- Retomando para finalizar.
A liberdade de Deus, que inclui orientar o universo criado para o seu fim – que é ele mesmo – não concorre nem entra em conflito com a natureza das coisas e a liberdade das criaturas inteligentes, mas as inclui numa síntese superior. É nesse sentido que podemos dizer que há algo como um “destino” ou “fado” sem cair num fatalismo de achar que tudo, todos os acontecimentos, são inflexivelmente predestinados pela vontade de Deus. Existe o acaso, existem as coincidências, existe a liberdade humana e angelical e existe o governo do universo por Deus, que leva tudo isso em conta.
Tendo debatido isto tudo nos últimos textos, examinemos agora as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais, que queriam provar que não há nenhuma espécie de fado ou destino, mas apenas o acaso e o fortuito, no universo material – posicionando-se também contra os que imaginam que os astros e estrelas, ou as forças naturais, físicas ou misteriosas, controlam de fato o universo; coisas como horóscopos, mapas astrais ou congêneres são tolos, porque não correspondem à realidade e, portanto, podem implicar desordem na relação com Deus. Examinemos agora esses argumentos e as respostas de Tomás.
- Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor lembra que o próprio Gregório Magno, Papa e Doutor da Igreja, ensinou, em um dos seus sermões, que “deve estar longe da mente dos fiéis a ideia de que há algo como fado ou destino”. Assim, o argumento conclui que não há algo como fado ou destino no universo material.
A resposta de Tomás.
Tudo o que existe neste mundo está, por decreto divino expresso e antecedente, sujeito e preordenado a alcançar seu fim de modo concreto. Neste sentido, diz Tomás, podemos admitir que existe alguma coisa como um “destino” prefixado, ou um “fado”, no sentido de que o universo fatalmente alcançará aquilo que Deus decretou para ele antes de todos os tempos.
Mas sempre houve uma tendência humana a querer controlar ou antever esse destino, atribuindo-o a forças naturais, a influências astrológicas ou a algum tipo de panteísmo que personaliza o universo em sua imanência, negando a atuação de Deus sobre ele (deísmo). Assim, muitas vezes os grandes santos e doutores da Igreja alertaram contra esse tipo de fatalismo ou revisionismo, que imputa aos astros e estrelas, ou a algum tipo de energia cósmica imanente, o controle do destino. Neste sentido, não devemos falar de fado ou de destino, porque a preordenação divina não desrespeita a autonomia da liberdade das criaturas inteligentes nem a consistência natural de todas as criaturas, nem pode ser controlada ou influenciada por coisas como a astrologia, a magia ou a necromancia. É por isso que Santo Agostinho nos ensina, na Cidade de Deus, que aqueles que defendem que há um destino preordenado para as coisas humanas, exprimindo, por esse pensamento, o respeito ao poder regente da Providência divina, pode sustentar essa opinião livremente, mas fique atento ao seu modo de falar, para não cair num fatalismo ou num pessimismo que negue a consistência do universo ou a liberdade humana, ou ainda a impossibilidade de controlar o futuro por meios mágicos. É neste sentido também que São Gregório Magno adverte os fiéis quanto a crenças falsas a respeito de um destino fatídico relacionado a astros e estrelas ou outras forças cósmicas, como lembra o argumento objetor.
O segundo argumento objetor.
Aquilo que ocorre por força do destino sempre ocorre fatalmente, isto é, não decorre de imprevisão, mas de decreto prévio que determina a maneira pela qual as coisas devem acontecer. É por isso que Santo Agostinho diz que a palavra “destino” vem de “dito” ou “decretado”. Mas aquilo que foi previamente decretado não ocorre por acaso nem fortuitamente. Logo, se existe o destino, então não existe nem o fortuito, nem o acaso, no mundo. Mas sabemos que muitas coisas ocorrem por acaso, por coincidência ou por caso fortuito, como nos ensina o senso comum e a própria ciência. Logo, não pode existir algo como o “destino”, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
É claro que há coisas que são casuais ou fortuitas, se as observarmos do ponto de vista das suas causas naturais. De fato, é por acaso que um animal se encontra muito perto de uma árvore atingida por um raio, ou que alguém se salve de uma inundação por estar num ponto alto do terreno no momento de sua ocorrência, ou que, por força de um pneu furado, deixe de tomar um avião que acabou caindo e vitimando todos os passageiros. Neste sentido, o acaso ou o fortuito estão em ação, já que são ocorrências que não podem ser inteiramente explicadas apenas pelas forças causais naturais.
Mas isto não significa que elas estejam fora da Providência divina, porque Deus é capaz de guiar o universo até os fins que prevê e decreta, respeitando a ordem interna as coisas e a liberdade humana, de modo que as coisas que são fortuitas ou casuais na ordem natural são previstas e esperadas na ordem da providência – a ponto de podermos dizer, com Santo Agostinho, que. do ponto de vista da Providência, “nada no mundo é aleatório”, mesmo sem aderir a um fatalismo natural.
- Concluindo.
Liberdade humana, ordem natural, casualidade, aleatoriedade, tudo isso existe no mundo, e tudo isso se reúne para que a criação atinja os fins predeterminados por Deus. O poder divino não concorre com a ordem natural nem com a vontade das criaturas inteligentes, mas os integra numa ordem superior de sentido. Ou, parafraseando Santo Agostinho, podemos dizer que Deus não permitiria a liberdade humana nem a aleatoriedade do mundo natural se não fosse poderoso o suficiente para dirigir tudo isso ao Bem, com sua Providência.
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