- Retomando.
Imaginar que a possibilidade de ensinar diretamente a um outro ser humano é algo naturalmente impossível, ou que é contrário às Escrituras, tem um reflexo muito grande na formação e na salvação humanas: por um lado, nega que seja possível falar em magistério, seja na Igreja, seja no sistema educacional, o que veda a transmissão da tradição social e religiosa; por outro, pode, no limite, dar lugar ao relativismo mais completo (que vê a realidade como pura construção mental individual, e cada tentativa de objetividade como mera opressão e discurso de poder), ou ao fanatismo mais completo: se não há maneira de conversar e convencer a partir de referenciais públicos e objetivos, resta-nos a guerra e a imposição, o emotivismo e a dominação. Então a defesa de que somos, sim, capazes de alcançar algum conhecimento consistente sobre a verdade e de transmiti-lo, ensinando aos outros, está na base tanto de uma fé saudável quanto de uma democracia razoável.
No texto anterior, examinamos a hipótese de que não haveria a possibilidade de que um ser humano ensinasse a outro, de que houvesse uma real transmissão de conhecimento etre duas pessoas humanas, uma na posição de quem ensina e outra na posição de quem aprende. Vimos quatro argumentos que tentavam defender esta hipótese, utilizando desde argumentos bíblicos (Mt 23, 10: não chamam ninguém de mestre) até argumentos individualistas (ninguém pode ser luz para o intelecto de outra pessoa, porque o intelecto ativo é individual) ou mesmo que a suposta transmissão de conhecimento na verdade pressuporia que o outro já tenha o conhecimento que se queria transmitir, porque, caso contrário, nem sequer entenderia a comunicação que o mestre quer fazer (não se poderia ensinar latim se alguém ainda não é capaz de entender latim, porque nenhuma comunicação seria possível).
O argumento sed contra lembra que, em 1 Timóteo 2, 7, o próprio São Paulo se apresenta como Mestre das Nações; isto indica que é possível, segundo as Escrituras, que um ser humano seja um verdadeiro mestre, isto é, transmita conhecimento a outra pessoa.
Posta a discussão, examinemos a resposta sintetizadora de Tomás.
- A resposta sintetizadora de Tomás.
Tomás recorda que, neste assunto (a possibilidade de aprendizado por transmissão real de conhecimento entre um mestre humano e um aluno humano), há, historicamente, diversas opiniões.
A posição de Averróis.
Existem, por exemplo, aqueles que, como Averróis, imaginam que o intelecto humano não é individual, mas há apenas um grande intelecto comum, que armazena toda a informação, todas as species inteligíveis, e que cada ser humano tem acesso, de acordo com seu próprio esforço e grau de desenvolvimento, a essa mente única. Assim, para Averróis, um ser humano não transmite conhecimento a outro, mas apenas prepara sua mente para acessar mais profundamente na mente comum que sabe todas as coisas, à qual o mestre tem acesso livre, mas o discípulo, embora participe dela, ainda não desenvolveu a lembrança, o contato adequado para se apropriar pessoalmente do conhecimento comum, fixando-o em sua própria memória. Ou, falando de modo mais técnico, haveria apenas um intelecto passivo, já com todo o conhecimento das informações (species) inteligíveis de toda a realidade, e desse único intelecto cada ser humano retiraria as imagens (phantasmata) que estão em sua própria alma intelectiva pessoal (memória intelectual). Assim, no fundo, para estes, o conhecimento é um só e o mesmo para todos os seres humanos, variando apenas o grau e a oportunidade pelo qual cada um tem acesso a ele. Este modo de conceber a mente humana foi debatido por Tomás na questão 76, artigo 2, desta Primeira Parte da Suma, que já estudamos neste blog em quatro textos, que podemos ler clicando aqui, aqui, aqui e aqui. Nesse artigo, Tomás demonstra que a noção de que a species é única para todos os seres humanos é verdadeira, isto é, toda a realidade está estruturada a partir da mesma verdade que pode ser igualmente conhecida de modo intelectual por todas as criaturas inteligentes – porque uma só é a mente de Deus que concebeu e criou tudo o que existe. Mas imaginar que todos os homens possuam o mesmo intelecto passivo, isto é, que todo o conhecimento humano pertence a uma só e mesma mente humana que é comum e compartilhada por todos os seres humanos é uma ideia errada; cada um de nós, embora tenha acesso à mesma realidade que possui a mesma informação inteligível (dada a unidade da mente de Deus), possui, no entanto, uma mente pessoal que deve aprender pessoalmente. Neste sentido, o pensamento de Averróis é equivocado, como vimos nos textos cujos links apresentamos acima. Aliás, o equívoco de Averróis é um equívoco anti-humanizante, no sentido de que reduz cada ser humano individual a ser apenas uma espécie de avatar de uma mente humana coletiva, reduzindo, assim, a dignidade da vida pessoal em prol de uma ideia de vida humana coletiva. Levando o pensamento de Averróis até suas consequências políticas, poderíamos chegar à maligna conclusão de que, se um indivíduo morre, na verdade muito pouco se perde, porque tudo aquilo que está em sua mente nada mais é do que uma apropriação privada de uma mente coletiva que sobrevive à morte de qualquer indivíduo. Nem precisamos aprofundar as consequências políticas de pensar assim.
A posição de Platão.
