valiosa para discernir racionalmente uma presença pessoal desde esta primeira aparição de uma vida humana: como um indivíduo humano não seria pessoa humana? O Magistério não se empenhou expressamente em uma afirmação de índole filosófica, mas reafirma de maneira constante a condenação moral de qualquer aborto provocado. Este ensinamento não mudou e é imutável”. As discussões, portanto, sobre a formação do embrião, que Tomás abraçou e registrou, não podem ser tomadas de nenhum modo como aprovação do aborto ou como diminuião da dignidade humana em qualquer fase da formação do embrião.
Tudo isto foi visto nos últimos textos. Resta-nos examinar, agora, os três últimos argumentos objetores, que tentavam comprovar a não intervenção criado ra de Deus em cada nova geração humana, e as respostas dadas por Tomás.
- Os três últimos argumentos objetores e suas respostas.
O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento objetor parte da ideia, baseado na ciência daquele tempo, de que o sêmen, isto é, os gametas masculinos, seriam os responsáveis por todos os elementos de informação para a geração da prole. Assim, diz o argumento, para que o processo de geração seja perfeito e resulte num ser coerente e substancialmente uno, é preciso que o agente que é responsável por seu surgimento seja um só. Se é o sêmen, e apenas ele, que dá início ao processo de formação do novo ser, então a alma espiritual também resulta das potencialidades do sêmen, e não de alguma intervenção nova de Deus na formação do novo ser humano assim concebido, diz ousadamente o argumento.
A resposta de Tomás.
Tomás vai dizer que mais de um agente pode colaborar na geração de um novo ser, desde que eles estejam ordenados entre si por uma relação de cooperação perfeita.
Ora, é aqui que a ciência de Tomás se mostra limitada, mas sua intuição se mostra muito arguta. De fato, naquele tempo, a ciência achava que não havia um gameta feminino, mas apenas o sêmen masculino, e que era o próprio líquido masculino, e só ele, que dava origem ao novo ser, quando injetado na mulher. Não havia microscópio para possibilitar a observação de processos minúsculos como a fecundação pelos dois gametas.
Mesmo assim, mesmo tendo a informação científica equivocada de que apenas o sêmen do homem era responsável pela formação do novo ser, e a mulher era apenas o “terreno” onde essa semente ia ser nutrida e crescer, ainda assim ele é clarividente em explicar que o ser gerado pode ser resultante da intervenção de vário agentes coordenados entre si; como, de fato, a ciência de hoje explica. O gameta masculino (o espermatozóide) penetra o gameta feminino (o óvulo) e o próprio Deus abençoa essa união, criando ali no mesmo instante da fecundação,, a partir desses elementos genéticos e materiais, uma alma espiritual nova, que conduzirá paulatinamente o ser humano recém gerado à condição de plenamente humano, embora ainda potencial para a maioria de suas capacidades.
Podemos, então, dizer a Tomás: não é que o corpo surja do sêmen e a alma seja infundida depois por Deus; é que o pai, a mãe e o próprio Deus estão envolvidos, no mesmo instante, com a geração desse novo ser humano que já surge plenamente humano, embora ainda potencial para a maioria de suas capacidades. Homem, mulher e Deus unem-se nesse maravilhoso encontro sexuado que leva à geração de um novo ser humano.
O quarto argumento objetor.
Cada animal gera uma prole que é da mesma espécie, transmitindo ao descendente todas as características de sua espécie. Assim, o mesmo deve se dar na reprodução humana: os genitores são capazes de transmitir ao bebê todas as características da espécie humana, inclusive aquelas chamadas de “espirituais” (inteligência e vontade) apenas pelo mecanismo natural de reprodução, sem que seja necessário imaginar uma intervenção criadora de eus em cada ato de reprodução, conclui esse argumento de modo materialista.
A resposta de Tomás.
É verdade que a atividade reprodutiva do ser humano, pelo encontro dos gametas no ato sexual, é capaz de fornecer toda a biologia do novo ser, e é sobre essa biologia humana que Deus infundirá a alma espiritual. Não é de se estranhar, portanto, que muitas vezes os filhos sejam tão diferentes dos pais no campo espiritual, isto é,, em temperamento, em capacidades intelectuais e em força de vontade; algumas vezes até mesmo se vê pais medíocres ou mesmo perversos gerarem filhos santos!
O quinto argumento objetor.
Não se pode nem imaginar que Deus pudesse cooperar com os pecadores em seu pecado mesmo. Ora, um ato sexual desordenado ou mesmo criminoso, como um estupro, podem resultar na concepção de um novo ser humano, e não se poderia imaginar que Deus fosse colaborar com essas desordens, ou mesmo com a violência, para legitimá-la ao criar, ao fruto dela, uma alma espiritual. Assim, Deus não participa de modo nenhum da concepção humana, conclui o argumento, usando, aliás, uma linha de raciocínio que muitos ativistas do aborto usam, hoje em dia, para justificar o aborto de bebês gerados em situações de violência.
A resposta de Tomás.
A bondade de qualquer ser humano é incondicionada. Ninguém é rejeitado por Deus em razão do pecado de seus pais, como o próprio Jesus nos ensina em João 9, 2-3. Assim, mesmo decorrente de pecado, inclusive violento, a concepção dá origem a um novo ser humano, com toda a dignidade, e por isso trata-se de um ser “muito bom” (Gn 1, 31). Isso é muito diferente de imaginar que Deus pudesse cooperar com o próprio pecado, com a luxúria ou com a violência sexual. Mas a culpa do gerador não tira a dignidade do que é gerado.
- Concluindo.
É claro que a atividade espiritual do ser humano ultrapassa as forças da natureza criada, e são a marca da relação pessoal, o fruto direto da atuação de eus em nós. É um belo modo de pensar: ali mesmo onde ocorre a geração, instantaneamente com o encontro dos gametas masculino e feminino, ali mesmo Deus faz surgir um novo ser humano, em sua inteireza corporal-espiritual.
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