- Retomando para concluir.
Concluímos o último texto com a noção da seriedade da relação corpo/alma para que possamos transformar o mundo. De fato, não há maneira de interagir com o mundo senão com nosso corpo, sempre atentos ao fato de que corpo e alma não são duas “coisas” separadas que estão acidentalmente unidas em nós, mas são elementos da unidade que somos. Isto é, enquanto estamos vivos neste mundo a separação entre corpo e alma é apenas um exercício de imaginação. Não há dúvida, dissemos ali, de que a alma humana concebe mentalmente as modificações que deseja realizar no mundo, e não há dúvida de que a mente humana é um elemento transformador poderoso, com relação ao universo criado. Mas nenhuma modificação do mundo pode ser feita sem algum tipo de interação corporal com as coisas. Isto se chama trabalho, o trabalho humano que colabora com o aperfeiçoamento da criação (ou, devido ao pecado, com a sua destruição). Dizíamos que decorre daí a seriedade da morte, que rompe toda relação corporal do indivíduo com o mundo.
Munidos desses princípios, passemos a revisitar os argumentos objetores iniciais, que, como sabemos, tentavam justamente comprovar a hipótese, que agora sabemos que é errônea, de que os seres humanos podem modificar o mundo apenas com o poder da mente. Vejamos os argumentos e as respostas de Tomás a eles.
- Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor lembra uma velha homilia de São Gregório, no qual o antigo Papa nos afirma que os milagres são realizados pelos santos, às vezes, por sua oração a Deus, como no episódio em que São Pedro ressuscitou a pequena Tabita (Atos 9, 36-43), mas às vezes pelo poder de sua própria mente, como no episódio em que o mesmo São Pedro amaldiçoou Ananias e Safira (Atos 5, 1-10). Ora, todo milagre implica alguma modificação no mundo material. Deste modo, os seres humanos podem, pelo poder de sua mente, provocar mudanças no mundo material, conclui apressadamente o argumento.
A resposta de Tomás.
Todos os milagres realizados pelos santos ocorrem pelo poder da graça de Deus, da qual eles são apenas intercessores. No trecho seguinte de seu ensinamento, o próprio São Gregório nos diz que “aqueles que são filhos pelo poder de Deus, como diz João [João 1, 12], não é de se espantar que façam milagres por esse mesmo poder”. Assim, é pelo poder de Deus, e não por qualquer poder mental puramente espiritual, que esses milagres ocorrem, responde Tomás.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento também parte de uma passagem bíblica. De fato, São Paulo, em Gálatas 3, 1, diz: “Ó insensatos gálatas! Quem vos fascinou a vós, ante cujos olhos foi apresentada a imagem de Jesus Cristo crucificado?”. A glosa interlinear, que é o antigo comentário bíblico e muito respeitado, diz que “alguns têm olhos flamejantes, capazes de enfeitiçar os outros com um simples olhar – especialmente as crianças”. Ora, isto não seria possível se a mente humana não tivesse poder sobre a matéria, inclusive de outros seres. Assim, conclui imprudentemente o argumento, a alma humana possui a capacidade de modificar as coisas do mundo material apenas pelos poderes mentais, diz.
A resposta de Tomás.
Essa questão do “olhar maligno”, ou “olho gordo”, ou “olhar que seca” foi objeto da preocupação de muitos autores antigos. De fato, em sua resposta, Tomás nos lembra que foi Avicena, pensador árabe, que afirmou que os seres corporais têm uma tendência maior a obedecer a substâncias espirituais do que a forças naturais contrárias. Isso porque, no tempo de Tomás e no tempo de Avicena, havia a forte crença de que as grandes forças que dinamizam o universo (aquilo que hoje chamamos de “leis da física”, como a gravitação e as forças eletromagnéticas) na verdade resultam da ação ordenada dos anjos sobre o universo material. Assim, avicena diz que essa tendência que o universo material tem de obedecer a substâncias puramente espirituais (os anjos) explicaria o poder que a mente humana (que é espiritual) tem sobre os seres corporais (inclusive o fenômeno do “olho gordo”, que, segundo se acreditava, seria capaz de provocar até a morte de crianças, animais e plantas apenas pelo olhar mal-intencionado de pessoas maliciosas).
