1. Retomando.

É muito fácil esquecer, e muitas vezes realmente esquecemos, que o mal não é um evento material, embora possamos dizer que uma catástrofe natural, como uma enchente ou um furacão, são “maus”. Eles só são “maus” num sentido analógico, secundário, na medida que podem provocar sofrimento humano. O mal verdadeiro não é material, mas espiritual, e não é um acontecimento nem uma coisa, mas um ser pessoal, o Diabo (e seus demônios). Que, apesar das tolas crenças dos que recorrem a ele abertamente ou dos que caem sob sua influência de modo inadvertido, não pode ser controlado por nada do mundo material. O mundo material não tem poder sobre ele; é justamente o contrário: ele tem poder sobre o mundo material.

Vimos, no texto anterior, a hipótese de que as grandes forças cosmológicas, como as forças físicas fundamentais, ou as leis biológicas e químicas, teriam alguma influência e poder sobre os próprios demônios, e vimos os três argumentos objetores iniciais que tentavam comprovar esta hipótese. Vimos também o argumento contrário, que dizia que, uma vez que os demônios são entes pessoais de natureza puramente espiritual, como anjos que são, o mundo material e suas leis e relações não teria poder sobre eles.

Examinemos agora a resposta de Tomás sobre este assunto.

  1. A resposta sintetizadora de Tomás. 

Existem três visões fundamentais sobre a questão dos anjos e demônios, diz Tomás. Existe uma visão cientificista, materialista, de origem aristotélica e muito difundida hoje em dia, 800 anos após a Suma Teológica. Para essa corrente majoritária, os fenômenos que nos parecem imateriais são apenas efeitos de interações entre as coisas materiais, e podem ser completamente explicados por essas interações. Eles seriam aquilo que a filosofia, hoje em dia, chama de “epifenômenos”, ou seja, efeitos que se apresentam para nós, mas que não ultrapassam a capacidade de causalidade do mundo material, com suas leis e regras de causalidade. Assim, no fundo, todos os fenômenos espirituais que os antigos atribuíam a anjos e demônios são apenas efeitos das próprias forças físicas do universo, incluídas, aí, as forças químicas e biológicas. É por isso que Santo Agostinho cita, quanto a isso, a opinião de Porfírio, para quem esses efeitos que atribuímos aos demônios são, no fundo, produto da própria atividade humana, manipulando as forças da natureza.

Mas esta opinião é falsa, ensina Tomás. Ela não explica certos fenômenos que ultrapassam a causalidade natural, material, como o fato de que algumas pessoas, sob a influência de demônios, começam a falar em línguas que nunca aprenderam ou a manifestar uma força física descomunal, ou mesmo manifestar conhecimentos de coisas ocultas a eles ou além da sua possibilidade de conhecimento, como a visão de objetos escondidos ou a menção a textos de autores que ignoram. Há, aí, fenômenos que não podem ser explicados apenas por causas do mundo físico, e que apontam para a existência de causas mais elevadas, de ordem imaterial

Por causa dessa constatação, houve o crescimento de uma corrente contrária, de fundo platônico, que propõe que existem seres dotados de alguma espécie de realidade muito sutil, uma espécie de “corpo invisível”, com algum tipo de matéria sutilíssima, muito rarefeita, mas ainda assim algo intramundano, e portanto sujeito às leis do mundo físico; deste modo, o mundo físico incluiria esses seres rarefeitos, mas estes seres também estariam sujeitos às mesmas forças físicas que nós – embora de um modo próprio, menos gravoso do que o nosso corpo humano. Mas, diz Tomás, isto também é falso, porque os anjos e demônios não são corporais de modo algum, como já vimos no Tratado dos Anjos (questões 50 a 64 desta primeira parte, já comentada por nós). 

Na verdade, os demônios são pessoais, são centros de inteligência e vontade, agentes sobre o mundo material mas não submetidos a ele. O mundo material sofre a ação dos demônios, mas não age sobre eles. Nem as leis da física, nem as grandes forças cósmicas, nem as leis da biologia ou da química têm qualquer poder sobre os demônios. Nem poder direto, nem poder indireto. 

  1. Encerrando por enquanto.

Não é difícil imaginar que seres espirituais malignos, pessoais e poderosos, com poder sobre o universo material mas livres de submissão às leis naturais do nosso cosmos, poderiam ser facilmente confundidos com deuses – e de fato o foram, em quase todas as culturas humanas. Não é pequeno, portanto, o passo que a teologia judaico-cristã deu, ao considerá-los como criaturas e não como deuses.

No próximo texto examinaremos as respostas de Tomás sobre este assunto.