- Introdução.
Eis um artigo da Suma que demonstra o quanto as superstições sobre magia e poderes paranormais estavam difundidos no tempo de Tomás – e o quanto, digo eu, estão difundidos em nosso tempo. Mas a posição de Tomás é perfeitamente racional e correta, e deve ser lida com muito cuidado pelas pessoas de nosso próprio tempo, tão facilmente dadas a acreditar em poderes paranormais que envolvem uma suposta capacidade da mente humana de agir sobre coisas materiais. Assim, vemos curandeiros e supostos “médiuns” ganharem prestígio e os meios de comunicação, em razão de pretensos poderes paranormais de cura e de alteração da matéria – não é difícil encontrar muitos exemplos em nosso tempo. Recordemos que até bem pouco tempo a cidade de Anápolis, em Goiás, era um centro mundial de peregrinação em razão de um certo curandeiro que, recentemente, foi preso por cometer crimes sexuais e abusos contra seus “pacientes”. Estabelecer, pois, os efetivos limites do poder da mente, do poder espiritual do ser humano, sobre as coisas materiais, isto é, sobre as substâncias corpóreas, interessa muito, especialmente no campo religioso, para corretamente diferenciar entre a verdadeira fé e a crendice tola. Lembrando que a crendice é algo que depõe contra a fé.
Examinemos, então, este belo artigo da Suma, tão necessário ainda em nossos dias.
- A hipótese controvertida inicial.
A hipótese que o artigo propõe, logo no início do debate, para estimular o diálogo e fazer aprofundar a questão, é a ideia de que a alma humana dispõe de poderes naturais para alterar, apenas pelo poder da mente, pelo poder do pensamento, a matéria corporal de outras coisas que não apenas seu próprio corpo. Seja de maneira habitual, seja de modo excepcional (ou seja, apenas de alguns iluminados ou especialmente dotados de capacidades paranormais), estaria no campo do poder natural do ser humano o de agir sobre coisas materiais apenas pelo poder da mente. Há três argumentos iniciais que tentam comprovar esta hipótese, e um que se recusa a aceitá-la. Vamos examiná-los.
- Os argumentos objetores iniciais
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento examina a ideia de que há registros históricos muito precisos e confiáveis, inclusive na Bíblia – mas não somente nela, de que seres humanos operaram milagres. E cita São Gregório Magno, que, numa de suas homilias, faz uma análise desses milagres, dizendo que os santos, às vezes, fazem milagres pela oração, como naquele caso em que São Pedro ressuscitou a jovem Tabita (Atos 9, 39-41) ou por seu próprio poder, como naquele caso em que o próprio Pedro entregou à morte Ananias e Safira, pelas mentiras deles (Atos 5, 1-11). Ocorre que, em todos os milagres, existe, de fato, algum tipo de alteração física na matéria corporal de algum ente. Logo, os seres humanos podem ser meros intermediários do poder de Deus, nos milagres, mas também podem, eventualmente e de modo extraordinário, provocar alterações miraculosas na matéria corporal pelo poder de sua própria mente, conclui apressadamente este argumento.
O segundo argumento objetor.
Sabemos que, durante a Idade Média e mesmo depois, havia um comentário da Bíblia que tinha muito prestígio entre os estudiosos: a chamada “Glosa Interlinear”, anotações que procuravam explicar o sentido dos versículos.
Com relação ao assunto que está agora em debate, o argumento destaca a passagem de Gálatas 3, 1 (Ó insensatos gálatas! Quem vos fascinou a vós, ante cujos olhos foi apresentada a imagem de Jesus Cristo crucificado?). Esta passagem era utilizada, e ainda é, para fundamentar biblicamente certa “capacidade hipnótica” que determinadas pessoas exercem sobre a mente de pessoas mais fracas mentalmente. De fato, comentando esta passagem, a Glosa Interlinear diz que algumas pessoas possuem olhos flamejantes, que seriam capazes de enfeitiçar as pessoas com um único olhar – especialmente as crianças. A partir deste comentário, e valendo-se da autoridade da Glosa na Idade Média, o argumento afirma que tal poder não existiria se a alma humana não pudesse agir sobre a matéria das coisas corporais; logo, a alma humana tem poder direto sobre as coisas materiais, afirma exageradamente este segundo argumento.
O terceiro argumento objetor.
Dentre todas as coisas corporais, o ser humano é, sem dúvida, a mais perfeita. Dotado de corpo vivo, sensível e de alma intelectual e espiritual, o ser humano representa o ápice da criação. Ora, a alma humana é capaz de aprender e de perceber intelectualmente o mundo, de tal modo que, em razão das coisas que percebe e dos conhecimentos que tem, exerce tal influência sobre a matéria de seu corpo que pode sentir frio ou calor apenas pela percepção de que o frio e o calor estarão presentes em determinada situação. Sua capacidade de influenciar o corpo é tão grande que pode gerar situações de intenso prazer corporal ou até mesmo de ansiedade tão forte a ponto de causar a própria morte. Ora, se a alma tem, evidentemente, tal poder sobre a matéria de seu próprio corpo, isso se dá porque a alma é capaz de agir diretamente sobre a matéria das coisas corporais em geral, conclui apressadamente o argumento.
- O argumento sed contra.
O argumento sed contra, isto é, aquele argumento que mostra a impossibilidade de aceitar sem restrições a hipótese inicial, por alguma razão de peso trazida por alguma autoridade respeitável, traz, no presente caso, o ensinamento de Santo Agostinho, que no Tratado sobre a Trindade (III, 8), ensina que a única vontade capaz de comandar a matéria apenas por força de seu poder é Deus mesmo. Assim, nem a alma humana, nem mesmo os anjos, são capazes de submeter incondicionalmente as coisas materiais à sua vontade, mas apenas Deus o pode, conclui o argumento.
- Encerrando por enquanto.
Este problema da relação entre a mente espiritual humana e a matéria, seja de seu próprio corpo, seja dos outros seres materiais, tem sido um grande problema filosófico desde sempre, e deu origem a diversas filosofias dualistas, em que essa relação é muito problemática. Cito o platonismo, que afirma a bondade das realidades espirituais como as ideias e os espíritos, mas nega a bondade da matéria; ou o cartesianismo, profundamente dualista, já que Descartes nunca conseguiu resolver adequadamente a relação entre a alma, que é, para ele, puro pensamento, e o corpo, pura extensão. Essa visão dualista prossegue em nossos dias, quer no materialismo crasso dos ateístas, quer nos espiritualismos gnósticos e panteístas.
No próximo texto examinaremos a resposta sintetizadora de Tomás.
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