1. Retomando para finalizar. 

Semelhante gera semelhante, diz o velho ditado que tem origem na antiga filosofia grega. O mundo criado como universo material está sujeito à corrupção, mas também está sujeito à geração: o mundo daquilo que tem matéria e forma não permanece. Mas o mundo do espiritual, isto é, do pensamento, do conhecimento, da ideia e principalmente da relação consciente com Deus – quer para adorá-lo, quer para odiá-lo – não está sujeito à geração e corrupção.Aquilo que é espiritual não pode se reproduzir por suas próprias forças: cada ser espiritual sai das mãos de Deus por um ato individual de criação. Veremos isso nos próximos artigos. Mas por enquanto interessa saber que, salvo os seres humanos, nenhum animal é capaz de adorar – ou rejeitar – conscientemente o Criador. Assim, nada há nos animais que supere as forças naturais do universo material, e por isso a reprodução animal dá conta de, por suas próprias forças, gerar descendentes. Vimos isto nos últimos textos. Descobrimos, portanto, que a hipótese inicial é errônea – ela dizia que a simples vida animal, com suas capacidades sensoriais, tem que ser individualmente criada por Deus quando há a reprodução animal. 

Munidos agora desses princípios, vamos rever os argumentos objetores iniciais, que tentavam comprovar aquela hipótese, e estudar as respostas de Tomás sobre eles. 

  1. Os argumentos objetores iniciais e as respostas de Tomás.

O primeiro argumento objetor.

Apenas o que é material é que pode ser objeto de geração, ou seja, de reprodução animal, sexuada ou assexuada. As substâncias estritamente imateriais não se reproduzem. Ora, a vida animal está numa estrutura que dá ordem à matéria, e portanto, não é, ela própria, material, mas imaterial. O animal é formado de matéria, que compõe o corpo, e de uma forma que estrutura a matéria, que chamamos de “alma sensorial”. Mas se a alma não é material, ela não pode se reproduzir, seja sexualmente, seja assexuadamente. Assim, é necessário que o próprio Deus crie uma alma animal cada vez que há um ato reprodutivo entre os animais, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

A alma dos animais, ou seja, aquela estrutura imaterial que dá ordem, e portanto vivifica o corpo material, não é uma entidade em si mesma, portanto não pode ser considerada como uma “coisa espiritual”, de modo que não é uma “substância imaterial” como um anjo, que existe, inteiramente, sem possuir uma dimensão material. A alma é apenas uma dimensão, um elemento imaterial inseparável do corpo animal. É o próprio animal que é a substância, a alma dele é apenas um elemento inseparável que não subsiste senão como forma do corpo, e portanto está sujeita à destruição quando esse animal morre. Uma vez, pois, que não há nada na alma do animal que supere essa função de ordenar e vivificar o corpo, e perecer quando ele morre, a própria reprodução animal pode gerar aquela ordem na matéria que explica o surgimento de um novo animal descendente do primeiro, sem que seja necessário que Deus intervenha a cada vez, e crie a vida do novo animal. 

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento objetor lembra que a função reprodutiva não pertence nem à esfera da inteligência, nem mesmo à esfera dos sentidos e da percepção animal, mas está na esfera das funções vegetativas – até vegetais e mesmo pessoas em coma são capazes de se reproduzir. ora, diz o argumento, o menos não pode gerar o mais. Se a reprodução é uma das funções da capacidade vegetativa, ela não poderia fazer surgir a esfera da vida sensorial dos animais nem muito menos a esfera da vida espiritual do ser humano. Logo, é necessário que o próprio Deus intervenha em cada reprodução animal, infundindo a alma sensorial, ainda que irracional, em cada novo filhote, conclui este argumento. 

A resposta de Tomás.

Não podemos isolar, nem determinado ente, aquilo que é “da alma vegetativa”, ou “da alma sensorial”, ou mesmo “da alma espiritual”. É certo que a função reprodutiva biológica é compartilhada por todos os seres vivos, desde vegetais até animais e os seres humanos. Mas não há “diversas almas” dentro de um animal, como se houvesse uma “alma vegetativa” e uma “alma sensorial”, além de uma terceira “alma espiritual” no ser humano. Cada ser vivo possui apenas uma alma, porque é apenas um ente. Assim, nos animais, é o próprio ser que se reproduz, e não a sua “alma vegetativa”. Por isso, quando se reproduz, um animal transmite à sua prole aquilo que ele mesmo é, um ser vivo e sensorial que possui a vida em razão de uma alma que acumula em si as funções vegetativa e sensorial. Por isso, conclui Tomás, não é necessário que Deus intervenha na reprodução animal para criar uma nova alma a cada filhote: os próprios genitores transmitem a ele tudo aquilo que eles próprios possuem em suas almas sensoriais. 

O terceiro argumento objetor.

