- Retomando.
Tratamos, neste debate, de pretensos fenômenos que decorreriam de um suposto poder que teriam as almas dos que já morreram sobre as coisas materiais do nosso mundo. Será que as almas separadas dos que já morreram teriam o poder de mover as coisas materiais do nosso mundo? Esta foi a hipótese controvertida proposta no texto anterior, para iniciar o debate. Vimos dois argumentos que tentavam comprovar essa hipótese. O primeiro argumento equiparava a alma dos mortos aos anjos, que podem atuar sobre as coisas físicas de nosso mundo, e concluía que a alma dos mortos também teria este poder. O segundo argumento citava a literatura cristã antiga (Itinerário de Clemente) que menciona Simão Mago, figura bíblica, e atribui seu poder ao fato de que ele teria assassinado um menino e mantinha a alma dele cativa para que realizasse prodígios em seu favor. O argumento contrário, no entanto, citava Aristóteles, que na obra Sobre a Alma nos ensina que a alma humana só pode mover o próprio corpo ao qual está unida; ora, uma vez que a morte é exatamente o rompimento da unidade entre corpo e alma, esta já não teria poder sobre nenhuma coisa material.
Estudemos agora a resposta sintetizadora de Tomás, bem como suas respostas aos argumentos objetores iniciais.
- A resposta sintetizadora de Tomás.
Tomás nos ensina com energia que é impossível que uma alma separada do corpo – isto é, a alma de alguém que já morreu – venha a provocar, por suas próprias capacidades, o fenômeno de mover coisas corporais em nosso mundo.
De fato, diz Tomás, a alma e o corpo não são duas coisas; são elementos de uma única e mesma coisa, pelo que é natural que o nosso corpo esteja integrado com a nossa alma e, portanto, que a alma seja capaz de mover o corpo. Chamamos de “alma” aquela ordem estrutural que faz com que o corpo seja um corpo humano, que seja capaz de operações espirituais e físicas; ou seja, a alma é propriamente aquilo que faz com que o ser humano seja um ser vivo, atuante e pensante. Morto o ser humano, já não há, ali, propriamente um corpo, mas apenas o despojo daquilo que mantém a aparência de corpo mas já não tem o centro de unidade que o faz ser vivo e operar – a alma. Sabemos que a alma sobrevive à morte porque suas operações espirituais não dependem da matéria da qual se separou; mas ela já não é propriamente uma pessoa, uma “substância”, senão a sobrevivência do centro de unidade da identidade a partir de sua relação com Deus e com os anjos. A alma, nessa situação de separação, já não está integrada com o corpo, e portanto já não o pode mover. Como sabemos pelo simples fato de que o cadáver é inerte, passivo, inativo. Ora, se a alma separada já não vivifica o próprio corpo, com o qual formava uma unidade substancial, com muito mais razão podemos garantir que já não pode mover, vivificar, movimentar, nenhum outro corpo, ou seja, nenhuma coisa material em nosso mundo. Salvo, é claro, por alguma concessão divina miraculosa… mas nesse caso poderíamos dizer que não se trata, a rigor, de um movimento causado pela própria alma, mas pela graça divina nela, por especial concessão e por alguma razão santa e especialíssima. Pode-se, pois, dizer, que não há fenômeno puramente natural de ação de almas de pessoas falecidas em nosso mundo.
3. Os argumentos objetores iniciais e as respostas de Tomás.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento propõe que a alma separada também é uma substância espiritual, similar aos anjos. Por isso, para o argumento, ela teria naturalmente poder próprio capaz de mover coisas materiais em nosso mundo, mesmo depois de separada de seu corpo pela morte, porque os anjos têm tal poder, diz apressadamente este argumento.
A resposta de Tomás.
Não podemos confundir a sobrevivência do elemento espiritual do ser humano após a morte, por um lado, com os anjos, por outro. Os anjos são, por sua própria constituição, seres puramente espirituais – verdadeiras mentes que existem porque são capazes de pensar em si mesmos e subsistem como pensamentos pessoais que se pensam independentemente da matéria. Ora, o pensamento é, por si mesmo, mais poderoso do que a matéria, de tal modo que uma substância inteiramente espiritual será naturalmente mais poderosa do que as coisas materiais, especialmente aquelas desprovidas de vida e de inteligência. E, uma vez que tais substâncias são integralmente vivas por seu próprio poder, elas têm o poder de mover os seres materiais, deslocando-os de lugar.
Mas a alma humana separada é apenas o elemento sobrevivente de um ser que já morreu, isto é, já não guarda sua integridade substancial. Uma vez que, quando vivia e tinha a unidade substancial com o corpo, a alma espiritual humana tinha apenas o poder de mover seu próprio corpo – justamente em razão de formar, com ele, uma só coisa – é lógico que, depois de morta, perdendo sua inteireza substancial, não terá mais o poder de mover nada material. Tomás vai citar, em testemunho da verdade disso que sustenta, o ensinamento de Aristóteles – que entendia os anjos como a personificação daquelas forças que moviam o universo físico – de que os anjos que movem corpos menores, como um único planeta, não são capazes de mover coisas maiores como uma galáxia. Assim, a alma que, unida ao corpo, tinha apenas o poder de vivificá-lo, não pode, depois de separada dele, mover nada.
Lembramos que o primeiro argumento citava São Clemente, que descrevia um diálogo entre
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento cita a obra Itinerário de Clemente, na qual Nicetas diz a São Pedro que o poder de Simão Mago (citado no livro dos Atos dos Apóstolos 8, 9-24) decorre de que Simão matara um menino e retém a alma dessa criança morta junto a si, de modo a realizar prodígios por meio dele. Ora, diz o argumento de modo forçado, isso não seria possível se as almas dos mortos não pudessem interagir com o mundo material.
A resposta de Tomás.
A Igreja sempre ensinou – e este é o testemunho, por exemplo, de Santo Agostinho e de São João Crisóstomo – que os demônios podem realizar prodígios no mundo material, e que muitas vezes atribuem falsamente esses prodígios a pessoas que já morreram, com o fito de enganar pessoas crédulas. de modo que muitos fenômenos que determinadas religiões atribuem à ação dos mortos podem ser, na verdade, simplesmente a ação demoníaca iludindo as pessoas – como pode ser o caso quanto a Simão Mago.
4. Concluindo.
Não, as almas das pessoas que já morreram, embora sobrevivam à morte, já não são capazes de influir sobre o mundo material. Embora possamos admitir que Deus possa, miraculosamente, permitir uma interação absolutamente excepcional, os casos em que supostamente há fenômenos atribuídos à alma de pessoas que já morreram devem ser falsos e ilusórios, ou simplesmente o resultado de ação demoníaca.
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