- Introdução.
O debate, aqui, diz respeito a pretensos fenômenos de manifestação de almas mortas em nosso mundo. Será que elas podem provocar fenômenos por aqui, como mexer coisas, atirar pedras, escrever mensagens e coisas assim? Será que, mesmo depois de mortos, continuamos em relação com este mundo apenas pelas forças naturais de nossa alma, isto é, existe uma possibilidade natural de que os mortos produzam efeitos físicos em nosso mundo? Serão reais esses fenômenos, e podem ser realmente atribuídos a uma certa capacidade que as pessoas que já morreram conservam, de alterar o nosso mundo? Vamos ao debate.
- A hipótese polêmica inicial.
Para iniciar o debate, o artigo nos provoca, propondo como hipótese inicial que os seres humanos, mesmo depois de mortos, continuam com poderes espirituais que têm a capacidade de alterar e mover coisas em nosso mundo, por seu próprio poder e iniciativa. Ou seja, supostos fenômenos “espirituais”, segundo essa hipótese, podem ser naturalmente atribuídos a almas de pessoas que já morreram, porque as almas humanas, mesmo depois de mortas, podem continuar a mover coisas em nosso mundo. Há dois argumentos objetores que tentarão comprovar essa hipótese.
- Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor nos recorda que na questão 110, artigo 3, já ficou estabelecido que as substâncias espirituais (como os anjos) podem provocar deslocamentos de coisas materiais em nosso mundo apenas por seu poder natural, porque as coisas materiais obedecem ao poder espiritual delas. Ora, diz o argumento, a alma separada também é uma substância espiritual. Assim, tem poder próprio capaz de mover coisas materiais em nosso mundo, mesmo depois de separada de seu corpo pela morte, diz apressadamente este argumento.
O segundo argumento objetor.
Na antiga obra sobre São Pedro atribuída a Clemente (Itinerário de Clemente) narra-se uma conversa de Nicetas a São Pedro na qual se diz que Simão Mago (citado em Atos 8, 9-24) conservava sob seu poder a alma de um menino que ele sacrificar, matando-o, e que essa alma realizava prodígios mágicos para Simão. Mas esses prodígios não poderiam acontecer se as almas dos mortos não tivessem ao menos o poder de movimentar as coisas materiais, acrescenta o argumento. Logo, partindo dessa afirmação forçada sobre um texto pouco confiável, o argumento conclui de modo ilógico que as almas dos mortos podem provocar o movimento de coisas corporais.
- O argumento sed contra.
Sabemos que, depois de apresentar a hipótese provocadora e os argumentos que tentam defendê-la, o artigo sempre nos apresenta um argumento contrário à hipótese, normalmente tirada de alguma fonte com autoridade, para mostrar que não podemos simplesmente aceitar a hipótese inicial como verdadeira.
No presente debate, o argumento inicial é de Aristóteles, que na sua obra Sobre a Alma nos diz que a alma humana não pode mover nenhum corpo, a não ser o seu próprio. Ora, se é assim, nenhuma alma humana pode, depois de morta, provocar algum movimento de coisas materiais em nosso mundo, conclui o argumento contrário.
- Encerrando por enquanto.
Há algum tempo escrevi um livro sobre a diferença entre a fé cristã, por um lado, e as crenças que envolvem necromancia, mediunidade e recurso aos mortos, por outro. O nome do livro é “Cartas a Probo” (Ed. Comdeus) e trata exatamente de como é fácil enganar-se quanto a fenômenos “espirituais”, e como a nossa razão e a nossa fé cristã deve lidar com eles. Este artigo nos ajuda quanto às mesmas dificuldades.
Concluiremos este debate no próximo texto.
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