1. Retomando para concluir.

Deus age diretamente sobre suas criaturas, quando estabelece amizade com elas. E tão mais diretamente quanto maior for essa amizade. Isto quer dizer que a santidade não é um destino, no sentido de decorrer da ordenação das forças causais naturais em seu entrelaçamento fatídico. A santidade é a única liberdade real: embora envolva a Providência onipotente e infinitamente amorosa de Deus, ela se dá fora do jogo do destino histórico. Também estão nessa categoria, das coisas que rompem o destino, a criação e o nascimento de um ser humano. Disso há reflexos na filosofia, como se pode ver da obra “A Condição Humana” de Hannah Arendt. Ali, ela aponta que o nascimento de um novo ser humano é sempre um fato que rompe as cadeias deterministas do destino, apresentando, neste ponto, uma grande proximidade com o pensamento de Tomás de Aquino. Mas estamos tergiversando.

Vimos, no último texto, a resposta sintetizadora de Tomás, na qual ele nos mostra que justamente isto: não somente a criação e o nascimento, mas a graça e a glorificação da santidade são fatos que escapam da fatalidade do jogo das causas naturais, científicas, de tal modo que a santidade pode florir em condições ambientais, culturais e sociais completamente adversas: está aí a explicação do verdadeiro martírio (não o falso martírio de quem se mata em nome de Deus para destruir infiéis, mas de quem, mesmo querendo viver, é morto por causa de sua fé) e da santidade que às vezes floresce nas condições mais adversas (penso, por exemplo, em Sophie Scholl e seus companheiros resistindo à ordem nazista). 

Examinemos agora as respostas de Tomás aos argumentos iniciais que tentavam submeter tudo às leis inexoráveis do jogo das causas secundárias.

  1. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor, como já vimos, cita Boécio, que no livro IV da sua “Consolação da Filosofia”, diz, a respeito da força do destino: “Esta cadeia move o céu e os astros, equilibra os elementos uns em relação aos outros e transforma-os através de mudanças alternadas, ela mesma faz que as coisas nasçam e morram, e renova tudo através da reprodução de seres semelhantes, gerando crias e sementes. Ela condiciona por uma indissolúvel conexão de causas os atos e até a sorte dos homens”. (Livro IV, prosa 6, linhas 18 e 19). Assim, nada da criação, nem as coisas inanimadas, nem os seres vivos, nem mesmo os seres inteligentes, pode escapar da força do destino que rege o jogo da causalidade secundária, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás.

Todas as coisas que o grande Boécio menciona no trecho citado (o céu, os astros, coisas que nascem e morrem, a reprodução biológica e mesmo os atos naturais e aquilo que acontece ao ser humano) estão de fato inseridas no jogo da história, conduzida fatalmente por Deus, por meio da causalidade secundária (que explicamos nos textos anteriores) até seu fim inexorável. Mas há acontecimentos que não são assim, como foi dito acima: a criação, o nascimento, a recepção da graça e a glorificação da criatura inteligente, por exemplo. Nenhuma dessas coisas se faz por causas secundárias, mas nelas há a atuação de Deus diretamente, como causa primária desses acontecimentos. 

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento cita Santo Agostinho que, na Cidade de Deus ( Livro V, cap. 1) diz que o destino é algo real, relacionando-o à vontade de Deus: “se alguém atribui esse nome [destino ou fado] à vontade de Deus ou a seu poder, pode conservar essa opinião”. Ora, é o próprio Agostinho que, na obra Sobre a Trindade, explica que a vontade de Deus é a causa última de tudo o que acontece. Logo, uma vez que essa vontade se expressa na ordenação das causas secundárias que regem a relação entre as coisas criadas, então, diz o argumento, nada pode escapar dessas relações naturais e sua causalidade, e portanto nada há que ocorra fora do destino, conclui. 

A resposta de Tomás.

De fato, tudo aquilo que ocorre no desenrolar das causas secundárias, naturais, que acontecem na história da criação, ou seja, tudo o que ocorre no campo do destino, está submetido inexoravelmente à vontade de Deus como causa primeira. Mas a recíproca não é verdadeira: nem tudo aquilo que está na vontade de Deus se realiza no jogo da causalidade natural, secundária, da criação. A própria criação, ato direto e pessoal de Deus, se dá de modo absolutamente incondicionado: a criação precede o destino. Do mesmo modo, a graça e a glorificação, a amizade com Deus, o nascimento de um novo ser humano, tudo isso se dá numa ordem inteiramente submetida à vontade de Deus (como não poderia deixar de ser) mas inteiramente incondicionada quanto às forças do destino. 

O terceiro argumento objetor.

De volta à Consolação da Filosofia de Boécio, este argumento resgata o trecho em que o velho filósofo cristão diz: “e esta ordem [o destino], por seu turno, condiciona com a sua própria imutabilidade as coisas mutáveis que de outro modo se degradariam ao acaso”. Ora, todas as coisas são, em algum grau, mutáveis, à exceção do próprio Deus. Logo todas as coisas criadas estão sujeitas, inexoravelmente, ao destino, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás.

É verdade que todas as criaturas, desde as inanimadas até as inteligentes, são, em algum grau, mutáveis, contingentes e dependentes de Deus. Mas isto não significa que tudo o que há nelas seja sujeito ao destino. De fato, muitas coisas que ocorrem às criaturas (o fato de serem criadas, ou, no caso das inteligentes, o fato de receberem a graça e alcançarem a glória, por exemplo) não decorrem de causas secundárias, contingentes ou mutáveis, mas da própria ação incondicionada de Deus. Assim, nem tudo, mesmo no mundo criatural, está sujeito às leis fatídicas do destino, conclui Tomás. 

  1. Concluindo.

Há duas opções para as criaturas inteligentes: aceitar a graça e a felicidade suprema da glória, escapando das rodas inexoráveis do destino e tornando-se plenamente livre por amar a vontade infinitamente boa de Deus, ou rejeitar a oferta de amor e ficar preso no destino natural, na fatalidade de ser conduzido, desde fora, como adversário, ao fim que Deus já preparou para o universo. Esta última hipótese pode ser chamada de “segunda morte”, e é justamente a isto que faz referência o Livro do Apocalipse 20, 14. Não há liberdade em rejeitar o amor de Deus, porque amor de Deus e liberdade são sinônimos em toda extensão.