- Retomando.
A nossa contemporaneidade está, rapidamente, esquecendo o significado da noção de “dignidade da pessoa humana”, e o faz não porque diminua a pessoa humana, mas porque estende a pessoalidade a tudo aquilo que pessoa não é, mas nega este status ao ser humano em determinadas fases da vida. Recentemente, noticiou-se que determinada montanha na Nova Zelândia foi considerada como “pessoa”… no entanto, o aborto é realizado livremente pelo mundo, como se o embrião humano não fosse pessoa. Se, por um lado, não podemos mais levar ao debate público a razão de que Deus mesmo intervém na concepção de cada ser humano, criando ali a alma espiritual sobre o material genético compartilhado pelos pais, por outro lado devemos conhecer bem esta noção, como cristãos, para que saibamos o que defendemos. É certo, porém, que o mais empedernido ateu só consegue sê-lo porque é capaz de conceber a noção de Deus, ao menos para negá-la. É dessa capacidade que falamos quando tratamos da dignidade humana: capacidade que falta tanto aos demais seres vivos do mundo material quanto às criações das mãos humanas, como robôs e inteligências artificiais.
Aliás, no texto anterior, iniciamos nosso debate justamente com a hipótese provocadora (e falsa, ou ao menos incompleta) de que a alma espiritual é produto apenas das forças biológicas da reprodução sexuada, e portanto não há intervenção direta e pessoal de Deus na formação da alma humana. Vimos cinco argumentos iniciais que tentam comprovar esta tese, a partir de argumentos bíblicos (como o que diz, em Gênesis 46, 26, que os hebreus que partiram para o Egito “saíram da coxa de Jacó”) ou argumentos naturais, que recorrem a fundamentos biológicos ou mesmo filosóficos para provar que não há necessidade de intervenção sobrenatural para a formação de algo tão natural quanto a alma humana. Vimos, depois, o argumento sed contra, que recorre à Tradição católica para afirmar que Deus forma, por criação, cada nova alma humana.
Vejamos, agora, a resposta sintetizadora de Tomás.
- A resposta sintetizadora de Tomás.
Aquilo que pertence apenas a este mundo material permanece neste mundo material, e não é capaz de nenhuma operação que se eleve para além dele. Mas sabemos que o conhecimento intelectual, abstrato e universalizante, é efeito de uma operação que se eleva para além do mundo material, porque é capaz de abstrair, dele, os dados inteligíveis que não são materiais. Quando observo meu próprio pensamento, quando contemplo minha própria mente pensando, quando sou capaz de estabelecer, ainda que passivamente, uma relação com Deus (qualquer que seja a religião), experimento ações que transcendem o mundo material, e portanto não podem ter origem nele. Se, por um lado, adquirir as informações básicas sobre o mundo é algo que não posso fazer sem me valer das capacidades do meu corpo, a atividade contemplativa se dá de modo transcendental (para usar uma linguagem kantiana) e portanto de modo relativamente independente do corpo e de suas capacidades. É por isso que essas atividades não podem ser ligadas a capacidades transmissíveis hereditariamente pela atividade reprodutora sexual. A geração sexual pode produzir aptidões, características, até mesmo predisposições e limites, mas não pode transmitir os princípios, as disposições que dizem respeito a virtudes, conhecimento, fé, abertura à graça, cultura e ciência. Tudo isto está no campo do imaterial, do espiritual, do que transcende ao mundo material.
Assim, é preciso buscar algum princípio gerador que esteja além da transmissão de gametas no coito. E que seja algum princípio poderoso o suficiente para criar as disposições espirituais que mencionamos há pouco.
Ora, aquilo que opera somente na matéria tem como limite de existência a própria matéria; isto é, uma vez destruído o corpo, perece também a forma, a alma do ser natural material. Nada há no cão ou no gato que possa permanecer quando seu corpo perece, porque ele não é capaz de operações que transcendam o mundo material. Mas o ser humano, pelas operações espirituais, é capaz de operar e de continuar operando mesmo sem o corpo – como o próprio Descartes intuiu, embora de um modo dualista que não é completamente similar ao que Tomás propõe.
Portanto, um ser com capacidades espirituais, capaz de sobreviver à destruição material, não pode explicar sua origem apenas por forças naturais. Deus participa, pois, da geração humana, pela criação particular e individualizada da alma espiritual subsistente – isto explica nossas operações espirituais, nossa subsistência consciente após a morte e nossa dignidade especial.
- Encerrando por enquanto.
Operações espirituais, capacidades transcendentais, subsistência consciente e dignidade especial. Tudo isso é perfeitamente razoável – embora nem sempre evidente a nós, nos dias que correm. Esta posição do ser humano não é, a rigor, um privilégio que nos deve encher de orgulho e arrogância frente ao resto da criação, mas, na verdade, uma imensa missão: somos nós a criação material consciente de si mesma, que é capaz de entrar em relação livre com Deus, amá-lo e conduzir livremente o mundo criado até ele.
No próximo texto estudaremos as respostas de Tomás aos primeiros dos argumentos objetores.
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