- Retomando.
Vimos, no texto passado, a proposição de um debate muito interessante, que tem a ver com a interação entre a mente e a matéria. Problema muito contemporâneo, colocado hoje no campo da chamada “Filosofia da mente”, e muito influenciada pelo dualismo cartesiano – que, de algum modo, aprofunda o dualismo platônico e coloca a mente e a matéria em dois reinos completamente diferentes um do outro. Como pode ser que a alma, uma realidade espiritual, possa agir diretamente sobre a matéria corporal, quer a do próprio corpo, quer sobre aquela das outras coisas materiais?
Vimos, então, a hipótese de que temos, em nossa alma espiritual, a capacidade mental de alterar diretamente a matéria das coisas corporais existentes no mundo. Vimos três argumentos que tentavam comprovar esta hipótese, desde o argumento bíblico de que, algumas vezes (como no episódio da morte de Ananias e Safira por uma maldição de Pedro) há um resultado direto, como que miraculoso, da própria vontade humana sobre outros seres materiais. Vimos, também, a ideia de que o comentário de São Paulo em Gálatas 3, 1, poderia representar a comprovação de um poder mágico que certas pessoas exercem, por sua virtude mental, sobre crianças e pessoas mais fracas, e, por fim, o argumento de que muitas vezes conseguimos alterar nosso corpo apenas com nosso pensamento, como naquelas ocasiões em que o simples pensamento de coisas assustadoras leva nosso corpo a reagir com calores ou arrepios – o que poderia ser um indício de que nossa mente pode alterar não somente nosso corpo, mas também a matéria de outros seres corporais, apenas por seu poder espiritual. Por fim, o argumento sed contra recusa-se a aceitar a hipótese inicial com base no argumento agostiniano de que apenas Deus tem poder de modificar, apenas com sua vontade, a matéria de todos os seres corporais do universo.
Colocados os termos do debate, examinamos agora a resposta sintetizadora de Tomás.
- A resposta sintetizadora de Tomás.
Tomás vai nos lembrar que nada pode transformar a realidade material sem estar inserida nela de algum modo. O jogo da causalidade material envolve sempre uma coisa (que, como sabemos, é sempre composta de matéria e forma) que se relaciona fisicamente com outra coisa. Deste modo, por exemplo, para crescer, uma semente depende de luz, nutrientes e água. Ela não pode crescer apenas pela força de vontade do fazendeiro. Nem um anjo (ou um demônio) é capaz de fazer crescer plantas apenas por seu poder espiritual, como já vimos na discussão da questão 110, artigo 2, aqui, aqui e aqui. Portanto, somente agindo materialmente é que podemos provocar modificações em outros seres materiais.
Fora, portanto, das relações materiais, apenas Deus pode conduzir as coisas materiais, transformando-as pelo puro poder de sua vontade. Isto ocorre porque ele é a causa da matéria que dá existência individual e concreta às coisas, e das formas, que as especificam como sendo isto e não aquilo. Tudo tem, nele, sua causa primeira, e portanto ele é a fonte primeira e tem o poder final de transformar o mundo material como quiser.
O mesmo se pode dizer da nossa alma espiritual. Não temos o poder de modificar o mundo apenas com a nossa mente, senão por meio de nossas relações materiais com o mundo. Se a nossa mente é a fonte de tais transformações, sem nosso corpo não podemos realizar efetivamente essa transformação que pensamos (imaginemos aqui, por exemplo, um escultor que concebe a estátua em sua mente antes de esculpi-la, com suas mãos e ferramentas, num grande bloco de pedra).
Assim, a alma humana não pode transformar o mundo senão por meio de sua relação corporal com ele, conclui Tomás.
- Encerrando por enquanto.
Não há dúvida, como foi dito, de que a alma humana concebe mentalmente as modificações que deseja realizar no mundo. Não há dúvida de que a mente humana é um elemento transformador poderoso, com relação ao universo criado. Isto se chama trabalho, o trabalho humano que colabora com o aperfeiçoamento da criação (ou, devido ao pecado, com a sua destruição). Mas todo trabalho, por mais intelectual que seja, sempre envolve alguma atividade corporal. Mesmo o mais intelectual dos desenvolvedores de conteúdo virtual na internet ainda precisa de algum tipo de expressão corporal para realizar seu trabalho. Daí a seriedade da morte, que rompe toda relação corporal do indivíduo com o mundo. Portanto, a resposta ao problema deste artigos seria: de fato, a mente humana, atributo próprio de sua alma espiritual, é a fonte de toda transformação que um ser humano faz no mundo; mas somente pode realizá-la por meio de seu corpo.
No próximo texto, examinaremos, com Tomás, os argumentos objetores iniciais, a partir dos princípios aqui estabelecidos.
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