Lembremos, aqui, que o terceiro argumento objetor foi elaborado num tempo em que não se sabia nada sobre gametas microscópicos ou sobre cromossomos e genética. assim, acreditava-se que o sêmen masculino traria a alma, a forma, quer dizer, as instruções para a estruturação do filhote, e o útero forneceria a matéria para seu crescimento. Deste modo, 

ora, se é assim, diz o terceiro argumento, a alma do novo ser tem que ser gerada por Deus, porque o sêmen não é parte do corpo do pai – uma vez que traz em si a potencialidade do corpo do filhote – e tampouco é parte do corpo do filhote, porque este ainda não existe antes da fecundação. Logo, uma vez que o sêmen é algo material, ele pode até trazer a capacidade de estruturar o corpo do filhote, mas não pode transmitir-lhe uma alma viva animal, porque o sêmen não possui uma alma assim, e cada coisa só pode transmitir aquilo que ela mesma tem. Deste modo, conclui o argumento, Deus tem que intervir na fecundação animal e criar do nada, a cada vez, uma alma animal para o filhote, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

A resposta de Tomás continua correta em sua intuição, mas parte de uma ciência muito limitada, que existia em seu tempo. Ele tenta explicar, com base naquilo que a biologia de seu tempo conhecia, que o sêmen é como uma ferramenta para a formação do novo ser, que atua no corpo da fêmea – que está para essa ferramenta como a madeira está para o serrote. O fato de que o sêmen é leitoso e espumoso, crê a ciência do tempo de Tomás, revelaria sua capacidade de conter, ainda que apenas virtualmente, a capacidade espiritual de gerar uma nova alma. 

Hoje, sabemos que o sêmen é fecundo porque carrega os gametas masculinos, que têm em si a informação genética do pai. Essa informação se encontra com a informação contida no gameta feminino e isto é suficiente para gerar uma nova vida animal. Mas concordamos com a resposta de Tomás: qualquer que seja a ciência por trás disso, o fato não muda: a natureza foi criada por Deus de tal modo que o mundo material possui a capacidade de transmitir a vida animal entre os genitores e a prole, de modo que não é necessária uma intervenção criadora de Deus a cada nova fecundação animal. Isto não inclui, é claro, a alma espiritual humana, como veremos nos próximos artigos. 

O quarto argumento objetor.

O quarto argumento debate de que maneira a alma poderia ser transmitida pelo sêmen. ela alega que a forma do sêmen não pode ser a alma do genitor, porque o filhote é um ser diferente do pai. Nem pode ser a alma do filhote já presente antecipadamente no pai, porque nesse caso cada animal macho carregaria em si diversas almas, a própria alma em seu corpo e a alma dos filhotes em seu sêmen, o que é impossível, porque cada um só tem uma única alma. por fim, alega que o sêmen poderia ter uma espécie de “alma intermediária” que se destruiria com a formação da alma no pequeno animal gerado, mas isso também seria impossível, porque essa “alma potencial” seria puramente formal, não material, e nenhuma entidade imaterial provoca sua própria destruição deliberadamente. logo, é necessário que Deus intervenha na fecundação animal e crie uma nova alma para cada filhotinho, conclui erroneamente o argumento.

A resposta de Tomás.

Mais uma vez, Tomás dá uma resposta filosoficamente correta a partir do conhecimento científico altamente limitado de seu tempo; para ele, o sêmen traz em si o “espírito” que permite formar o novo ser; não se trata, diz ele, da alma do pai, porque nesse caso o novo ser seria um mero clone do pai e o papel da mãe seria apenas de nutrição. Trata-se de uma capacidade que teria o sêmen de dar origem à nova alma, e que, por consequência, faz com que o sêmen deixe de fazer sentido após a fecundação, deixando de existir, como o ovo deixou de existir quando formou a galinha.

Mas hoje sabemos que, na reprodução sexuada, os gametas masculino e feminino, que contêm apenas metade da informação necessária para o novo ser, fundem-se na fecundação, fazendo surgir um novo ser que não é nem o pai e nem a mãe, mas que traz em si a informação necessária para seu desenvolvimento – a nova alma se gera pela fecundação, quando todas as informações se reúnem e aperfeiçoam a nova existência. Tudo o que é necessário para o novo animalzinho se faz presente nesse encontro sexual – os gametas deixam de existir, porque cumpriram sua função, e passa a existir a prole. Portanto, o raciocínio de Tomás é perfeito, embora sua ciência biológica seja ultrapassada.

  1. Conclusão.

Este debate tem grandes impactos na ideia de dignidade animal: de fato, se há algo na vida animal não inteligente que demanda a intervenção direta de Deus para ser criada, significa que essa mesma vida é dotada de uma individualização e de um valor que ultrapassa todo o resto da criação, porque a natureza, por si mesma, sem intervenção divina, não seria capaz de produzir. Em suma, se é Deus quem infunde, por um ato criado novo a cada vez, a vida em cada animal irracional que é gerado neste mundo, então apenas Deus tem disposição sobre todas estas vidas, de tal modo que sacrificá-las para alimentação, ou mesmo para a segurança humana, ou até para o seu aproveitamento econômico de qualquer modo, seria algo imoral, pecaminoso. Seria a destruição de uma obra direta, individual e particular de Deus. Mas as coisas não são assim, como vimos. E veremos mais quando estudarmos a geração humana e a peculiaridade da alma espiritual.