- Introdução.
Já sabemos que a mente humana nasce vazia de conteúdo e cheia de potencial e inclinação para aprender. O potencial para aprender era chamado, no tempo de Tomás, de “intelecto passivo”, algo que, em tempos posteriores, foi chamado de “folha em branco” da mente. A inclinação para aprender, a capacidade de investigar o mundo e assimilar a verdade ativamente foi chamada de “intelecto ativo”. Assim se dá o aperfeiçoamento paulatino e ininterrupto da mente humana, desde a concepção até a morte. Somos capazes de aprender – sempre com esforço – e somos capazes de ensinar, isto é, nosso intelecto se aperfeiçoa na relação com Deus, com o mundo e com os outros (esta última pode ser uma relação mestre-discípulo ou simplesmente uma relação de amizade com troca de informações).
Mas com os anjos não é assim. Uma vez que eles são, propriamente, mentes que existem porque conhecem a si mesmas inteiramente – e conhecem, com menor ou maior grau de perfeição, aquilo que está fora de sua mente mas entra em relação com ela – a rigor os anjos não podem adquirir novos conhecimentos abstratos, intelectuais, sobre o universo. A troca de informações entre anjos se dá por iluminação, ou seja, pelo contato que faz com que a mente de um anjo seja auxiliada pela mente de outro, mais elevado, a penetrar no conhecimento de modo mais profundo do que a sua capacidade individual permitiria. Há, aqui, um aperfeiçoamento sem esforço, por simples contato.
Tudo isso já debatemos em textos anteriores. A pergunta, agora, é: será que os seres humanos poderiam ensinar alguma coisa aos próprios anjos, cuja mente é tão diversa em natureza e tão superior à nossa? Vamos ao debate.
- A hipótese polêmica inicial
A hipótese polêmica inicial propõe que, de fato, os seres humanos podem ensinar aos próprios anjos. Ou seja, os anjos teriam a possibilidade de ter um ser humano como mestre intelectual, e aprender efetivamente dele, segundo esta hipótese, que, como sabemos, é proposta logo no início do debate para possibilitar o aprofundamento, mas não necessariamente é verdadeira, ou pelo menos não é integralmente verdadeira. Em seguida, o artigo apresenta três argumentos iniciais que querem comprovar esta hipótese e objetar qualquer tentativa de desmenti-la. Vamos examinar esses argumentos.
- Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor é um argumento bíblico. Ele resgata Efésios 3, 10, onde São Paulo nos assevera que “Assim, agora, manifesta-se, através da Igreja, às soberanias e potestades celestes, a multiforme sabedoria de Deus”. ora, diz o argumento, a Igreja, como sabemos, é a reunião dos fiéis, ou seja, dos seres humanos redimidos, sejam os já na glória, sejam os ainda padecentes ou os militantes nesta Terra. Assim, se o Apóstolo São Paulo nos assegura que a Igreja pode manifestar aos anjos (chamados, aqui, de Soberanias e Potestades celestes), então os anjos, de fato, aprendem alguma coisa dos seres humanos, conclui apressadamente o argumento.
O segundo argumento objetor.
Sabemos que o processo pelo qual o conhecimento elevadíssimo das coisas que saem diretamente do coração de Deus, quanto à hierarquia dos anjos, é recebido pelos mais elevados, que estão sentados muito perto de Deus, e estes iluminam os anjos inferiores, menos capazes de penetrar no conhecimento divino. Ora, houve alguns seres humanos que receberam conhecimento diretamente do coração de Deus, como atesta a Carta aos Hebreus, há seres humanos, como os Apóstolos, que receberam instrução diretamente de Jesus, Filho de Deus humanado. É o que ensina a Carta aos Hebreus 1, 2: “ Nestes dias, que são os últimos, [Deus] falou-nos por meio de seu filho”. Portanto, neste caso, pelo menos alguns seres humanos foram instruídos diretamente por Deus, e podem, portanto, instruir os anjos, como os anjos mais elevados podem instruir os inferiores, conclui, de modo um tanto imprudente, este argumento.
O terceiro argumento objetor.
Na hierarquia dos anjos, diz o argumento, os anjos superiores iluminam os inferiores, instruindo-os. Ora, São Paulo, na Carta aos Coríntios, lembra-nos que os seres humanos que gozam da santidade julgarão os anjos, e São Gregório, numa de suas homilias, diz que alguns santos serão elevados a ordens superiores a muitos dentre os anjos. logo, pelo menos os anjos inferiores poderiam ser instruídos pelos seres humanos que desfrutam da santidade na glória, conclui o argumento, apressadamente.
- O argumento sed contra.
O argumento objetor nos lembra que o próprio Pseudo-Dionísio, que sempre foi considerado uma das maiores autoridades em matéria de anjos, afirma que todas as iluminações divinas são trazidas aos seres humanos pelos anjos. Logo, são os seres humanos que são sempre instruídos pelos anjos, e nunca o contrário, diz, de modo um tanto inflexível, o argumento que se coloca em sentido contrário à hipótese polêmica inicial vista acima.
Mas, em contrário, diz Dionísio, que todas as iluminações divinas são trazidas aos homens, pelos anjos. Logo, estes não são instruídos por aqueles, sobre as causas divinas.
- encerrando por enquanto.
Sabemos que alguns seres humanos, tomados pela soberba, acreditam ter tal capacidade e inteligência que parecem ser capazes de dar aulas não somente aos anjos, mas ao próprio Deus. No entanto, sabemos que nosso intelecto é limitado, e que mesmo os anjos caídos no pecado são muito mais poderosos intelectualmente do que nós.
Não haveria, então, nenhuma possibilidade de que os anjos (ou os demônios) possam aprender alguma coisa de nós? Será que eles sabem tudo o que sabemos? Será que não há segredos em nós, para eles?
É o que veremos no próximo texto, examinando a resposta sintetizadora de Tomás.
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