- Retomando.
Estamos, neste debate, no campo da teologia. Mas não saímos do campo da razão, já que teologia é a tentativa de entender a revelação pelo discurso racional, ou seja, fé e razão andando juntas. Segundo a antiga concepção, a revelação não era a introdução da irracionalidade no campo do conhecimento humano (como um ponto de partida que demonstraria a arbitrariedade de Deus, e cuja única resposta possível seria a submissão a ele). Não. A revelação é, como o próprio nome diz, a luz mais intensa, que traz a nós aquilo que não enxergamos espontaneamente com a razão não porque não é racional, mas porque excede as nossas forças. É por excesso de luminosidade, e não pela falta dela, que precisamos da revelação.
Assim, vimos, no texto anterior, que há algo no ser humano que não é simplesmente transmitido na reprodução sexual, mas adicionado por Deus mesmo – cada concepção é um ato a três. O que é acrescentado por Deus é justamente a luz do intelecto, que nos permite realizar operações que superam o corpo e apresentam uma relativa independência com relação a ele: as operações espirituais, das quais a mais elevada é entrar em relação com Deus, amá-lo e louvá-lo. Esta característica esteve presente em todas as civilizações humanas, desde os tempos imemoriais, e serve de barreira entre o humano e o não-humano: os animais não têm religião. Tampouco as inteligências artificiais o têm.
Posto isso, vamos retomar os argumentos objetores iniciais, que tentavam comprovar a ideia contrária, de que Deus não precisa intervir na concepção humana porque nada há em nós que ultrapasse as capacidades da criação material. Vimos que a hipótese é falsa, e agora, municiados com os princípios da resposta sintetizadora, podemos acompanhar as respostas de Tomás a cada argumento objetor inicial.
- Os argumentos objetores iniciais e as respostas e Tomás.
O primeiro argumento objetor.
Vimos que o primeiro argumento objetor é bíblico; cita Gênesis 46, 26: “O total das pessoas saídas de Jacó, que vieram com ele para o Egito, sem contar as mulheres de seus filhos, era de setenta ao todo”. Disso, o argumento conclui que, se as pessoas saíram de Jacó, então não há intervenção especial de Deus na reprodução humana, para a formação do novo ser humano.
A resposta de Tomás.
Precisamos ler a Bíblia com atenção ao estilo literário que ela usa. Nesta passagem, o Escritor Sagrado está usando a figura da sinédoque, isto é, está usando uma palavra que designa o todo (as pessoas que saíram da coxa, quer dizer, dos órgãos reprodutores de Jacó), para expressar um processo que é muito mais complexo: envolve, é claro, a participação das mães que geraram os filhos e de Deus, que, por ato criativo, formou suas almas espirituais. Jacó é apenas parte deste processo. Portanto, a Bíblia quer marcar a origem patriarcal dos descendentes de Jacó, e não precisa, para isso, descrever todo o processo reprodutivo. Não devemos, pois, usar o texto da Bíblia para extrair dele o que não cabe em sua interpretação literal. Não é, pois, um bom argumento contra a participação de Deus no processo de reprodução humana.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento é mais filosófico. Ele lembra da unidade ontológica da alma humana. Embora tenhamos muitas capacidades, de muitos níveis, em nossa alma, há apenas uma alma no ser humano, como sabemos. Ora, já sabemos que a alma dos animais é gerada pelos próprios elementos naturais da reprodução; vimos isto quando estudamos o primeiro artigo desta questão 118. Mas o ser humano é um animal, e não perde essa condição por ser dotado de capacidades próprias da sua espécie. Assim, a alma humana, em sua unidade substancial, vem da mesma origem, plenamente natural, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Tomás inicia sua resposta por uma observação que diz respeito à ciência de seu tempo, mas ainda nos interessa muito: qual a origem, qual a fonte, qual o princípio vital que anima as atividades do embrião humano, no útero materno?
O embrião como um novo ser a partir da concepção.
