1. Introdução.

Perguntávamos, no texto anterior, em que medida o plano de Deus, a condução que ele faz da sua criação, está inscrita no próprio ser das coisas, e até que ponto ele se impõe autoritariamente de fora, constrangendo-as a seguir por um rumo que não necessariamente é o melhor para elas, ou não é o que escolheriam; em suma, se há uma conaturalidade entre a condução do destino pela Providência divina, por um lado, e o próprio ser das coisas, por outro. Todos os gnosticismos, quer dizer, aquelas formas de pensar que negam a bondade do mundo material e de certa forma estabelecem um contraste entre material e espiritual, entre mente e matéria, entre pensamento e extensão, parecem defender essa oposição, uma estranheza entre as coisas em sua existência material, por um lado, e a providência divina, por outro. O fato é que Deus não criou o universo como um aglomerado de coisas individuais que sofreriam o poder externo de uma condução autoritária, nem como um aglomerado sem sentido que fosse conduzido externamente a um fim. Na verdade, não há diferença entre a perfeição do ser das coisas, por um lado, e a providência divina, por outro; o ser das coisas se inclui, e inclui em si, a própria providência. E é neste sentido que se diz que o destino está, de certo modo, inscrito nas coisas. Mas estamos indo muito depressa.

No texto anterior, vimos a hipótese de que o destino, a condução do universo, o encaminhar inevitável do mundo para o fim que é Deus, não estaria inscrito nas coisas, mas seria a elas imposta de fora pelo poder infinito de Deus. Vimos também o argumento contrário de Boécio, de que o destino é algo inerente às próprias coisas. 

Vamos estudar, agora, a resposta sintetizadora de Tomás.

  1. A resposta de Tomás.

Já vimos, em textos anteriores, que Deus age ordinariamente, no mundo criado, por intermédio do poder ativo das próprias coisas criadas. A isso, a filosofia antiga descrevia dizendo que Deus é a causa primeira, e as coisas são causas segundas, no sentido de que as criaturas (sejam inanimadas, sejam simplesmente vivas, sejam inteligentes) recebem de Deus mesmo o poder de causar efeitos nas outras coisas. Isto é, as coisas têm uma estrutura interna que as torna capazes de interagir verdadeiramente umas com as outras, e sua capacidade de causar efeitos decorre do próprio poder de Deus de torná-las eficazes em suas relações. Assim, por exemplo, quando a massa de um corpo atrai a massa de outro corpo, pela força gravitacional, a gravidade existe de fato, e está inscrita na própria lógica do mundo material – e isto torna possível e verdadeira a ciência desenvolvida pela humanidade. Deus não precisa decidir, a cada vez, se um planeta vai atrair outro planeta no jogo cósmico, de tal modo que a atração gravitacional fosse algo que dependesse, digamos assim, do humor de Deus. A gravitação é uma força cósmica real, estável, inscrita no ser das coisas, com poder causal verdadeiro, mas trata-se de um poder causal, por assim dizer, de segunda ordem, porque sua causalidade tem seu fundamento no próprio poder de Deus, que estabeleceu as forças do universo criado e as fez eficazes. Deus dá, em última instância, a causalidade às próprias causas criadas. E neste sentido ele é a causa primeira das causas criadas.

Mas isso não significa que as coisas ocorrem, no universo, de modo fortuito ou ocasional, por um jogo aleatório de forças que Deus observa de longe. Não. Deus conduz o universo até onde ele queira, até o fim, harmonizando, numa ordem superior, aquilo que, para uma criatura desinformada, que observasse a partir do jogo de forças do mundo criado, pareceria apenas uma estranha série de coincidências ou uma evolução cega e casual. Deus é capaz de fazer com que seus planos se realizem sempre e infalivelmente, considerando nele a consistência da causalidade segunda das criaturas. 

Assim, prossegue Tomás, podemos analisar a ordenação dos efeitos, o encaminhar da história, o desenrolar do jogo de causalidades universais, a partir de dois pontos de vista:

  1. O próprio ponto de vista divino. Em Deus, a ordenação do jogo de causalidades, a condução ativa do universo aos seus fins infalivelmente predeterminados, é denominada de Providência Divina. Seria, diríamos, como um olhar a partir de cima, uma visão descendente da condução e do governo do universo. 
  2. Podemos, no entanto, olhar o modo como o universo se conduz a partir da interação de sua causalidade segunda, que, embora livre e consistente, acaba por ser harmonizada de tal modo que inevitavelmente se conduz, mais cedo ou mais tarde, aos fins predeterminados por Deus. A esse fenômeno, a essa harmonia infalível de consistência, causalidade, liberdade e relação, é que chamamos de destino, sem nos rendermos a qualquer tipo de fatalismo

É neste sentido que tudo adquire uma coesão amorosa, uma condução sutil e delicada que, sem violar a consistência do universo criado, considera as causas segundas como submetidas à causa primeira no sentido de se dirigir a um fim que, transcendendo cada uma delas, mas servindo-se de cada uma delas, envolve a todas. Dessa maneira é que Boécio explica a noção de que o destino não é algo externo às próprias coisas, em sua dinâmica relacional, dizendo: “o destino se realiza quando a Divina Providência se vale de alguns espíritos, ou quando as almas o servem, ou pela natureza inteira que obedece a ela, ou pelo movimento celeste dos astros, ou ainda pelos poderes angelicais ou até pelas astúcias dos demônios; é entretecendo todos estes fatores que o destino é tramado”. 

Em diversos textos, ao longo deste Tratado do governo do Universo, vimos e estudamos separadamente cada uma destas forças. 

Assim, a Divina Providência vai entretecendo os fios do destino, que não é externo às coisas criadas: é nelas e por elas, pelas suas forças causais, pela sua história, pelos seus rumos e pelo seu aperfeiçoamento, que o destino se realiza. 

  1. Encerrando por enquanto. 

O destino não é o inevitável e fatal rumo imposto às coisas e a nós por Deus. Seria melhor descrito como aquele grande bordado, aquela grande obra de arte que Deus realiza no universo, com o universo e para o universo. Não é algo estranho e imposto de fora, mas é algo que realiza aquilo que está nas próprias coisas. 

No próximo texto, munidos destes princípios, examinaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.