- Introdução.
Para nós, humanos, é muito difícil imaginar a existência de seres estritamente espirituais que sejam, ao mesmo tempo, pessoais e agentes. Estamos acostumados, hoje em dia, a pensar em coisas como forças e leis impessoais como a realidade que ultrapassa aquilo que é estritamente material. Assim, tendemos, por exemplo, a imputar a desequilíbrios químicos ou físicos todos os desequilíbrios pessoais dos seres humanos que provocam sofrimento espiritual. Mas para os antigos não era assim – por um lado, eles sabiam que situações concretas, como a privação de alimentos e relações adequadas, seriam explicações adequadas para muitos sofrimentos espirituais, mas, por outro, sabiam também que outras forças inteligentes estavam em jogo, provocando sofrimento em nós. Em que medida esses seres inteligentes e ativos, que chamamos de demônios porque são deliberadamente causadores de sofrimento e desamor, estão sujeitos às mesmas forças cósmicas que agem sobre o mundo material? É o que debateremos aqui.
- A hipótese polêmica inicial.
A hipótese inicial, que visa provocar o debate, propõe que mesmo os demônios estão sujeitos à influência, e mesmo à determinação (no sentido determinista mesmo) das forças físicas do universo material em seu existir e em seu agir. Existem três argumentos iniciais que tentam provar esta hipótese. Vamos examiná-los.
- Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
As forças físicas e biológicas, diz o argumento, têm inegável efeito sobre os sofrimentos espirituais humanos. De fato, podemos ver que determinados fenômenos demoníacos, como as manias e a depressão, estão associadas a determinadas épocas do ano, como o inverno e a noite, ou a fases da lua, como no caso de determinados fenômenos de sofrimento que atingem os seres humanos mais duramente na lua cheia ou na lua nova – daí que os antigos costumavam chamar as pessoas que estavam sujeitas a essas influências de “lunáticos”. Ora, isto parece demonstrar que mesmo os demônios, quando agem sobre nós, sofrem as influências das grandes forças físicas e biológicas que regem o universo material, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
Vemos que muitos satanistas e feiticeiros preferem agir em determinadas horas do dia, como as horas muito avançadas de certas noites, como as noites de lua cheia. Ora, isto não teria nenhum sentido se estas condições físicas não tivessem influência sobre os demônios que buscam invocar. Logo, os demônios estão sujeitos a forças físicas, como todos os seres materiais e os astros e estrelas, conclui apressadamente o argumento.
O terceiro argumento objetor.
A ciência do tempo de Tomás considerava que os corpos celestes, como astros e estrelas, seriam compostos de uma matéria mais nobre do que os seres materiais terrestres. Mas, mesmo em nosso tempo, sabemos que os corpos celestes são muito mais complexos e ricos do que podemos imaginar em nossa limitada ciência, comparados com as coisas que existem aqui mesmo na Terra. Ora, sabemos que, nas atividades que se relacionam com os demônios, quer para invocá-los, quer para expulsá-los, são usadas coisas materiais da Terra, como a água, certos animais e certos minerais. Portanto, diz o argumento, se coisas terrenas têm influência sobre os demônios, quer para invocá-los, quer para expulsá-los, muito mais devem ter influência sobre eles as grandes forças cósmicas que regem inclusive os grandes corpos celestes, conclui o argumento.
- O argumento sed contra.
Aquilo que é imaterial, espiritual, pessoal, invisível, é sempre superior àquilo que é puramente material: posso destruir um triângulo de papel, mas não posso destruir a própria noção de triângulo, que é imaterial, e portanto espiritual. Assim, as leis físicas, biológicas, químicas, etc., que regem as dinâmicas do mundo material, não podem condicionar o mundo imaterial, espiritual, ao qual pertencem também os demônios. Portanto, os demônios não sofrem influência nem são determinados pelas leis que regem o mundo material, conclui o argumento que se coloca contra a hipótese inicial.
- Encerrando por enquanto.
O Papa Francisco tem reiterado, em seus ensinamentos, que não devemos ignorar a existência do Maligno, ou seja, desses seres pessoais e perversos que são os demônios. O mal não é simplesmente uma categoria de pensamento, uma energia ou uma lei impessoal: ele se apresenta concretamente como uma pessoa espiritual poderosíssima, capaz de influenciar a nossa realidade, mas completamente imune às influências que nossa realidade material possa gerar.
No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de Tomás sobre este debate.
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