Sempre houve quem dissesse que o embrião não é um novo ser, enquanto está no útero materno. No fundo, sua atividade biológica seria explicada apenas em razão da vida da mãe, isto é, é a mãe que é viva, que tem alma, que empresta ao embrião a capacidade de nutrir-se, de crescer, de viver. Então o embrião seria apenas um anexo, um órgão da própria mãe, até nascer e adquirir sua própria alma, tornando-se um ser autônomo com relação à mãe. Mas isto, diz Tomás com energia, é falso. A partir da concepção, o pequeno novo ser já tem um princípio vital próprio, porque ele já cresce, já se nutre, já atualiza certas capacidades que não podem ser atribuídas a um princípio externo a ele mesmo. Quando a primeira célula do novo ser se forma, é ele quem se nutre, é ele que cresce, é ele que está vivo – suas operações não poderiam ser explicadas somente em razão das operações maternas. A ciência do nosso tempo sabe disso ainda melhor do que a ciência do tempo de Tomás, já que temos a habilidade de induzir esse processo mesmo fora do corpo da mãe, pela chamada reprodução in vitro.
O desenvolvimento sucessivo da vida e a natureza humana.
A teoria das três almas simultâneas.
Mesmo a ciência do tempo de Tomás já sabia do desenvolvimento do ser humano a partir da concepção, embora as fases de desenvolvimento ficassem visíveis apenas em etapas mais tardias. Como era evidente – como é ainda para nós – que o ser humano passa por estágios iniciais muito simples de desenvolvimento, até atingir, sucessivamente, estágios mais complexos, muitas teorias foram desenvolvidas quanto a esse desenvolvimento.
Vários pensadores, em especial no campo da filosofia natural, propunham que, imediatamente após a concepção, havia um ser vivo, mas dotado em ato apenas de uma “alma vegetativa” em ato, isto é, apenas com a capacidade de se nutrir e crescer. A partir de um determinado estágio, desenvolver-se-ia uma “alma sensitiva”, presente no início apenas em estado potencial, mas agora efetiva e atual, que levaria o embrião a ter capacidade de perceber, sentir e reagir. Seria uma “segunda alma” no ser humano. Por fim, a alma espiritual ou intelectual apareceria em ato, infundida por Deus. O ser humano teria, então, dentro de si, três almas, que se relacionam entre si de modo hierárquico.
Mas esta teoria não se sustenta. Não somos um conjunto de almas, como se convivem em nós o vegetal, o animal e o espiritual, de modo simultâneo e agregado, mas como três naturezas diferentes. O ser humano, se fosse formado desse jeito, não seria um ente, mas um aglomerado instável de entes – uma vez que cada alma determina uma essência, seríamos um “ecossistema” de três essências. Isto é manifestamente falso: somos um só ente, temos a unidade transcendental que nos identifica. Logo, essa teoria da ontogênese fetal tríplice não pode se sustentar, diz Tomás.
A teoria das três almas sucessivas.
A teoria das “três almas sucessivas”, para fugir dos problemas que decorrem de imaginar que temos simultaneamente três almas em nós (uma vegetativa, uma sensorial e uma espiritual), propõe que, na verdade, temos uma só alma; mas que ela surge, na concepção, como uma alma vegetativa, que, pela força dos gametas, se transforma depois numa alma sensorial e, por fim, se transforma numa alma humana espiritual, pela intervenção divina. Mas esta não é uma boa explicação, diz Tomás.
Na verdade, se as coisas fossem assim, teríamos que admitir que cada transformação dessas mudaria a espécie a que pertencemos. Após a concepção, pertenceríamos ao gênero vegetal; depois, com o acréscimo de qualidades sensoriais, passaríamos ao gênero dos animais irracionais, para, por fim, por intervenção divina, nos transformarmos em seres humanos.
Seria algo análogo a fazer uma conta: começamos com o número 01, depois nos transformaríamos no número 02 pela adição de outra unidade, e terminaríamos, por intervenção divina, como o número 03.
