1. Retomando para concluir.

Bela visão a de Tomás, quanto ao processo pedagógico, isto é, aquele processo pelo qual o mestre, tendo uma visão mais ampla e um método mais afinado do que o do aprendiz, é realmente capaz de levá-lo a caminhar, por seus próprios passos e em seu próprio ritmo, da potência, isto é, do saber imperfeito com capacidade de aprender, ao saber mais perfeito, em ato, processo que envolve o mestre como instância externa e a própria inteligência do aprendiz, com sua luz ativa, como instância interna. Assim, o processo de transmissão de conhecimento, na espécie humana, envolve a caridade e a confiança; ou seja, a necessidade de repartir o conhecimento pelo amor ao outro e a confiança recíproca entre aquele que aprende e aquele que ensina, que permite a caminhada comum. 

De posse dessas noções, que foram debatidas nos textos anteriores, passamos a examinar os argumentos objetores iniciais, que tentavam comprovar que nenhuma possibilidade de transmissão de conhecimentos entre seres humanos, do tipo que envolve mestre e aprendiz, seria possível, e as respostas que Tomás dá, a partir da sua própria visão do processo de ensino.

  1. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor parece muito contemporâneo a nós, já que parte de uma leitura fundamentalista da Bíblia – que não era estranha a Tomás, mas que ele já respondia de modo preciso em seu tempo. Segundo esse primeiro argumento, seria impossível que um ser humano ensinasse a outro, simplesmente porque, de acordo com a Bíblia (Mateus 23, 10), o próprio Jesus ensinava: “Não vos façais chamar de mestres”. Comentando este trecho, São Jerônimo dizia: “Ora, ser mestre é, propriamente, uma honra restrita a Deus”. Mas sabemos que é próprio do mestre ensinar. Logo, de acordo com a Bíblia (diz este argumento tão fundamentalista) um ser humano não pode ensinar outro, mas cabe somente a Deus fazê-lo, conclui.

A resposta de Tomás.

Como Tomás já nos ensinou na sua resposta sintetizadora, que estudamos nos dois textos anteriores, a atividade de ensinar, para nós humanos, é análoga à atividade do médico que trata o paciente para obter-lhe a cura: o fator primordial para a cura não é o médico, nem o medicamento, nem o protocolo de tratamento, mas a capacidade natural de cura que existe nos organismos vivos. De modo similar, o fator primordial para a aprendizagem é a luz do intelecto que existe no aprendiz. Isto não significa nem que o processo de ensino seja apenas um “fazer lembrar” que o mestre provoca no aprendiz (como pensam os platônicos e muitas pedagogias de nosso século XXI), nem que Deus seja o único capaz de iluminar as almas humanas diretamente, como pensam certos grupos de “iluminados” por aí. Na verdade, tanto o fator de cura nos organismos vivos quanto a luz pessoal que há em cada intelecto humano e que o torna capaz de aprender são, em última instância, dons de Deus para nós, criaturas; como o é, também, o fato de que o universo criado seja inteligível para nós, dotado de uma inteligibilidade própria e constitutiva que o próprio Deus inseriu nele (o universo criado é “lógico”, faz sentido, como nos lembra o Evangelho de João, 1, 1-3: tudo foi criado no logos e para o logos). Desse modo, tanto a inteligência humana quanto a inteligibilidade do mundo, bem como a capacidade de comunicação entre os seres humanos, tudo isso é pressuposto no processo de transmissão de conhecimento. Mas a atualização, quer dizer, a efetiva utilização e aperfeiçoamento desse processo pode acontecer na relação entre um ser humano mais experiente, mais instruído, que se coloca na posição do que ensina, e outro menos instruído, que se coloca na posição de querer aprender. Isso não nega a palavra bíblia citada: quem ensina só pode ser chamado de “mestre” num sentido derivado, analógico, porque a fonte e a forma de seu ensinamento estão propriamente em Deus. Também o médico só “cura” em sentido analógico, derivado, já que o salmo 103(102), 3, ensina que é o Senhor que “cura toda doença”, sendo o único verdadeiro médico em sentido próprio. Quanto ao ensino, o salmo 94(93) nos ensina que o Senhor “ensina ao homem o saber”, quando “levanta sobre nós a luz de Sua face” (salmo 4, 7). O fato de que Deus é o único médico e o único mestre em sentido próprio não exclui o fato de que seres humanos possam agir como causas coadjuvantes, externas, no processo de cura e de aprendizagem de outros seres humanos. 

O segundo argumento objetor.

Se um ser humano pudesse causar conhecimento em outro, então o conhecimento seria uma qualidade ativa no mestre, capaz de provocar o conhecimento no outro como um sujeito passivo, assim como o fogo daquilo que está em chamas é capaz de provocar fogo numa outra coisa que se coloque ao seu alcance. Mas o conhecimento não é uma qualidade ativa desse tipo, porque nenhum ser humano pode ser, propriamente, a fonte do próprio conhecimento e sua causa primeira, de modo a transmiti-lo por mero contato a outro. Assim, conclui o argumento, não é possível que um ser humano ensine outro. 

