- Retomando para concluir.
No último texto, descobrimos que a única coisa que podemos “ensinar” aos anjos é aquilo que é próprio do ser humano: aquilo que guardamos em nossos corações a partir da nossa própria caminhada, iluminada pela história da salvação, já que ninguém, nem mesmo os anjos, mas somente nós mesmos e Deus, tem acesso à nossa consciência, aos nossos pensamentos, à elaboração íntima que fazemos em nossos corações quanto àquilo que vivemos concretamente e que experimentamos na nossa caminhada histórica. Ou seja, podemos manifestar a eles o que significa ser um ente inteligente e espiritual vivendo uma vida encarnada e caminhando na história. Nada mais poderíamos ensinar aos anjos. Eles sabem mais do que nós sobre a vontade de Deus e sobre tudo o que há para conhecer, intelectualmente, a respeito da criação.
A partir dessa noção, vamos reexaminar os argumentos objetores iniciais, estudando a resposta que Tomás apresenta a cada um deles.
- Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.
O primeiro argumento objetor.
Como nos lembramos, a hipótese inicial, agora devidamente refutada, era a de que os seres humanos poderiam atingir tal grau de conhecimento que poderiam vir a tornar-se até mestres dos próprios anjos. Os três argumentos objetores iniciais tentam comprovar essa hipótese equivocada por meio de raciocínios equivocados.
O primeiro argumento objetor lembra que São Paulo, na Carta aos Efésios (3, 10), nos ensina: “Assim, de ora em diante, as dominações e as potestades celestes podem conhecer, pela Igreja, a infinita diversidade da sabedoria divina”. Ora, uma vez que a Igreja é a reunião dos fiéis humanos em torno de Jesus, isto significa, diz o argumento, que os seres humanos, na Igreja, tornam-se professores dos próprios anjos, conclui apressadamente o argumento.
A resposta de Tomás.
Segundo Santo Agostinho (diz Tomás), São Paulo, no versículo anterior a este (Efésios 3, 8-9), diz: “a mim, o mais insignificante dentre todos os santos, coube-me a graça de anunciar entre os pagãos a inexplorável riqueza de Cristo, e a todos manifestar o desígnio salvador de Deus, mistério oculto desde a eternidade em Deus, que tudo criou”. E, no versículo 10, ele diz: “assim, de ora em diante, as dominações e as potestades celestes podem conhecer, pela Igreja, a infinita diversidade da sabedoria divina”. Deste modo, diz Agostinho, este mistério não estava escondido aos santos anjos no céu, que desde o início da criação já constituíam a Igreja triunfante, quando optaram por Deus; mas essa mesma Igreja ainda não estava plenificada até a ressurreição de Jesus, quando os seres humanos, assim redimidos, se juntaram a ela, manifestando a plenitude e a diversidade da Igreja, que se constitui de santos Anjos e santos seres humanos. Por isso, ainda que o mistério da Igreja fosse conhecido de modo prévio pelos anjos, apenas com a ressurreição a Igreja se manifesta concretamente de modo pleno e plural, e este seria o sentido da passagem paulina.
Ou ainda poderíamos interpretar essa passagem como ensinando que, mesmo que os anjos soubessem, em Deus, que o mistério da Igreja iria ser pleno pela ressurreição de Jesus, eles não tinham como saber o modo pelo qual, concretamente, esse mistério iria ocorrer na Terra, dada a liberdade de figuras humanas como Pedro, os outros apóstolos e o próprio São Paulo; desse modo, apenas quando tudo isso – a encarnação, a vida pública, a morte e ressurreição de Jesus e a constituição histórica da Igreja com a admissão dos seres humanos – veio a acontecer é que os anjos souberam inteiramente sobre o mistério, ou seja, quando se revelou o modo histórico e contingente pelo qual, respeitada a liberdade humana envolvida, os fatos aconteceram entre nós. Deste modo, pode-se dizer, com certeza, que os anjos já conheciam previamente o mistério tal como revelado aos seus corações por Deus, mas certamente o apreenderam em sua inteireza apenas quando contemplaram a ação humana livre e contingente que resultou da redenção em Jesus. E assim, no fim das contas, os anjos têm algo a descobrir com o desenrolar da liberdade concreta dos seres humanos.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento objetor quer fazer um paralelo entre a hierarquia dos anjos e a hierarquia da Igreja, tal como se manifesta a nós, humanos. Ora, diz o argumento, os anjos mais elevados têm algo a ensinar aos inferiores porque, estando mais próximos de Deus, recebem dele a iluminação plena, que transmitem aos anjos inferiores, iluminando-os. Deste modo, é a proximidade de Deus e o recebimento da iluminação de modo imediato que faz com que os superiores possam iluminar os inferiores.
Ocorre que as Escrituras nos mostram que certos seres humanos, como os Apóstolos, receberam diretamente de Deus a Revelação em Jesus; isto está descrito em Hebreus 1, 2: “Nestes dias, que são os últimos, [Deus] nos falou através do Seu Filho”. Ora, se os Apóstolos foram diretamente iluminados por Deus por meio de seu Filho Jesus, então ao menos eles poderiam iluminar os anjos com o conhecimento que receberam assim, diz o argumento, apressadamente.
A resposta de Tomás.
Sim, é verdade que Deus nos falou diretamente em Jesus. Mas, pela encarnação, o verbo de Deus, que é Jesus, se fez homem, isto é, falou-nos com palavras humanas, que apenas no Espírito Santo podem ser compreendidas como Revelação divina. Mas os Santos Anjos de alta hierarquia contemplam Deus em si mesmo, sem a mediação da linguagem humana. Deste modo, não se pode dizer que algum ser humano recebeu alguma instrução mais direta e clara do que aquela que os anjos recebem, de modo que pudessem ensinar qualquer anjo sobre a própria vontade de Deus, diz Tomás. A objeção, portanto, não tem fundamento.
O terceiro argumento objetor.
Os anjos inferiores, diz o argumento, são instruídos pelos superiores. Ora, prossegue o argumento, sabemos que alguns santos serão elevados, pela graça, a uma altura maior do que a de muitos anjos, como ensina São Gregório numa homilia que proferiu. Cremos até mesmo que Maria Santíssima foi coroada como rainha de todos os anjos. Logo, ao menos alguns anjos podem ser instruídos por alguns seres humanos que se elevaram às alturas da santidade, diz o argumento.
A resposta de Tomás.
Sim, é verdade que alguns seres humanos podem desenvolver, pela graça, um grau de virtude tão alto que podem, na glória, alcançar uma visão beatífica maior do que a de muitos anjos. Mas esta grandeza, nesta vida, seria apenas como comparar a semente de uma grande árvore, antes de ser plantada, com a grandeza de uma pequena árvore já adulta. Deste modo, mantém-se a verdade de que os seres humanos apenas podem, nesta vida, manifestar aos anjos os segredos dos seus próprios corações, mas nunca os segredos de Deus – que os Santos Anjos penetram sempre mais profundamente que nós.
- Concluindo.
Não somos mestres dos anjos no conhecimento de Deus. Nunca o seremos. Mas podemos eventualmente surpreendê-los e até ensinar a eles quanto ao modo criativo pelo qual, inseridos neste mundo e vivendo com liberdade o amor de Deus, somos capazes de expressar a fé, a esperança e a caridade na prática de uma vida corporal, histórica, concreta.
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