1. Retomando mais uma vez.

Terminamos o texto anterior com o exame do processo pedagógico no pensamento de São Tomás, assim como exposto neste artigo da Suma. Ali, Tomás, após definir a aprendizagem como a passagem da potência (que é a capacidade de aprender de quem ainda não sabe) ao ato (que é a aquisição efetiva do conhecimento), e examinando as posições equivocadas de Averróis e dos platônicos, explica que o mestre, agindo como um princípio externo causador do conhecimento, não é comparável ao engenheiro que toma dos materiais de construção – passivos e inertes em si mesmos – para construir a casa que planejou. O mestre, aquele que ensina, age de modo muito mais análogo ao médico: atua desde fora com os estímulos e reforços necessários para que o aprendiz, usando seus próprios recursos intelectuais de modo ativo, leve seu próprio intelecto da potência ao ato pela assimilação participativa do conhecimento transmitido. 

Como isso se dá? É o que examinaremos agora, percorrendo o restante da resposta sintetizadora de Tomás neste artigo.

  1. A resposta sintetizadora – parte final.

Como vimos, Tomás descreve o processo de transmissão de conhecimento entre um mestre e um aprendiz de modo análogo à relação entre um paciente e um médico: estes, o médico e o mestre, são guias externos e ativos de processos que decorrem internamente no sujeito passivo, e com sua participação. Assim, o paciente, seguindo o protocolo indicado pelo médico, habilita as forças curativas de seu próprio organismo a agir e recuperar o organismo doente. E na relação mestre e aprendiz, como se dá o processo ativo de aprendizagem?

Também aqui o agente externo não age sobre matéria inerte, com uma ação inteiramente exterior ao sujeito passivo, como faz o construtor sobre os materiais de construção que se transformarão no edifício. O aprendiz é ativo, e deve participar ativamente do processo de aprendizagem, porque é ele que levará seu intelecto da potência ao ato, assimilando o novo conhecimento. 

Ora, diz Tomás, o conhecimento é adquirido de duas maneiras, pelo ser humano:

  1. Por uma jornada espontânea a partir da sua própria capacidade de pesquisa e investigação, como é o caso daquele que examina o mundo e busca conhecer pela sua própria iniciativa. É a aquisição de conhecimento pela reflexão pessoal quanto à experiência vivida.
  2. Pela condução do aprendiz realizada pelo mestre, que age como princípio exterior ao instruir e conduzir o aprendiz a passar da desinformação ao saber. 

Em todos os seres humanos, diz Tomás, existe um princípio interior de conhecimento, que Tomás chama de “luz do intelecto ativo” – aquele impulso de curiosidade sadia que nos leva a inquirir ativamente o mundo, refletindo, a partir dos primeiros princípios da inteligência (como o princípio da identidade, da não-contradição, etc., que reconhecemos intuitivamente assim que começamos a exercer a atividade intelectual por nós mesmos) sobre os dados que nos chegam pelos sentidos (aquilo que vemos, tocamos, ouvimos, provamos, cheiramos).

Aprender, pois, é aplicar, pela reflexão, os princípios da abstração aos dados sensoriais concretos que nos chegam pela nossa relação com o mundo externo. Deste modo, organizando e abstraindo esses dados daquilo que, neles, é particular e concreto, podemos conhecer intelectualmente as coisas. por exemplo, após examinar os cães com os quais temos contato, de diferentes cores, pelagens, tamanhos e idades, podemos chegar à noção de que há uma espécie canina com tais e tais características, o que nos permitirá reconhecer, daqui para frente, os cães concretos que nos deparamos pelo mundo afora.