A resposta de Tomás

Até mesmo Averróis, diz Tomás,percebeu que nenhum ser humano é dono do conhecimento de modo pessoal e exclusivo, mas apenas participa de um conhecimento que está inscrito em favor de todos, por Deus, nas próprias coisas. Deste modo, o ensino não precisa ser um processo que envolve a transmissão de uma qualidade ativa no mestre a um discípulo que se apresenta como passivo e inerte. Na verdade, ensinar é apenas dirigir a mente do discípulo à fonte de conhecimento que não pertence ao mestre, mas que já se tornou evidente ao intelecto do mestre; e o mestre o faz conduzindo de modo ordenado a luz intelectual do próprio discípulo, com a participação ativa deste último, ao conhecimento que tem sua causa última em Deus. Deste modo, nem o mestre é dono do saber, nem o discípulo é um sujeito inerte, mas são, ambos, parte de uma relação que conduz ao conhecimento

O terceiro argumento objetor.

O terceiro objetor, de certo modo,segue em sentido oposto ao segundo. Se, no segundo argumento, o raciocínio é de que a transmissão de conhecimento implicaria que o mestre fosse puramente ativo e o aprendiz, inteiramente passivo, e o conhecimento se transmitisse como o fogo passa da tocha acesa à ainda apagada, este argumento quer afirmar que, uma vez que o processo de aprendizagem, no ser humano, depende inteiramente da luz intelectual presente em quem aprende e da inteligibilidade daquelas coisas que serão aprendidas, todo e qualquer conhecimento seria um processo estritamente individual, sem qualquer possibilidade de participação de outro ser humano na qualidade de mestre – todo aprendizado seria estritamente autodidata. Assim, conclui o argumento de modo radical, não haveria a possibilidade de que um ser humano pudesse ensinar outro. 

A resposta de Tomás.

É verdade, diz Tomás, que o mestre não é a causa de que o discípulo possua uma luz intelectual. Cada um de nós tem a sua própria luz intelectual, ou seja, sua capacidade pessoal de buscar o conhecimento e atingi-lo. Tampouco o mestre é a causa de que as coisas sejam inteligíveis, e não pode provocar diretamente a aprendizagem no aprendiz. Mas isto não significa que o mestre não possa, verdadeiramente, conduzir o discípulo a assimilar as formas inteligíveis, transmitindo a ele não somente o conhecimento, como também ajudando-o no próprio caminho metodológico de assimilação. É a essa condução que fazemos referência, quando falamos do processo pelo qual o mestre ensina algo ao aprendiz. 

O quarto argumento objetor.

A comunicação entre seres humanos sempre pressupõe que eles tenham sinais comuns pelos quais possam se entender reciprocamente. Ora, quando um professor diz alguma coisa ao aluno, trata-se de um mestre que está propondo sinais a um aprendiz. Tais sinais podem ser algo que o aprendiz sabe, ou algo que ele não sabe. Se forme sinais de coisas que ele sabe, então o aluno já possui o conhecimento que o mestre está tentando transmitir, e o mestre não está, na verdade, ensinando nada de novo a ele. Mas se são sinais que o aprendiz desconhece, então ele não vai conseguir entender a comunicação do mestre, e nada será ensinado verdadeiramente; tal como alguém que falasse em japonês a outro que conheça apenas o português. Por isso, diz o argumento, ou o aluno entende o mestre (e nesse caso não aprende nada que já não soubesse) ou não o entende (e nesse caso não pode haver nenhuma transmissão de conhecimento). Daí se pode concluir que nunca existe verdadeira transmissão de conhecimento entre seres humanos, diz o argumento. 

A resposta de Tomás.

A comunicação entre mestre e aprendiz envolve a utilização de sinais e símbolos que são compartilhados entre eles, mas que eles não possuem da mesma maneira. Os sinais da comunicação estão no aluno de uma maneira mais superficial, geral e confusa, e estão no mestre de uma maneira mais específica, detalhada, profunda e rica. Deste modo, qualquer transmissão de conhecimento pressupõe algum tipo de comunicação prévia entre os dois, e portanto alguma base da qual o processo de aprendizagem deve partir. Mas o mestre é sempre aquele que já possui o conhecimento mais aperfeiçoado e profundo, e o aprendiz, aquele que ainda não chegou a isso. É por isso que nunca podemos dizer que, no caso da aprendizagem por experiência própria, existe verdadeiramente um “autodidata”, ou que, nesse caso, aquele que aprende por experiência própria seria “mestre de si mesmo”, porque a noção de mestre pressupõe justamente a posse do conhecimento anteriormente ao próprio processo de aprendizagem, o que não ocorre na aprendizagem por experiência própria. Em suma, ninguém jamais é mestre de si mesmo; isso seria uma contradição em termos. Em qualquer caso, seja na aprendizagem diretamente guiada por um mestre, seja no exame e na experiência direta, há sempre a necessidade dessa dinâmica entre aquilo que é ignorado e aquele que busca o saber. Todo conhecimento é relacional, seja nascendo de uma relação entre professor e aluno, seja nascendo da relação entre filho e pais, seja nascendo da relação entre fiel e pastor, seja, enfim, na relação entre uma mente que possui a luz do intelecto dada por Deus e uma natureza que é intrinsecamente inteligível. Mas sempre há uma relação em todo e qualquer percurso da ignorância ao conhecimento, em qualquer ser humano. 

  1. Concluindo.

Sim, um ser humano pode, de fato, transmitir conhecimento a outro; devemos estar, no entanto, atentos ao fato de que aquele que transmite não é dono do saber nem é um sujeito externo frente a um objeto inerte; ele é sempre parte de uma relação entre duas pessoas inteligentes que compartilham uma base comum de comunicação e confiança capaz de possibilitar o percurso desde a ignorância até o saber.