- Introdução.
Sabemos que a modernidade, pelo menos até o desenvolvimento da física quântica, vê o universo material como um grande mecanismo, um grande relógio em que todas as partes funcionam num regime determinista. Assim, o matemático francês Laplace imaginava que se conseguíssemos criar um computador grande o bastante para conhecer a posição e a velocidade de todas as partículas que compõem o universo, ele seria capaz de prever o futuro, como um relojoeiro é capaz de prever onde estarão os ponteiros do relógio daqui a algum tempo. Num universo assim, estritamente mecânico, mesmo a liberdade humana seria apenas aparente, porque nós também somos corporais e, portanto, também sujeitos às forças mecânicas do mundo físico. É claro que a física quântica alterou esse panorama, porque postula que não há como saber – e mesmo o computador mais poderoso não saberia – simultaneamente qual a posição e a velocidade de todas as partículas materiais do universo, de tal modo que resta sempre uma incerteza com relação ao futuro.
Essa intuição quanto à margem de liberdade frente às forças físicas já estava presente em Tomás, e essa discussão sobre o determinismo do universo não era estranha a ele, embora a ciência de seu tempo fosse muito limitada. Aqui também podemos admirar a imensa capacidade de Tomás de chegar às intuições corretas mesmo sem ter todos os elementos científicos que temos hoje. Examinemos este interessante debate sobre determinismo, mecanicismo e liberdade.
- A hipótese polêmica inicial.
A hipótese polêmica, controvertida, que é proposta logo no início deste debate, é a de que as forças naturais do cosmos (como a evolução, a gravitação, as forças eletromagnéticas, etc.), impõem determinismo a todos os entes que estão sujeitos à sua influência. Assim, por exemplo, a vontade humana seria determinada, na verdade, por forças inconscientes, impessoais, que regem todo o universo – o que é um pensamento que está muito presente ainda hoje – veja-se, por exemplo, os darwinistas, os materialistas, os freudianos radicais ou certos economistas. Há três argumentos objetores iniciais que tentam comprovar essa hipótese. Vamos examiná-los.
- Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento parte da ideia de que, pensando em termos de causas, é fácil observar que, uma vez que as causas suficientes para um efeito ocorrem, o efeito se segue necessariamente. Por exemplo, se soltarmos uma pedra no ar, a gravidade agirá necessariamente, e a pedra será atraída para a Terra, e assim por diante. Ora, estamos todos submetidos às grandes forças cósmicas universais, que causam em nós os efeitos que lhes são próprios. Os entes corporais, como nós, não podem escapar das forças físicas e naturais. Assim, as grandes forças do universo natural físico são deterministas, com relação a todas as coisas corporais, inclusive nós próprios, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
Aquele agente que tem o poder de submeter a matéria completamente é capaz de determiná-la completamente. Assim, por exemplo, as grandes forças gravitacionais estão presentes em toda e qualquer quantidade de matéria, e nada do que é material pode escapar dela. Assim também se poderia dizer de outras forças como as forças eletromagnéticas ou talvez as leis da evolução ou da troca de energia. Ora, todos os entes que são materiais são submetidos inteiramente a essas forças, que as dominam completamente. Logo, o poder dessas forças sobre os entes corpóreos é inescapável, e portanto elas exercem um poder determinista sobre nós, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
Quando as forças físicas e naturais não se aplicam a algum ente material, isto só pode se dar porque há alguma outra força física ou natural que impede essa aplicação. Mas este “algo” que impede a aplicação de uma força física só pode ser, por outro lado, uma outra força física. Assim, por exemplo, alguma força de aceleração pode impedir a força da gravidade de aprisionar um corpo num determinado planeta. Mas, neste caso, o ente não está liberado das forças físicas, mas apenas sujeito a uma outra força física que superou a primeira.
Ora, se as coisas são assim, isto significa que apenas uma outra força física ou natural poderia liberar o ente material dos efeitos de alguma força física ou material; neste caso, porém, o ente não está livre do conjunto das forças físicas, mas apenas de uma delas, anulada por outra. Portanto, não há maneira de um ente corpóreo se liberar do determinismo do conjunto das forças físicas do mundo material, conclui o argumento.
- O argumento sed contra.
O argumento sed contra lembra que esse determinismo absoluto não existe nem sequer com as coisas inanimadas; o que, aliás, se confirma pelo desenvolvimento da física quântica. Existe sempre a possibilidade de que, numa situação concreta, uma condição inesperada faça com que as leis da física não se aplique, ou não se aplique inteiramente, ao menos no nível molecular. Mas até mesmo no nível das coisas visíveis inanimadas, há um certo grau de indeterminismo quântico. No caso das coisas vivas, e mais ainda das coisas dotadas de sensibilidade e de inteligência, a influência das forças físicas não representa uma determinação implacável, porque há sempre a capacidade de iniciativa que é própria da vida. Logo, não há um determinismo absoluto das leis físicas e das demais leis naturais sobre os entes materiais, conclui o argumento.
- Encerrando por enquanto.
A questão do determinismo, em oposição com a imprevisibilidade e a liberdade, é central em qualquer debate filosófico ou teológico, mesmo após oito séculos do advento da Suma Teológica. Acompanharemos o prosseguimento deste debate nos próximos textos.
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