1. Retomando para concluir.

Vimos, nos últimos textos, que esses seres malvados estão no campo espiritual, e portanto não sofrem a influência das forças físicas do cosmos – ao contrário, têm poder sobre elas. Em suma, a nossa ciência, derivada da experimentação e do controle sobre as forças do cosmos, não pode controlar o mal.

Vimos também que o mal não está nas coisas, mas na vontade – humana e, mais ainda, na vontade espiritual dos demônios. 

Examinaremos, agora, tendo tais princípios, as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais, que tentavam comprovar que os demônios estão sujeitos às forças cósmicas do universo material.

  1. Os argumentos objetores iniciais e as respostas de Tomás.

O primeiro argumento objetor.

Em todas as culturas – e mesmo na nossa – observa-se uma grande influência das fases da lua no humor e no comportamento das pessoas, de tal modo que pessoas muito desequilibradas são chamadas de “lunáticos”. Ora, se os demônios são capazes de influenciar as pessoas, e se essa influência varia conforme a fase da lua, então parece claro que podemos afirmar que os demônios sofrem influência da lua, e portanto das forças do universo material, conclui erroneamente o argumento. 

A resposta de Tomás.

Há duas razões, diz Tomás, pelas quais os demônios aproveitam a eventual fragilização dos seres humanos pelas fases da lua para agir sobre eles, sem que isto signifique que os próprios demônios sofrem alguma influência da lua:

A primeira razão é a de criar má fama para coisas boas, criadas por Deus, como a lua e suas fases. É o que ensinam padres da Igreja como São Jerônimo e São João Crisóstomo. Fazendo coincidir sua influência com um ciclo natural de um corpo celeste, eles podem, ao mesmo tempo, esconder-se e difamar uma realidade natural boa com a culpa que pertence a eles. 

A segunda razão é que há, de fato, uma influência dos ciclos naturais do universo sobre os processos do corpo humano, de tal modo que, em alguns momentos – como durante a noite, durante o inverno ou mesmo durante longos períodos sem sol – o cérebro humano fica mais desequilibrado em seus hormônios e interações, sendo mais suscetível de influências malignas. Assim, os demônios se valem dos ciclos naturais para atacar no momento em que estamos mais fragilizados. Sem que isto signifique, no entanto, que eles próprios sofram qualquer influência dos ciclos cósmicos do mundo físico.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento objetor lembra que os feiticeiros e médiuns usam certos períodos do dia, da semana ou do mês, relacionando-os com certas constelações ou signos do zodíaco, para invocar demônios e entrar em contato com o mundo espiritual. Ora, eles não usariam esses fatores cósmicos e esses ciclos do mundo material para fazer isso se os próprios demônios não sofressem a influência de suas forças; logo, mesmo os demônios são sujeitos a forças físicas do mundo material, conclui o argumento.

A resposta de Tomás. 

Há, também aqui, duas razões possíveis para explicar essa relação que os feiticeiros, visionários, satanistas e médiuns encontram entre certas estruturas cósmicas materiais, certos ciclos físicos como o dia e a noite, e a invocação de espíritos e demônios:

  1. Em primeiro lugar, trata-se de enganar os seres humanos, para que pensem que há poderes sobrenaturais nas estruturas do cosmos como constelações, astros e estrelas, desviando seu olhar da verdadeira providência divina, e
  2. Porque, de fato, como já foi dito na resposta à primeira objeção, determinados ciclos cósmicos nos atingem e nos fragilizam, deixando-nos menos vigilantes e mais suscetíveis a ataques demoníacos.

Assim, não é por sofrerem influência das forças do mundo físico, mas por poderem usar essas forças em seu favor, que os demônios são invocados principalmente sob determinadas condições de tempo e lugar. 

O terceiro argumento objetor.

Os corpos celestes, por sua massa, pela força da gravidade e por outros fatores físicos, são muito mais importantes para os grandes ciclos universais e para o equilíbrio do universo inteiro do que simples entes do planeta Terra. Mas todas as culturas já notaram que determinadas coisas da Terra, como alimentos, ervas, minerais e mesmo combinações de coisas ou de rituais e sons, ou mesmo de encenações e de cenários, exercem influência sobre os demônios; daí as oferendas, os ritos, os sacrifícios satânicos e tantas outras práticas que muitas culturas conhecem. Logo, se coisas prosaicas da Terra podem exercer influência sobre os demônios, devemos concluir, diz apressadamente o argumento, que os astros e estrelas e suas forças cósmicas, que são muito mais poderosas, devem exercer influência sobre os demônios

A resposta de Tomás.

Quando os demônios são invocados ou apaziguados por determinados minerais, alimentos, oferendas e ritos, isso não se dá por alguma influência física que esses elementos exercem sobre os demônios, como, por exemplo, no caso de animais que são atraídos por iscas. Não se trata de algum “instinto” ou sensibilidade dos demônios a esses elementos, mas simplesmente porque esses elementos são, para eles, como um tipo de “culto religioso”, como se aqueles que os oferecem estivessem idolatrando os demônios como deuses, o que os agrada e infla sua vaidade. Não se pode deduzir daí que os demônios sofram qualquer influência real de coisas materiais, conclui Tomás. 

  1. Concluindo.

Os demônios não sofrem influências físicas. Não estão sujeitos de nenhum modo a forças materiais de nosso universo. Ao contrário, são capazes de manipulá-las em seu favor.