- Retomando.
O Papa Francisco, em seu magistério recente, tem ressaltado a importância de entender a heresia pelagiana como algo ainda relevante em nosso tempo, ainda capaz de nos afastar do verdadeiro caminho da santidade. Trata-se de imaginar que as forças da natureza, por si mesmas, são capazes de nos elevar até Deus, de modo que poderíamos alcançar a santidade por nossos próprios meios, independentemente da elevação pela graça. E o que isto tem a ver com o que estamos estudando aqui?
No último texto, vimos a hipótese de que nada, no mundo criatural, acontece fora da ordem das causas segundas, que são a única maneira pela qual Deus dirige o mundo. Assim, aquilo que chamamos de destino ou fado seria uma grande rede da qual nem mesmo a santidade escaparia – quem é santo o seria por causa do jogo das causalidades criadas. Eis aí o pelagianismo: a ciência seria capaz de desvendar e ensinar os caminhos para a salvação final do ser humano, que estaria, afinal, também inscrita na ordem natural do destino.
Vimos três argumentos iniciais que tentavam comprovar esta hipótese, apelando a Boécio e a Agostinho; mas vimos, também, que o próprio Boécio escreveu que algumas coisas que estão na ordem da providência escapam da ordem do destino ou fado – o que representa um argumento contrário à hipótese inicial. Deste modo, segundo este argumento, há ocorrências que, embora não escapem da ordem da providência divina, escapam, no entanto, da ordem das causas segundas deste universo. Que acontecimentos seriam estes? É o que veremos agora.
- A resposta sintetizadora de Tomás.
Tomás inicia sua resposta lembrando que, no artigo 2 desta mesma questão, aprendemos que a definição de destino ou fado pode ser estabelecida assim: o destino é a ordenação das causas segundas, isto é, da causalidade que acontece nas relações causais entre as próprias criaturas, no sentido da realização dos efeitos previstos por Deus. Mas, como vimos no texto anterior, o universo criado não é um grande mecanismo, um relógio que funcionasse independentemente da presença sustentadora e orientadora de Deus. Se assim fosse, todos os acontecimentos aqui no universo seriam determinados como o movimento mecânico das máquinas o é.
Como dissemos no último texto, a relação de Deus com o universo não é a de um arquiteto com sua obra (uma vez construída a casa, o arquiteto se afasta, porque já não precisa continuar em relação com a casa para que a casa exista e realize seus objetivos; aliás, um bom relojoeiro é justamente aquele capaz de construir um relógio tão perfeito que não necessita de nenhuma intervenção do fabricante para continuar funcionando para sempre). Mas a relação de Deus com a criação é uma relação permanente, contínua, de necessidade intrínseca por parte das criaturas – algo muito mais análogo à relação entre a música e o músico que a produz. Deste modo, embora o instrumento dependa inteiramente do músico para continuar soando, o músico não está adstrito ao seu instrumento para produzir sons: ele pode produzi-los de outra maneira, por exemplo batucando no corpo de madeira do piano para marcar o tempo.
Algo similar ocorre com a relação entre Deus e a Sua criação: se, por um lado, o universo está ordenado pelo destino, isto é, está dirigido até o seu fim de tal modo que as forças aparentemente desconexas ou livres acabam realizando aquilo que Deus permite e quer, por outro lado o próprio Deus não está limitado às forças do destino, em suas intervenções.
Assim, por exemplo, as forças do destino não estavam presentes na criação, porque não precedem à criação. O ato de criação é um ato da Providência, mas é um ato livre de Deus, e não o resultado de algum tipo de destino preexistente. Tudo aquilo, portanto, que é feito diretamente por Deus não está sujeito ao jogo das causas secundárias, mas à causa primária que é o próprio Deus. Assim, a criação, a graça, a glorificação das criaturas que alcançaram a santidade, a ressurreição de Cristo, e realidades deste tipo, são todas ocorrências que estão fora da ordem natural do destino, porque são resultado de ação direta de Deus sobre sua criação; e o destino não pode constranger Deus. É por isso que Boécio Ensina, na Consolação da Filosofia, que quanto mais alguma coisa está próxima de Deus, mais estável ela é, e mais ela escapa do jogo da causalidade criada; quanto mais distante de Deus, porém, tão mais determinada pelas forças naturais, tão mais sujeita às forças inevitáveis do destino ela é. De fato, tudo aquilo que é realizado diretamente por Deus está sujeito à sua infinita e amorosa Providência, mas não está submetido à ordem fatal do destino natural.
- Encerrando por enquanto.
Os indivíduos humanos têm almas espirituais cuja compleição escapa à capacidade reprodutiva da natureza; de tal modo que a reprodução humana envolve sempre a atividade criadora atual de Deus, infundindo diretamente a natureza espiritual em nós. Deste modo, vemos nascer filhos de pessoas de péssimo temperamento ou caráter, mas que são de ótima índole e dotadas de bom temperamento e caráter – uma vez que parte do que são decorre diretamente de Deus. É por isso que toda forma de eugenia é pecaminosa. De modo semelhante, vemos surgirem santos no meio de sociedades muito corruptas, sem que haja explicação psicológica ou sociológica para isso – trata-se da infusão da graça santificante ali onde as forças naturais somente conduziram para longe de Deus. Eis exemplos de situações em que a Providência pode atuar fora da ordem fatal do destino.
No próximo texto examinaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
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