Neste caso, não estaríamos falando de geração humana, mas de transformação progressiva de um vegetal num ser humano, por adição sucessiva de perfeições. O que seria um pensamento absurdo: nada pode mudar de espécie, nada pode se transformar num ser de outra espécie, sem violar sua própria natureza e sua própria identidade.
Ora, prossegue Tomás, se aquilo que Deus cria em nós (a alma espiritual) é algo que permanece, porque opera independentemente da matéria, e se as primeiras duas fases da concepção humana pertencem ao reino vegetal ou ao gênero dos animais irracionais – ambos são, como sabemos, coisas cujas almas não permanecem após a morte – teríamos que concluir que a alma humana é tríplice, e apenas a parte espiritual permanecerá, mas a alma vegetal e a alma sensorial seriam destruídas pela morte. Mas nesse caso voltaríamos à ideia de que temos três almas em nosso corpo, o que, como já vimos, não faz sentido. E se admitirmos que é a mesma alma que adquire de repente uma dimensão espiritual, então teríamos que admitir que o ser humano terá sua alma destruída pela morte, o que também sabemos que não é verdade.
Por fim, Tomás lembra que há pensadores que imaginam que, em nosso corpo, existe apenas a alma animal irracional, já que o intelecto seria um só para toda a humanidade. Neste caso, quando morremos, perdemos toda a individualidade, e somente sobrevive esse “intelecto coletivo”. Isso também não pode ser admitido, diz Tomás. Somos seres individuais, nossa sobrevivência após a morte é também individual.
A teoria da corrupção da forma anterior para a geração da forma posterior.
Por fim, Tomás propõe que a concepção decorre pela geração e corrupção de almas sucessivas: é como se fôssemos concebidos como larvas, para depois passar por um estágio de pupa e resultar, no fim, no ser humano completo. Começaríamos como um embrião dotado com alma vegetativa. Com o desenvolvimento da estação, nossa alma vegetativa seria destruída e daria lugar a uma alma sensorial, animal, irracional, que se manifestaria pela capacidade de mexer e de reagir a estímulos. Por fim, como a lagarta que vira pupa e depois borboleta, esse estágio animal também seria destruído por ação divina, com a criação da alma espiritual na última geração da nossa pessoa. O processo gestacional, que culminaria com a gênese de um ser humano, implicaria sempre a destruição da fase anterior e a geração de uma alma mais elevada na nova fase.
A vida começa na concepção, com todas as suas características e atributos.
Com todo respeito a Tomás, essa teoria não pode ser admitida, hoje. De fato, sabemos que no momento mesmo da fecundação o ser humano já possui todas as capacidades, todas as potencialidades, toda a informação genética que caracteriza sua plena humanidade, até sua morte. Se essas capacidades não se manifestam abertamente num primeiro momento, é simplesmente porque ainda não estão maduras para fazê-lo. Por isso, somos plenamente dotados de uma alma espiritual, desde o primeiro momento da concepção, da qual Deus participa, criando as capacidades espirituais naquele pequeno ser que surge no momento mesmo do encontro dos gametas dos pais.
- Encerrando por enquanto.
Alguns, em nosso tempo, usam a posição de Tomás para defender que o aborto poderia ser feito nos primeiros momentos da gravidez, já que não haveria, ali, a alma espiritual que dá dignidade humana ao embrião. Nada mais falso. Tomás jamais concordaria com esta posição, por mais anacrônica que seja a visão que defende. A vida é um dom, e a vida humana depende, em cada nova geração, da intervenção divina – não sendo disponível. Abortar é sempre renegar radicalmente a relação com Deus, mesmo na visão de “gerações sucessivas” de Tomás.
O Catecismo da Igreja Católica, no § 1711, acompanhando a melhor tradição, nos ensina: “Dotada de uma alma espiritual, de inteligência e de vontade, a pessoa humana é, desde a sua concepção, ordenada para Deus e destinada à eterna bem-aventurança. E continua a aperfeiçoar-se na busca e amor da verdade e do bem”.
No próximo texto estudaremos os demais argumentos objetores e as respostas de Tomás.
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