1. Retomando para concluir.

A Providência divina conduz todas as coisas criadas, respeitando suas especificidades e sua consistência causal, ao fim determinado por Deus, valendo-se da própria causalidade secundária das coisas para executar e receber, de modo ordinariamente mediado, os efeitos desejados pela causa primeira que é o próprio Deus. Assim, aquilo que chamamos de “destino” ou “fado” não é uma imposição externa de uma vontade autoritária de Deus, mas a condução forte e suave das coisas, por suas próprias forças e sob o governo divino, à sua plenitude. O destino, então, é, a um só tempo, a vontade governante de Deus, o processo de caminhada histórica da criação e a consumação das próprias coisas criadas. Não é, portanto, externo às próprias coisas. Vimos tudo isto nos textos anteriores.

Munidos, agora, desses princípios, vamos reexaminar os argumentos objetores iniciais, que tentavam justamente comprovar o contrário (que o destino é algo característico apenas de Deus, mas externo às coisas criadas), estudando, simultaneamente, as respostas de Tomás a eles.

  1. Os argumentos objetores iniciais e as respectivas respostas de Tomás.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor lembra que o próprio Santo Agostinho, em sua obra “Cidade de Deus”, nos ensina que “o divino poder, a divina vontade, é chamado de destino [ou fado]”. Ora, prossegue o argumento, a divina vontade, ou o divino poder, são atributos que estão em Deus e em Deus somente. Se eles constituem aquilo que se chama “destino”, então o destino é algo que se encontra em Deus, e em Deus somente, e de modo nenhum nas criaturas, conclui apressadamente o argumento. 

A resposta de Tomás.

Se apreciarmos o encadeamento das causas naturais, sem referência à vontade de Deus, vemos apenas a sucessão ocasional de eventos que é cega ao valor, cega à finalidade e apenas mecânica. Como o relógio que, embora seja uma máquina que nos ajuda a controlar e identificar a passagem do tempo, não tem, em si mesma, nenhuma conexão interna com o tempo, tal como percebido por nós. Sem envolver a vontade de Deus, não há como perceber a Providência atuando para os fins que ele predeterminou. Vale dizer, o destino tem origem e significado apenas na relação entre as coisas criadas e a vontade de Deus; o rumo de criação é, digamos assim, a realização prática daquilo que chamamos de destino. Assim, as causas segundas, observadas a partir da sua conexão com a causa primeira, revelam na prática a realização da vontade de Deus na história, isto é, o destino. Por isso, o destino está na vontade de Deus como causa primeira, e no encadeamento das causas segundas na sua efetiva realização no universo criado. 

O segundo argumento objetor.

O argumento vai na mesma linha do anterior, criando uma desconexão entre Deus como causa primeira do destino da criação, por um lado, e a própria criação, por outro. O argumento alega que o destino se compara às coisas como a causa aos seus efeitos, isto é, o destino seria a causa universal dos efeitos particulares que ele gera nas coisas criadas. Ora, prossegue o argumento, a causa primeira que gera todos os efeitos contingentes que ocorrem em nosso mundo é Deus somente, como já vimos em outros textos aqui da Suma. Assim, o destino estaria apenas em Deus, como causa universal, e não nas coisas e nos eventos criados, que são apenas efeitos, conclui apressadamente o argumento.

A resposta de Tomás.

Não há dúvida de que Deus é a Causa Primeira, a Causa universal, do próprio Universo criado e de tudo o que aqui ocorre. Mas isto não exclui o fato de que o universo é organizado como um conjunto de coisas relacionadas, que são capazes de interagir como causas e efeitos recíprocos. As coisas criadas têm real poder causal, embora de causalidade derivada, secundária. Portanto, podemos dizer que o destino está em Deus como origem e nas coisas como efetivação. 

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento objetor vai numa linha mais filosófica: se o destino é algo que existe nas criaturas, então ele é um acidente das criaturas ou ele é uma substância que se multiplica pelo universo criado. Mas o destino do universo deve ser um só, porque a multiplicação de destinos seria o mesmo que negar a própria existência do destino. Portanto, o destino, sendo um só para toda a criação, então ele não está nas criaturas, mas apenas em Deus, conclui o argumento, de modo irrefletido. 

A resposta de Tomás.

O destino é uma disposição, nas coisas: ele dispõe as coisas ordenadamente para o seu fim. Ora, se as coisas são assim, então o destino não é algo como uma qualidade que se adiciona às coisas, mas uma ordenação. Sabemos que a ordenação das coisas para o seu fim é algo da categoria das relações, e não das substâncias nem das qualidades. Desta forma, o destino é uma relação entre a história do universo criado, por um lado, e a Providência divina, que conduz todas as coisas a seu único fim, que é Deus, por outro. Deste modo, considerado quanto a seu princípio, o destino é único – é Deus mesmo. Mas, considerado quanto aos seus efeitos, ele é múltiplo, porque atinge toda a teia de relações das causas segundas

  1. Conclusão.

Sim, o destino está em Deus, como sua origem, e está nas coisas, como sua ordenação a Deus. Neste sentido, Deus e o universo criado não são antagônicos; são relacionados entre si, como quem conduz e quem é conduzido; mas não conduzido pela força, nem pelo interesse egoísta, mas pelo amor.