Ocorre que apenas Deus tem a capacidade de provocar transformações no universo físico apenas pela força da sua vontade, como já debatemos no texto anterior. No entanto, diz Tomás, há pessoas que desenvolvem a capacidade de influenciar sobre outras pessoas de vontade mais fraca, pelo poder da sugestão e até mesmo com um simples olhar. Hoje em dia, conhecemos bem – e está estudado cientificamente – o fenômeno do hipnotismo, pelo qual certos profissionais bem instruídos nessas técnicas são capazes de submeter pessoas sugestionáveis. No tempo de Tomás (e o próprio Tomás menciona em sua resposta) isso era atribuído à bruxaria e até à colaboração com certos demônios – ou a certos poderes femininos, como a capacidade – descrita por Aristóteles – de que mulheres menstruadas pudessem manchar um espelho apenas olhando-o (que hoje sabemos absurda e falsa). Mas este é um daqueles casos em que os princípios de Tomás se mostram até mais sólidos do que as exceções que ele foi obrigado a fazer em razão da desinformação e dos preconceitos de seu tempo.
Em todo caso, e descontando as influências machistas e preconceituosas, devemos admitir que até mesmo a capacidade de hipnotizar com o olhar demanda algum tipo de contato visual, ou seja, envolve a capacidade de contato físico, ainda que remoto, pelos olhos (ou até pelos ouvidos, como em certos hipnotismos por conversa sugestiva ou por frequências musicais), o que exclui a ideia de que a alma humana teria o poder de alterar outros seres apenas com a mente, sem qualquer intermediação física. Há sempre alguma intermediação corpórea, mesmo no caso da hipnose, concluímos com Tomás.
O terceiro argumento objetor.
Sabemos que a constituição física humana é a coisa mais nobre, mais delicada e mais elevada do universo. Ora, sabemos que a mente humana exerce tal poder sobre o próprio corpo que, algumas vezes, o simples fato de pensar em algo belo ou em algo terrível pode levar o corpo a ter reações físicas involuntárias como tremores, frios, calores ou arrepios, o que demonstra que, se a mente pode modificar diretamente aquilo que é o mais nobre dentre as coisas materiais (o próprio corpo), por consequência ela poderia, apenas pelo poder espiritual do pensamento, influir sobre qualquer criatura corporal, conclui levianamente o argumento.
A resposta de Tomás.
O corpo e a alma do mesmo indivíduo não são duas coisas diferentes, mas dois elementos de uma única substância, o ser humano. Deste modo, o pensamento formado na alma de alguém tem relação com a sua alma espiritual, mas também está ligado aos seus sentidos, aos seus afetos e às suas estruturas corporais. Deste modo, a mente de alguém pode causar diretamente modificações voluntárias e involuntárias nas estruturas materiais de seu próprio corpo, porque não são duas coisas separadas, mas uma coisa só com duas dimensões – a espiritual e a material.
Mas isto não significa que a mente de alguém possa, diretamente, causar transformações em outras substâncias corporais sem que estabeleça, com ela, qualquer tipo de relação que envolva a troca de informações por algum meio físico. Não existe a possibilidade de que a mente de alguém provoque alterações em outra pessoa ou em outra coisa material sem que tenham algum tipo de contato material.
- Conclusões.
Havia um padre jesuíta muito inteligente e popular, o Padre Quevedo. Ele se tornou célebre desmascarando pretensos magos e feiticeiros, ou alegados poderes sobrenaturais de médiuns e curandeiros. valia-se apenas dos princípios do senso comum e, creio, dos bons ensinamentos tomistas (que são, em grande medida e corrigidos os anacronismos, a visão da Igreja sobre este assunto) sobre os verdadeiros poderes da mente humana. Foi o que estudamos neste artigo.
No próximo, mais um tema interessantíssimo: debateremos se as almas dos mortos podem realizar alterações em nosso mundo.
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