- Retomando.
Poderíamos nós, humanos, ensinar alguma coisa aos anjos que eles já não soubessem, ou seja, poderíamos ser mestres dos anjos? A hipótese controvertida inicial quer estimular o debate afirmando que sim, que pelo menos alguns seres humanos poderiam ser verdadeiros mestres dos anjos e ensinar-lhes alguma coisa. Vimos, então, três argumentos que tentam comprovar essa hipótese, tanto por fontes bíblicas (Carta aos efésios 3, 10: a sabedoria de Deus se manifesta às Potestades e Soberanias celestes através da Igreja; Carta aos Hebreus; “Deus nos falou [a nós humanos] através do filho feito homem”, ensinando-nos diretamente coisas que poderiam ser por nós ensinadas aos anjos; e, por fim, a ideia de que julgaremos os anjos (1 Coríntios 6, 2-3), e que, portanto, ao menos os seres humanos que atingiram a santidade teriam a possibilidade de ensinar alguma coisa aos anjos. Em seguida, porém, o artigo apresenta um argumento sed contra, que se opõe à hipótese inicial a partir de um ensinamento do Pseudo-Dionísio, grande autoridade em matéria de anjos, que nos ensina que são os anjos que iluminam os seres humanos, e não o contrário.
Tudo isso nos confronta com várias perguntas com as quais terminamos o último texto: não haveria, então, nenhuma possibilidade de que os anjos (ou os demônios) possam aprender alguma coisa de nós? Será que eles sabem tudo o que sabemos? Será que não há segredos em nós, para eles? E, acrescentaríamos agora, será que a nossa capacidade de apreender o universo material com nossa sensibilidade corporal, vivendo existencialmente a história sob os limites do tempo e do lugar, ou seja, como inserido no universo, não seria uma forma de existir, de aprender, diferente da existência desencarnada e supra-histórica dos anjos?
Vamos examinar, munidos de tantos questionamentos, a própria resposta sintetizadora de Tomás.
- A resposta sintetizadora da Tomás.
Quando estudamos os anjos, nas questões 50 e seguintes desta primeira parte da Suma, vimos que há, entre eles, uma hierarquia de perfeição e capacidade. Isto os torna muito diferentes de nós, humanos, que temos exatamente a mesma perfeição e a mesma capacidade em nossa alma espiritual. Assim, dentre os anjos, são sempre os anjos naturalmente superiores que transmitem aos inferiores os conhecimentos sobre o que está no coração de Deus. Os inferiores podem transmitir conhecimentos aos superiores, mas apenas quanto àquilo que está em seu próprio coração, que lhes é particular. assim, quanto aos anjos, podemos efetivamente dizer que eles manifestam e ensinam aquilo que corresponde ao seu “lugar de fala”: os superiores têm “lugar de fala” para iluminar os inferiores quanto à vontade universal de Deus, e os inferiores têm “lugar de fala” para manifestar aos superiores aquilo que está em seu próprio coração, os segredos de sua mente, as vivências que experimentaram.
E quanto a nós, humanos?
Na hierarquia dos seres espirituais, estamos muito abaixo, em termos de capacidades e de conhecimento, até mesmo do mais ínfimo dos anjos. De modo que qualquer um dos Santos Anjos, mesmo o menor dentre eles, tem mais conhecimento de Deus e do mundo criado do que o mais elevado dentre os seres humanos vivos. Jesus parece aludir exatamente a isso quando ele diz, se referindo a João Batista, que ele é o maior dentre os nascidos de mulher, mas mesmo o menor no Reino dos Céus é maior do que ele (Mateus 11, 11).
Por isso, diz Tomás, não podemos imaginar que nenhum ser humano pudesse ensinar alguma coisa aos anjos quanto aos planos de Deus e quanto àquilo que é universal e abstrato em nosso universo. Nada do que é estritamente intelectual ou propriamente divino poderia ser ensinado por qualquer um de nós aos anjos. A pretensão humana de ter acesso a esse tipo de conhecimento, que pertence em primeiro lugar e de modo mais perfeito aos anjos, a ponto de poder tornar-se mestre até dos anjos, representaria algum tipo de gnosticismo, como denunciado tantas vezes pelo Papa Francisco e descrito na carta Placuit Deo da Congregação para a doutrina da Fé. Querer dominar o tipo de conhecimento que é próprio dos anjos, e imaginar que ele representa o próprio caminho de salvação para nós, é um erro terrível, porque nos desencaminha daquela via encarnada, experiencial, histórica, que é a única via real de salvação para nós. Deus se fez carne para que a nossa salvação se desse de modo encarnado. O modo desencarnado, abstrato, universal e imaterial de conhecimento que é característico dos anjos não é salvífico para nós, embora seja importante e riquíssimo. Precisamos, no entanto, ter humildade com o mundo estritamente intelectual – jamais poderíamos nos equiparar aos anjos. Nem o devemos.
Mas há algo que podemos manifestar aos anjos, e que é próprio do ser humano: aquilo que guardamos em nossos corações a partir da nossa própria caminhada, iluminada pela história da salvação, já que ninguém, nem mesmo os anjos, mas somente nós mesmos e Deus, tem acesso à nossa consciência, aos nossos pensamentos, à elaboração íntima que fazemos em nossos corações quanto àquilo que vivemos concretamente e que experimentamos na nossa caminhada histórica. Ou seja: quanto à caminhada concreta dos seres humanos neste mundo, tal como guardada em nossos corações, temos alguma coisa a ensinar até aos anjos. Mas, para isso, é necessário que autorizemos, que queiramos manifestar aos Santos Anjos esses segredos – o que é muito útil, inclusive e principalmente ao nosso anjo da guarda. Desse modo, podemos, de fato, colaborar e facilitar a sua missão de guardar-nos, se reservarmos, em algum momento, um instante para viver um diálogo íntimo com ele.
- Encerrando por enquanto.
O nosso coração representa o centro daquilo que verdadeiramente somos. “Neste mundo líquido, é necessário voltar a falar do coração; indicar onde cada pessoa, de qualquer classe e condição, faz a própria síntese; onde os seres concretos encontram a fonte e a raiz de todas as suas outras potências, convicções, paixões e escolhas”, diz o Papa Francisco na recente carta Dilexit Nos. Ora, para ser mestre dos próprios anjos quanto àquilo que está em nossos corações, precisamos ter a coragem de encarar nossa própria verdade, aquela “verdade íntima de cada pessoa está escondida debaixo de muita superficialidade, o que torna difícil o autoconhecimento e ainda mais difícil conhecer o outro”, lembra o Papa no mesmo documento. O caminho de santidade também é o caminho do autoconhecimento – e o autoconhecimento demanda, em primeiro lugar, intimidade com o Espírito Santo, que nos conhece mais do que nós mesmos nos conhecemos: ele é mais íntimo de mim do que eu mesmo, ensina santo Agostinho. Deste modo, a jornada de autoconhecimento não é um tipo de “jornada new age de meditação solitária”, mas uma relação de sinceridade com o espírito Santo, que só cresce com o crescimento da vida na graça.
No próximo texto estudaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
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