Mas há outra maneira de conhecer, que envolve a relação de confiança entre o mestre – que está mais adiantado em algum aspecto do conhecimento – e o aprendiz, que ignora alguma coisa que é do conhecimento pessoal do mestre. Deste modo, a função do mestre é transmitir o conhecimento que possui, sem esquecer que o processo de conhecimento, no aprendiz, é sempre e principalmente um processo ativo, livre, que pode ser guiado, mas não pode ser imposto de fora. Assim, o mestre é aquele que, detendo algum conhecimento prévio sobre algum aspecto atualmente ignorado pelo discípulo, conduz este último até o conhecimento, estimulando-o a um processo ativo de aprendizagem. Sem esquecer que o discípulo é pessoa, como o mestre é pessoa, e ambos são dotados de uma alma espiritual potencialmente igual em capacidade

E como se dá essa condução ao conhecimento, essa relação delicada em que o discípulo é conduzido com confiança e delicadeza pelo mestre a conhecer mais e melhor o mundo que o cerca? Ela se dá de modo dúplice, diz Tomás:

  1. Em primeiro lugar, o mestre pode propor ao discípulo certas ajudas ou meios de aprendizagem, que o intelecto do discípulo pode utilizar no caminho ativo de passar do desconhecimento ao conhecimento: por exemplo, o mestre pode propor certos enunciados menos gerais, menos universais, que ajudarão o aprendiz a organizar conhecimentos e experiências pessoais anteriores – a ideia de que há semelhanças entre seres vivos pode ajudar a conhecer a noção de espécie e de gênero a partir de observações prévias do próprio aprendiz com alguns seres vivos que ele encontrou ou convive. Ou mesmo propor exemplos concretos, como mostrar uma ave voadora, pode ajudar, a partir da noção de similaridade e de dissimilaridade, ou outra noção análoga, ao conhecimento de algo que era anteriormente desconhecido, como a densidade do ar ou a aerodinâmica da asa. Aqui, estamos no campo das ajudas concretas, empíricas, ao conhecimento.
  2. A outra dimensão do processo pedagógico se dá pelo reforço e enriquecimento do próprio intelecto do aprendiz; não se trata, aqui, de um processo como aquele dos anjos, em que um espírito mais poderoso e capaz ilumina, pelo poder de sua mente superior, à capacidade inferior de um anjo menos poderoso, fazendo-o alcançar profundidades que ele, isoladamente, não conseguiria. Entre os seres humanos, não há nenhum processo similar ao processo de iluminação dos anjos. Somos iguais em natureza e em capacidade, e por isso nenhum de nós pode se arvorar em iluminador intelectual de outro. Mas podemos ajudar a organizar o intelecto de algum irmão menos experiente, exercitando, com ele, a capacidade lógica e metodológica, de modo a facilitar os processos de dedução, de abstração e de organização do conhecimento. Habilitar o discípulo a percorrer com método o caminho do conhecimento, ajudando-lhe a evitar falácias e raciocínios impróprios, fortalecendo os instrumentos de conhecer e de pensar, eis a segunda dimensão do papel de um bom mestre, segundo Tomás.

Assim, ajudando a enxergar melhor o mundo, quer pela apresentação das coisas, quer pela orientação com o método e a lógica, eis as maneiras pelas quais um mestre pode ajudar o aprendiz a prosseguir da potência ao ato, no campo do conhecimento.

  1. Encerrando por enquanto.

A Igreja é mestra, e seus bispos são, por excelência, os mestres da fé. Por consequência, os presbíteros conduzem seu rebanho sob a direção do bispo, sempre assim: com a obrigação de terem, eles próprios, experimentado a fé que querem transmitir, e com a humildade de saber que os fiéis não são objetos inertes em suas mãos, mas pessoas que estão num processo de caminhada. Assim, a relação de fé deve ser, sempre, uma relação de respeito e confiança, na qual o que ensina ajuda o que aprende a atingir livremente sua perfeição. Do mesmo modo se dá, creio, com a relação entre professor e aluno, entre pais e filhos, entre todos aqueles que desejam conduzir-se e conduzir à perfeição. Bela lição de Tomás.

No próximo texto, revisitaremos os argumentos objetores iniciais e as respostas específicas de Tomás a cada uma delas.