1. Introdução.

Será que os planos de Deus se impõem como se fosse “de fora” às criaturas? Existe verdadeiro conflito entre aquilo que as criaturas são e aquilo que Deus quer para elas? Será que a nossa liberdade se opõe à vontade e à lei de Deus? 

Há quem imagine que sim, e grande parte do pensamento moderno e contemporâneo – inclusive uma parte do pensamento teológico cristão – vê uma oposição, ou ao menos uma externalidade – entre o ser das coisas e o plano de Deus, que aqui chamamos de “destino”. É como se as criaturas fossem “forçadas” pelo destino a servir a um Deus totalitário e mandão, como bestas de carga atadas ao moinho do destino. Esta, como veremos agora, é uma concepção errônea, falsa mesmo, maligna até, da relação entre a vontade de Deus e a liberdade das criaturas. Na verdade, somente realizando a vontade de Deus é que somos livres de verdade, que somos felizes de verdade. Porque a vontade de Deus é o bem, e fomos todos – nós, criaturas racionais, e as criaturas irracionais e até mesmo as inanimadas – criados para o bem. 

Mas estamos nos adiantando. O debate que será travado agora diz respeito justamente a isso: em que medida o plano de Deus, a condução que ele faz da sua criação, está inscrita no próprio ser das coisas, e até que ponto ele se impõe autoritariamente de fora, constrangendo-as a seguir por um rumo que não necessariamente é o melhor para elas, ou não é o que escolheriam? Existe uma conaturalidade entre a condução do destino pela Providência divina, por um lado, e o próprio ser das coisas, por outro?

Vamos ao debate. 

  1. A hipótese polêmica inicial.

A hipótese polêmica inicial, proposta para provocar o debate, é a de que o destino não é algo que está nas próprias criaturas, mas é algo externo a elas, que se impõe de fora e as conduz independentemente do sentido inscrito nelas. Ou seja, o destino, entendido como a condução da história pela Providência de modo a realizar os planos de Deus, não seria, para as criaturas, aquilo que a água é para os peixes: o ambiente e a própria condição de existência, mas seria mais como aquilo que o jugo é para os bois de carga – algo artificialmente imposto para que se realizem fins externos à natureza da criatura. Há três argumentos iniciais, que tentam comprovar esta hipótese e servir de objeção a qualquer tentativa de refutá-la. Vamos examiná-los. 

  1. Os argumentos objetores iniciais. 

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor cita Santo Agostinho, que na obra Cidade de Deus nos ensina que “a vontade ou o poder divino é chamado de destino [ou fado]”. Mas a vontade divina está em Deus, e não nas criaturas. Deste modo, conclui bruscamente o argumento, o destino é algo externo às criaturas, que se encontra exclusivamente em Deus

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento lembra que o destino ou fado está para as coisas que decorrem dele como os efeitos estão para a causa. Ora, prossegue o argumento, se o destino é aquilo que conduz o universo como um todo e cada uma de suas partes, de modo inexorável e previamente decretado, para o fim desejado por Deus, é claro que a causa para esse efeito universal, que envolve mesmo aquilo que acontece de modo contingente e acidental aqui em nosso universo, só pode ser uma causa universal. Mas a causa universal, como já sabemos, é Deus, e Deus somente. Deste modo, conclui apressadamente o argumento, o destino está em Deus, e em Deus somente, e de modo nenhum nas criaturas

O terceiro argumento objetor.

Se o destino for algo intrínseco às próprias criaturas, diz o argumento, então ele pode ser uma substância ou um acidente das próprias criaturas. Em qualquer caso, no entanto, ele deve ser tão múltiplo quanto as próprias criaturas são múltiplas, porque ele estaria inserido nelas mesmas, e teria o mesmo número que tem o conjunto de todas as criaturas. Mas acontece que o destino é necessariamente algo unitário, porque é algo que se impõe a todos e conduz a todos para o mesmo fim. Não há destinos, mas apenas um destino para a criação inteira, no fim das contas. Deste modo, parece claro que o destino não é algo intrínseco às criaturas, mas existe apenas em Deus, conclui de modo apressado o argumento. 

  1. O argumento sed contra.

O argumento sed contra cita a autoridade de Boécio, que, na obra “Das Consolações da Filosofia”, ensina que “o fado [ou destino] é uma disposição inerente às próprias criaturas”. Logo, o destino é algo que é inerente às próprias criaturas, e não algo externo a elas que está apenas em Deus, conclui este argumento. 

  1. Encerrando.

Como dizíamos nos textos em que comentamos o primeiro artigo desta questão, trata-se, aqui, de afirmar a Providência e o governo de Deus não como uma fatalidade imposta desde fora às criaturas, mas como uma condução divina, amorosa e suave, que leva todos à felicidade e à realização plena e comum. 

No próximo texto estudaremos a resposta sintetizadora de Tomás.