Além da posição de Averróis, Tomás nos lembra da posição de Platão, que propõe que nossa alma preexiste à nossa existência terrestre, e que habitava, anteriormente, o reino das puras ideias inteligíveis, num reino espiritual do qual fomos desterrados para ganhar uma existência corporal na Terra. Assim, nossa mente já possuía todo o conhecimento intelectual, porque participa das ideias universais que conheceu no reino transcendente das puras ideias; deste modo, quando somos desterrados para a Terra e presos num corpo material, perdemos o livre acesso a essas ideias das quais participamos em nossa mente. Tomás debate isto na questão 84, artigo 4, desta primeira parte da Suma, que já estudamos em quatro textos, aqui, aqui, aqui e aqui. De acordo com o pensamento de Platão, portanto, o mestre, na verdade, não ensina algo novo ao aprendiz, mas apenas o faz lembrar de um conhecimento que ele já possuía, mas ao qual não tinha acesso por causa das limitações da matéria. Por isso, para Platão, conhecer, para o ser humano vivo nesta Terra, não é outra coisa senão lembrar. Na verdade, para Platão, nenhum ser material pode chegar a algum conhecimento novo, no sentido do conhecimento abstrato, intelectual, porque conhecer é adquirir em si uma forma nova, e a matéria só pode adquirir uma forma substancial de cada vez: pensemos, aqui, numa dessas massinhas plásticas infantis: se eu a moldo na forma de um elefante, e em seguida quero moldar uma baleia com essa mesma massinha, tenho que destruir o elefante para moldar a baleia. Mas esta é uma opinião equivocada, diz Tomás, que segue Aristóteles neste ponto.
A posição de Tomás: resgatando Aristóteles.
De fato, diz Tomás, nossa alma espiritual humana tem um intelecto capaz de receber conhecimento, isto é, de absorver em si as formas substanciais e acidentais de outros seres de modo abstrato (species inteligíveis, sem limite, porque a alma não é material, embora esteja em potência para o conhecimento intelectual. Tomás debateu isto nesta Primeira Parte da Suma, questão 79, artigo 2, que estudamos aqui e aqui, e na questão 84, artigo 3, que estudamos aqui e aqui. Tudo isto está de acordo com Aristóteles, em especial com o De Anima III, 4.
Quando aplicamos essa visão a respeito da aprendizagem de conhecimentos novos pela alma humana que ignora, estamos no campo da aprendizagem por experimentação. Mas nos interessa, agora, discutir a aprendizagem por discipulado, isto é, aquela possibilidade de que um ser humano possa adquirir conhecimento novo e verdadeiro a partir dos ensinamentos de outro ser humano.
Na verdade, diz Tomás, é fato que um mestre leva um discípulo ao conhecimento ao encaminhar o intelecto do discípulo de uma posição de potencialidade (ou seja, daquela situação em que o discípulo ignora alguma verdade, mas seu intelecto é capaz de aperfeiçoar-se pela recepção da informação intelectual que causará nele o saber) à posição de ato, isto é, à atualização do intelecto pelo conhecimento adquirido que o aperfeiçoa, que o torna mais ciente de algo que antes ignorava. O mestre, então, funciona, frente ao aprendiz, como um princípio exterior que causa eficientemente, no aprendiz, a atualização do intelecto pelo conhecimento.
Ora, diz Tomás, quando vemos um princípio exterior agindo sobre alguma coisa para transformá-la, essa ação pode se dar de duas maneiras: 1) de um modo inteiramente externo, como o construtor atua sobre o material de construção que, passivamente, se transforma, digamos, numa casa ou sobrado. 2) De um modo que envolve uma atuação externa e princípios internos à própria coisa que está sendo transformada. é deste modo, por exemplo, que os médicos procuram causar a saúde em seus pacientes: aplicando protocolos e fármacos como princípios externos e estimulando, simultaneamente, que as forças curativas do próprio organismo reconstituam a saúde perdida, a partir de seus poderes naturais que são internos ao próprio doente.
O processo pedagógico em analogia com o processo médico.
Ora, a partir desse exemplo podemos notar duas coisas:
- A atuação do médico, pela arte médica, se dá pela observação científica da própria ação da natureza; isto é, a arte da medicina desenvolve seus protocolos observando como a natureza cura os organismos, quer por regenerá-los, quer pela ingestão de alguma substância de que careça, quer pela expulsão daquele corpo estranho que está causando a doença. Assim, não é qualquer atuação do médico que causa a cura, mas apenas aquela que estuda e observa a ação da natureza na recuperação do organismo.
- O médico, como agente externo, é apenas um coadjuvante, isto é, ele age apenas para auxiliar o principal agente, que é o próprio organismo – embora doente. Deste modo, cabe ao agente externo estimular, fortalecer, fornecer os meios e as substâncias necessárias para a cura, que será alcançada pelo próprio organismo que recebe os auxílios do agente externo. Deste modo, o médico fortalece a natureza, dando a ela os meios para que, como causa principal, restabeleça-se saudavelmente.
Assim, o trabalho do mestre, como veremos no próximo texto, parece muito mais com o trabalho do médico do que com o trabalho do construtor de casas.
- Encerrando por enquanto.
A ideia de que, na idade média, o processo de transmissão de conhecimento, de ensino, de educação, era visto como estritamente passivo, ou seja, como um mestre poderoso que dispunha da ciência e a transmitia para discípulos passivos e estritamente receptivos, é falsa. Tomás, e com ele a melhor ciência de sua época, sabia que o processo pedagógico é um processo relacional, em que o mestre guia uma pessoa – também capaz de conhecer por si mesma e até de ensinar – no processo de construir-se no saber.
Veremos como isso se dá, segundo Tomás, no próximo texto.
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