1. Retomando o debate. 

Estamos debatendo a reprodução animal. Como já lembramos, Tomás discute este assunto a partir dos dados científicos de seu tempo: ele não conhecia os gametas, mas apenas o sêmen masculino, que a ciência de seu tempo via como origem da prole. O animal de sexo masculino forneceria a informação e o corpo feminino forneceria o material e o ambiente para a fecundação e o surgimento do novo ser. Não havia conhecimento microscópico nem genético. A pergunta a ser respondida é: a estrutura do universo criado é suficiente para fornecer todos os elementos necessários à reprodução animal? No fundo, o que se quer responder é: há algo no animal que não se possa explicar apenas pelo jogo das forças naturais, isto é, há algo que demande a intervenção divina cada vez que um novo animal é gerado? 

A hipótese controvertida inicial abre o debate propondo, como vimos no último texto, que a cópula e o simples encontro dos gametas no ato sexual não é suficiente para transmitir à prole uma alma sensorial, isto é, a formação de um novo animal, com sua vida sensorial. Seria necessária a intervenção direta de Deus para infundir a vida em cada animalzinho que fosse gerado por reprodução na Terra. Há quatro argumentos iniciais que tentam comprovar essa hipótese: elas giram, como vimos, na materialidade corporal do ato reprodutivo, que envolve a troca de sêmen e o desenvolvimento no corpo da fêmea. Os argumentos objetores usam da filosofia e da biologia daquele tempo para tentar demonstrar que um ato como este, com sua característica estritamente material, não seria capaz de fazer surgir um novo ser vivo, porque a vida depende de uma estrutura que não é material, mas puramente formal. Deste modo, em qualquer reprodução animal, Deus precisaria intervir diretamente para criar a vida no novo ser, ainda que seja apenas uma vida sensorial e não uma vida inteligente. 

O argumento contrário traz a ideia, também baseada na ciência daquele tempo, de que alguns animais podem ser gerados espontaneamente pela putrefação de matéria orgânica, como vermes e pequenos insetos. Logo, do mesmo modo que a matéria orgânica inanimada  possui em si virtualmente a capacidade de conter potencialmente a vida desses animais gerados espontaneamente, também o sêmen possuiria a potencialidade de gerar filhotes.

Relevando um pouco a ideia de que o debate se fundamenta em ideias científicas antiquadas, há grandes intuições filosóficas e teológicas, aqui, que ainda nos são importantes, como a participação de Deus na criação da vida nova e a dignidade de seres humanos e animais. Vamos, pois, examinar agora a resposta sintetizadora de Tomás. 

3. A resposta sintetizadora de Tomás. 

Precisamos iniciar diferenciando os seres simples dos seres compostos. Na filosofia de origem aristotélica, como a que Tomás usa, chamamos de seres simples aqueles que são apenas formais, isto é, que não têm matéria em sua composição. Por isso, as ideias são seres simples, como também são simples os anjos. Ora, os anjos subsistem apenas como espíritos, não têm matéria. São formados com apenas um elemento, o elemento imaterial, e todas as suas operações são independentes da matéria: anjos pensam, se comunicam, adoram a Deus. Mas os anjos não se reproduzem. A reprodução é algo próprio de seres compostos, porque são seres corporais, de matéria e forma, e a reprodução sempre envolve alguma função corporal. Por isso, para que existissem novos anjos, seria preciso que Deus os criasse diretamente; mas para que existam novos animais, há a reprodução biológica. 

De fato, o animal (à exceção do animal humano, como veremos nas próximas questões) não têm nenhuma operação que seja independente do corpo. Animais recebem estímulos do ambiente, que são capazes de perceber e aos quais reagem: cheiros, cores, movimentos, sons, etc. Animais se alimentam, defecam, se reproduzem, nascem, morrem, procuram abrigos – em alguns casos fazem abrigos – e só. À exceção do animal humano, não há, nos animais irracionais a criação de cultura, a liberdade perante a história, o pensamento criativo, a arte ou o culto a deuses. 

Portanto, se a estrutura e a operação dos animais não ultrapassa aquilo que depende apenas da interação da sua alma sensorial com a sua matéria, então não há operação capaz de superar a relação da alma com a matéria. Isto significa que, uma vez rompida a unidade entre a alma animal e a matéria, nada haveria, nessa alma, que pudesse permanecer sem a matéria, porque nada há nela que opere independentemente da matéria. Logo, a alma sensorial, a alma dos animais, não é um ser subsistente simples, como são os anjos.

Deste modo, a reprodução dos animais não é uma operação que ultrapasse o âmbito da natureza material. Assim como o fogo é capaz de produzir fogo, assim como um ser biológico é capaz de transformar o alimento que ingere em carne do seu próprio corpo, também um animal é capaz de produzir outro animal, dadas as condições necessárias: a reprodução assexuada, como a reprodução por bipartição e regeneração, ou mesmo a reprodução sexuada, que envolve a cópula e a troca de gametas. 

3. Encerrando por enquanto. 

Deste modo, Deus não precisa intervir no processo de reprodução animal. A própria natureza é capaz de levar a cabo a operação reprodutiva, pela geração de novos seres que têm uma vida em tudo semelhante à dos progenitores: uma vida cujas operações não ultrapassam a relação com a matéria. A resposta, então, à hipótese inicial, é a de que Deus não precisa infundir a vida em cada novo ser vivo gerado, porque o processo de reprodução natural é capaz de explicar cada aspecto da prole. 

Este debate tem grandes impactos na ideia de dignidade animal: de fato, se há algo na vida animal não inteligente que demanda a intervenção direta de Deus para ser criada, significa que essa mesma vida é dotada de uma individualização e de um valor que ultrapassa todo o resto da criação, porque a natureza, por si mesma, sem intervenção divina, não seria capaz de produzir. Em suma, se é Deus quem infunde a vida em cada animal irracional que é gerado neste mundo, então apenas Deus tem disposição sobre todas estas vidas, de tal modo que sacrificá-las para alimentação, ou mesmo para a segurança humana, ou até para o seu aproveitamento econômico de qualquer modo, seria algo imoral, pecaminoso. Seria a destruição de uma obra direta, individual e particular de Deus. Mas as coisas não são assim, como vimos. E veremos mais quando estudarmos a geração humana e a peculiaridade da alma espiritual.

No próximo texto, munidos dos princípios aqui estabelecidos, estudaremos as respostas de Tomás aos quatro argumentos objetores iniciais.