1. Introdução.

O Livro do Gênesis (4, 1) traz uma interessante exclamação de Eva, quando veio a conceber Caim. Ela exclama: “ganhei um filho homem, graças ao Senhor” (ou com a ajuda do Senhor, dizem algumas traduções). Historicamente, isto sempre foi entendido como um indício de que Deus participa pessoalmente da concepção de cada novo ser humano, pela criação individual de sua alma espiritual. Esta intuição parece ser um elemento bem fixado na Tradição. Mas o que se propõe agora é investigar a razão, e para isso Tomás usará a ciência de seu tempo – que, já sabemos, tinha uma visão muito limitada da reprodução. Não conhecia os gametas, não conhecia os genes, atribui ao sêmen a transmissão de toda a informação e à mulher apenas a “materialização” do novo ser, ou seja, a parte material – corporal. Hoje, temos uma visão científica muito mais apurada, mas os princípios estabelecidos por Tomás ainda são verdadeiros e úteis para nós. Vamos acompanhar, então, este debate.

  1. A hipótese polêmica inicial.

No debate sobre o artigo anterior, vimos que nada do que há num animal não-humano ultrapassa as capacidades de geração da natureza; deste modo, a reprodução animal se explica apenas pelos fatores naturais, e não é necessária nenhuma intervenção especial de Deus para fazer criar na prole a alma sensorial dos animais. A hipótese controvertida, agora, quer equiparar, neste particular, o ser humano com os outros animais, propondo que também no caso humano a transmissão de informações e matéria pela reprodução sexuada é suficiente para dar origem à prole, sem que seja necessária nenhuma intervenção especial de Deus a cada nova fecundação. Isto é, nada há no ser humano que ultrapasse, em dignidade ou mesmo em funções, o que existe de capacidades e potencialidades nos demais animais, e somos seres estritamente limitados àquilo que é gerado e corrompido na criação como um todo

Examinemos os argumentos que existem para tentar comprovar esta hipótese e refutar contestações a ela, que chamamos de “argumentos objetores”. No presente caso, eles são nada menos do que cinco

  1. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor é bíblico. Ele cita Gênesis 46, 26: “O total das pessoas saídas de Jacó, que vieram com ele para o Egito, sem contar as mulheres de seus filhos, era de setenta ao todo”. Ora, se a Bíblia ensina que essas pessoas “saíram de Jacó”, isso significa que foram geradas apenas pela atividade sexual de Jacó com suas esposas, sem necessidade de nenhuma intervenção criadora de Deus. Assim, também a alma intelectiva dos seres humanos é formada dos próprios elementos naturais da atividade sexual, conclui apressadamente o argumento. 

O segundo argumento objetor.

Há apenas uma alma no ser humano, como sabemos. Essa alma humana possui em si as faculdades vegetativas (crescer, alimentar-se, reproduzir-se) que compartilhamos com todos os seres vivos, até os vegetais; possui as capacidades sensoriais (os sentidos, a memória, o senso comum) que compartilhamos com os outros animais e possui a capacidade de raciocinar e aprender intelectualmente. Ora, já sabemos que a alma dos animais é gerada pelos próprios elementos naturais da reprodução. Ora, o ser humano é um animal. Assim, a alma humana, em sua unidade substancial, vem da mesma origem, plenamente natural, conclui o argumento. 

O terceiro argumento objetor.

Em qualquer processo de geração, os mesmos agentes são responsáveis pela forma e pela matéria daquilo que é gerado. Deste modo, por exemplo, a semente da árvore provoca o desenvolvimento de raízes, tronco, folhas, flores e frutos, e também provoca a madeira e a celulose das folhas. As coisas são assim porque aquilo que é gerado (como a árvore, neste exemplo) não é um composto de várias coisas, mas apenas uma coisa, uma unidade substancial, embora composta de vários elementos.  Ora, a alma animal é a forma do corpo vivo dos animais, e, como vimos no artigo anterior, ela resulta apenas dos elementos envolvidos na reprodução biológica. Dada a natureza animal e a condição unitária do ser humano, deve-se concluir, então, que todos os seus elementos, inclusive sua alma intelectiva, surgem desse mesmo processo reprodutivo, conclui este argumento.

O quarto argumento objetor.

Sabe-se, diz o argumento, que, quando alguma coisa é gerada, ela é gerada com as mesmas características do gerador. É assim que diz o velho ditado: “tal pai, tal filho”, ou ainda “ninguém pode dar o que não tem”, ou mesmo “semelhante gera semelhante”. Ora, o ser humano é naturalmente dotado de alma espiritual. Logo, nada mais natural que os genitores possam transmitir aos filhos aquilo que eles mesmos têm, isto é, uma alma espiritual. Portanto, não é necessário que Deus intervenha criando diretamente cada nova alma espiritual no momento da concepção, conclui o argumento, apressadamente.

O quinto argumento objetor. 

Deus não pode ter parte com o pecado. Mas muitas crianças nascem da fornicação, da prostituição, do estupro e do adultério. Mas se Deus interviesse em cada concepção, criando diretamente a alma das crianças, então ele estaria em cooperação com o pecado e o mal que estes genitores praticam em sua atividade sexual desordenada. Logo, Deus não participa da fecundação do novo ser humano com a criação das almas do novo ser, proclama agressivamente este argumento. 

  1. O argumento Sed Contra.

O argumento sed contra lembra que é uma velha tradição da Igreja, registrado no antigo e respeitável livro Dos Dogmas Eclesiásticos, que as almas inteligentes, como a alma humana, não são geradas pelo ato sexual. De fato, elas têm a capacidade de abstrair, de refletir, de aprender, de abarcar todo o material com o pensamento; logo, o mundo material não pode explicar suas capacidades, que surgem, em cada novo ser, por criação divina, conclui o argumento contrário, refutando a hipótese inicial.

  1. Encerrando por enquanto.

Não é preciso raciocinar muito para ver quão atual é este debate. Independentemente do valor que alguém adquire por sua herança genética, seu patrimônio, seu status, sua inteligência e cultura, sua origem étnica ou religiosa, há um elemento que nos une todos em dignidade: cada um de nós é gerado num momento precioso em que Deus mesmo intervém e cria em nós a sua imagem e semelhança, individualmente, infundindo-nos a alma espiritual. Ele não o faz por causa dos genitores, mas porque quer novos filhos no mundo. Isso dá uma dimensão trágica a todo genocídio, a todo homicídio, a toda eutanásia, a todo aborto provocado: trata-se de um atentado contra a obra que saiu das mãos de Deus. Isto pode ser evidenciado, inclusive, no quinto argumento objetor: o fato de que uma criança é fruto mesmo de um crime terrível não esconde o fato de que Deus o dignificou, gerando-o com inteligência e dignidade, de tal modo que mesmo o crime mais terrível dos genitores não pode justificar a eliminação de sua vida tão digna quanto a de qualquer um de nós. 

No próximo texto estudaremos a resposta sintetizadora de Tomás.