1. Introdução.

É incrível a amplitude de assuntos que a Suma enfrenta. Temos aqui, propriamente, uma parte pedagógica do pensamento de Tomás. Trata-se de saber como é possível que alguém transmita conhecimento a outro ser humano. É uma questão muito interessante: se a via, digamos, ordinária de conhecer é abstrair o conhecimento intelectual a partir do conhecimento sensível, de modo a assimilar na alma, de modo intencional, aquilo que está no mundo de maneira material, e na mente de Deus como protótipo. Mas há outra maneira de aprender: receber o conhecimento intelectual que está em outra mente. Como isso pode se dar?

Entre os anjos, como já vimos, existe o processo de iluminação, que é quando um anjo faz com que um anjo inferior alcance, com a ajuda do superior, algum conhecimento divino que supera a capacidade intelectual daquele. Mas não se trata de uma aprendizagem, senão de uma espécie de expansão da mente. No caso dos seres humanos, porém, nosso intelecto precisa adquirir de fato os conhecimentos que não tem, e um caminho ordinário é tentar assimilar esse conhecimento a partir de outra mente que o possui. Como será que isso é possível, se é que é possível? Será que há, de fato, uma transmissão de conhecimento entre duas mentes humanas, ou será que a mente do professor apenas faz com que o aluno lembre aquilo que já sabia mas não lembrava, ou que ele construa  um conhecimento que, afinal, é apenas representação, e portanto não está na categoria do verdadeiro e do falso

Estamos nos alongando. Vamos ao artigo. 

  1. A hipótese controvertida.

A hipótese controvertida, proposta para provocar a polêmica e induzir a discussão, diz que “um ser humano não pode realmente ensinar outro ser humano”, ou seja, não há verdadeira transmissão de conhecimento entre dois seres humanos. Não existe a possibilidade da relação de aprendizagem como transmissão de conhecimento entre professor e aluno, entre pai e filho, e assim por diante, diz a hipótese inicial. Há quatro argumentos objetores iniciais que tentarão comprovar essa hipótese. 

  1. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento lembra que aquele que ensina coloca-se na posição de “mestre” frente a um discípulo. Mas em Mateus 23, 10, o próprio Jesus nos ensina que não devemos chamar a ninguém de mestre, porque ser mestre é uma honra exclusiva do próprio Deus. Assim, ensinar é uma prerrogativa divina, e nenhum ser humano pode ensinar a outro ser humano, conclui erradamente o argumento. 

O segundo argumento objetor.

O conhecimento é algo recebido, que permanece como um hábito em nossa mente, mas nem sempre está ativo; e quando está, encontra-se ativo apenas na mente de quem possui este conhecimento. Ora, quando admitimos que alguém pode ensinar a outro ser humano, estamos imaginando que o conhecimento é uma qualidade ativa que é capaz de provocar efeitos naturais fora do respectivo sujeito, produzindo, por si mesma, o mesmo resultado no outro que produz no sujeito – como o fogo de uma vela é capaz de acender outra vela apenas por contato. Mas sabemos que as coisas não são assim: não se transmite o conhecimento por contato ou por qualquer outro meio natural ativo que causasse automaticamente a transmissão do conhecimento entre o mestre e o discípulo. Logo, um ser humano não pode ensinar nada ao outro, conclui apressadamente o argumento. 

O terceiro argumento objetor.

Para que se conheça, para que se tenha o conhecimento, duas coisas são necessárias: a luz do intelecto, que é uma característica pessoal – a capacidade pessoal de aprender – e a espécie ou species, isto é, a informação inteligível sobre aquilo que está sendo conhecido, abstraída do contato dos nossos sentidos com aquilo que queremos assimilar. Ora, um ser humano não pode transmitir ao outro a capacidade intelectual de aprender – a chamada “luz do intelecto”, porque é uma dimensão estritamente pessoal. Também não pode transmitir a species daquilo que vai ser aprendido, porque essa species está na coisa que é objeto de aprendizagem. Logo, um ser humano não pode causar o conhecimento em outro ser humano, por meio do ensino, conclui levianamente o argumento. 

O quarto argumento objetor.

O quarto argumento quer analisar justamente a relação pedagógica entre o mestre e o aluno, para comprovar que não há, aí, nenhuma verdadeira transmissão de conhecimento. de fato,  diz o argumento, o que o professor faz, na sua relação com o aluno, é propor alguns sinais, comunicando-os por gestos e por palavras. Mas não se pode verdadeiramente ensinar nada a ninguém, causando nele conhecimento verdadeiramente novo, apenas pela conduta de propor sinais por meio de palavras e gestos, afirma temerariamente o argumento, propondo um dilema lógico: ou o aluno:

1) conhece os sinais que o mestre está propondo, ou 

2) não os conhece. 

Ora, prossegue o argumento, se o aluno já possui o conhecimento do que o mestre tenta lhe comunicar, ele entenderá a comunicação do mestre, mas não aprenderá nada de realmente novo, porque já possuía este conhecimento antes mesmo de recebê-lo do mestre, tanto que foi capaz de entendê-lo. Mas se ele não conhecia anteriormente os sinais que o mestre propõe, então ele não conseguirá entender o que o mestre está tentando ensinar, como alguém que tentasse ensinar, digamos, em alemão a um aluno que apenas fala português – e, neste caso, tampouco haverá qualquer transmissão de conhecimento. Portanto, conclui o argumento sobre seu raciocínio falacioso, não há verdadeira aprendizagem de novos conhecimentos na relação entre o mestre e o aluno. 

  1. O argumento sed contra.

como sabemos, o argumento sed contra busca razões de autoridade para não aceitar a hipótese controvertida inicial, servindo de antítese a ela, para possibilitar a síntese final. No caso presente, em que a hipótese inicial quer provar que não é possível a transmissão de conhecimentos por uma relação de mestre – aluno, o argumento sed contra cita a Bíblia, que, em 1 Timóteo 2, 7, São Paulo se descreve assim: “Digo a verdade e não minto: fui designado para ser pregador e apóstolo desse testemunho, mestre dos pagãos na fé e na verdade”. Ora, Deus não teria constituído São Paulo como mestre e doutor dos pagão, para ensinar a eles sobre a fé em Jesus, se não fosse possível que um ser humano pudesse verdadeiramente ser mestre de outro, conclui o argumento, rejeitando a hipótese inicial.

  1. Encerrando por enquanto.

Como vimos, o debate aqui não se limita ao processo de educação pedagógica laica, como transmissão de ciência humana de um professor a um aluno, embora esse debate também esteja em jogo, e precise ser sempre defendido como possível e necessário. Está em jogo, também, a aceitação do Magistério da Igreja, na fé, pelo qual Deus designa alguns a serem mestres da fé e possam transmiti-la eficaz e retamente aos outros fiéis, ensinando-os, de tal modo que as opiniões divergentes ou a falta de confiança e unidade na verdade não fragmente a fé, como estamos testemunhando em nossos dias, e como já era uma tendência no tempo de Jesus. O conhecimento sobre o Evangelho, sobre a fé, sobre a moral, pode realmente ser transmitido entre os seres humanos.

Mas estamos nos adiantando. Trataremos mais sobre isto nos próximos textos.