1. Retomando.

Escapar de um determinismo rígido das forças naturais, eis o desafio de uma filosofia aberta à ciência. De fato, há, no universo, aquilo que se encaminha aos seus próprios fins a partir de forças externas, puramente; mas também há aquilo, como nós próprios, seres humanos, que são capazes de se encaminhar a seus próprios fins de modo deliberado. Como entender, então, a existência dessas forças naturais, por um lado, e a possibilidade de deliberação, de liberdade, na busca de seus próprios fins, por outro? Eis o importante debate que se faz aqui.

No texto anterior, vimos a hipótese de que essa espontaneidade, essa possibilidade de deliberar e buscar livremente seus próprios fins, simplesmente não existiria; em última instância, seríamos todos simplesmente conduzidos pelas forças, pelas leis implacáveis da natureza, e a liberdade seria apenas uma ilusão. Vimos os três argumentos iniciais que tentavam provar essa hipótese, a partir da observação de que essas grandes forças naturais, como a gravidade, as forças eletromagnéticas ou mesmo as leis biológicas ou evolutivas, aplicam-se a nós inevitavelmente, mesmo que não queiramos ou não percebamos. Assim, os argumentos querem provar que, no fundo, somos inteiramente determinados por elas

O argumento sed contra demonstra que essas forças naturais não têm um poder determinista implacável nem sequer no próprio campo físico e biológico, uma vez que vemos, em algumas oportunidades, a possibilidade de driblar ou controlar seus efeitos ou até mesmo de que eles falhem, como nos casos de eventos meteorológicos imprevisíveis. Este argumento parece, inclusive, prever aquilo que, em nosso tempo, chamamos de “teoria do caos” ou mesmo as leis um tanto confusas da física quântica. Assim, se nem sequer para os fenômenos físicos ou biológicos essas leis são implacáveis, tampouco para nós elas podem ter essa natureza determinista, conclui o argumento. 

Examinemos, agora, a própria resposta sintetizadora de Tomás sobre o assunto.  

  1. A resposta sintetizadora de Tomás.

O determinismo das forças naturais, a vontade e a liberdade.

De fato, toda esta questão 115 discute justamente a influência das forças físicas, químicas e biológicas sobre o provir dos entes criados, em especial dos entes materiais – mas não só eles, já que, como vimos, o artigo anterior a este tratou justamente da influência dessas leis sobre os demônios. 

Não há dúvida de que as grandes forças físicas, químicas e biológicas exercem grande influência sobre os entes corpóreos; mas, embora exerçam influência sobre nós, elas não podem determinar a vontade humana inteiramente. De fato, a vontade humana tem uma dimensão imaterial, o que significa que ela pode conduzir-se para além das determinações naturais; o ser humano é capaz de espontaneidade, de deliberação, enfim, de liberdade e da criação de cultura, isto é, da alteração do mundo material do seu entorno a partir da sua atuação livre. Ou seja, as forças naturais não são capazes de determinar inteiramente o agir humano. 

Os entes inanimados e os seres vivos desprovidos de inteligência e vontade.

Os seres corporais desprovidos de inteligência e vontade estão inteiramente sujeitos às leis naturais, físicas, químicas e biológicas, em sua existência e em seu porvir. Assim, para todos estes seres, há o determinismo das leis físicas, e tudo neles se realiza e é conduzido como que “de fora”, já que o poder das forças naturais exerce, neles, uma causalidade inapelável e inescapável – ou ao menos assim acreditavam a maior parte dos filósofos e dos cientistas antigos. Tudo o que existe, pensavam eles, tem uma causa, e uma vez que a causa se apresenta, o efeito se segue necessariamente. Por isso, eles entendiam o mundo material, o universo natural, como um grande relógio, um mecanismo implacável e determinista. 

Hoje, sabemos que, mesmo no universo natural, esse determinismo não é tão implacável; hoje, conhecemos, por exemplo, os princípios da física quântica e da teoria do caos, pelos quais podemos dizer que nem sempre as causas naturais atuam implacavelmente sobre os entes naturais. Disso Aristóteles já intuía, e, já no seu tempo, tentou refutar o determinismo naturalista com dois argumentos:

  1. Não é verdade, alega Aristóteles, que, toda vez que se dá uma causa, o efeito se siga necessariamente. De fato, as causas naturais, como as forças físicas, químicas e biológicas, aplicam-se na maior parte das vezes, mas podem falhar em alguma ocasião, pelo advento de alguma causa superveniente que impede a realização do efeito. assim, por exemplo, as coisas mais pesadas do que o ar tendem a ser atraídas pela gravidade, mas os aviões podem voar sem que a gravidade os atraia inevitavelmente para o chão. Essa objeção, no entanto, diz Tomás, não consegue negar o determinismo, mas simplesmente muda o problema de lugar. De fato, mesmo que a lei da gravidade reste impedida, ela fica impedida por outras leis, como a lei da tensão superficial e da massa dos gases, as leis da aerodinâmica e da sustentação, que se aplicam sem negar o determinismo natural. Portanto, essa não é uma maneira adequada de negar o determinismo das leis naturais, diz Tomás. 
  2. A outra maneira de negar esse determinismo mecanicista, diz Aristóteles, é fazer a diferença entre aquilo que é substancial e aquilo que é acidental. Para aquilo que é substancial, a causalidade é inflexível; dado um combustível, um comburente e uma fonte de calor intenso, a combustão necessariamente se instaura. Mas não é necessário que, em cada momento e em cada ponto da história, esses três elementos se encontrem necessariamente. o encontro dos elementos é circunstancial, acidental, histórico, e portanto não está sujeito a leis inflexíveis. Podem transcorrer milênios até que uma determinada fonte de combustíveis encontre um comburente e uma fonte de ignição, de modo que a simples existência do combustível não implica necessariamente a existência do fogo. Esse encontro é casual e, portanto, não pode ser explicado de modo determinista.

Tomás concorda com esse segundo argumento. De fato, diz ele, um músico pode ser alguém branco, negro ou indígena, e essa relação entre ser músico e ser de determinada etnia é algo acdentasl, casual, e portanto não se explica de modo determinista. De modo que nem mesmo o mundo das coisas naturais está sujeita implacavelmente às leis naturais de modo determinista, conclui ele. 

  1. Encerrando por enquanto.

Para entender adequadamente o pensamento de Tomás, às vezes precisamos fazer uma verdadeira tradução dos conceitos dele para o nosso tempo. No caso concreto que estamos estudando, sabemos que aquilo que imputamos, hoje, às forças físicas ou biológicas, às leis da química ou da evolução, era imputado, no tempo de Tomás, às influências dos astros e estrelas na nossa vida. Mas é a mesma realidade, do ponto de vista fenomenológico: não é por causa da lua ou dos planetas que a gravidade existe, como sabemos hoje. Mas ela existe para nós, como existiu um dia para Tomás. É preciso, pois, entender de que fenômenos ele está falando, para entender suas propostas.

No próximo texto examinaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.