1. Retomando para concluir. 

Vimos, então, nos textos anteriores, que somos seres corporais, em unidade de corpo e alma espiritual. Assim, há influência das forças cósmicas, das grandes forças físicas, sobre nós, por via dos nossos corpos. E, por meio deles, na nossa sensibilidade, que depende dos órgãos dos sentidos, que são corporais, é claro que a nossa dimensão animal, que é sensorial, influi em nossa inteligência e nossa vontade, já que aprendemos aquilo que conseguimos captar com nossos sentidos. Mas, no final das contas, nossa inteligência e nossa vontade não são atributos corporais, mas espirituais, e, portanto, são relativamente livres, com relação às influências das leis físicas do cosmos. É neste sentido que Hannah Arendt, na “Condição Humana”, diz que o nascimento de um ser humano é o único fenômeno do mundo natural capaz de romper os determinismos e inserir algo novo no universo.

De posse destes princípios, vamos revisitar, agora, os argumentos objetores iniciais, que tentavam comprovar que o ser humano está completamente à mercê dos determinismos do universo físico; estudemos as respostas que Tomás dá a cada uma delas, e que podem nos ensinar muito.

  1. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas. 

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor lembra que as forças que regem o universo – que, na concepção da ciência do tempo de Tomás são forças angelicais pessoais, muito poderosas, que incidem também nos corpos humanos; hoje, consideramos que essas forças, como a força gravitacional e as forças eletromagnéticas, são impessoais e invariáveis – superam nossa capacidade de resistir a elas, porque são mais poderosas do que nós. Assim, essas forças determinam nosso comportamento, nossas escolhas, nossa alma, que também são coisas do mesmo universo, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás

As forças que regem o universo – sejam elas pessoais, como acreditava a ciência do passado, ou pessoais, como acreditamos hoje – agem diretamente apenas sobre as coisas corporais, e não sobre as coisas espirituais, como nossa inteligência e nossa vontade. Assim, nossa inteligência e nossa vontade não estão determinadas pelas forças físicas do cosmos. É certo que há forças espirituais como os anjos e os demônios que podem influenciar diretamente nossa alma espiritual, iluminando-a ou tentando-nos, mas não têm poder coativo, determinista, sobre nossa liberdade. 

O segundo argumento objetor.

Tudo aquilo que se apresenta como concreto, individualizado e múltiplo pode ser melhor compreendido quando reduzido a um princípio ou lei unitária que o explique – eis um princípio que ainda é válido mesmo hoje, oitocentos anos depois da Suma, e que guia a busca, pela ciência, de leis e princípios fundamentais que possibilitem a compreensão do universo.

Ora, a conduta humana, em sua concretude, é múltipla e variada; é razoável, portanto, perquirir qual a lei ou princípio que é capaz de explicar, de um ponto de vista mais elevado, científico, toda essa variedade, como princípio fundamental. dado que os seres humanos são seres materiais vivendo num cosmos material, nada mais razoável do que imaginar que as leis fundamentais da física, que regem todo o universo, também rejam nossas condutas. Portanto, estamos sujeitos, de modo determinístico, às mesmas leis que regem o movimento dos corpos celestes, conclui apressadamente o argumento. 

A resposta de Tomás. 

Podemos, de fato, reduzir toda a multiplicidade da conduta humana a um único princípio, e ele não é um princípio físico, como as leis da gravidade ou as leis do eletromagnetismo, nem é uma lei biológica como a genética ou a seleção natural. Essas leis e esses princípios de fato atingem o ser humano, influenciando-o, porque ele é uma criatura material inserida num cosmos material; mas não são capazes de controlar ou determinar a conduta humana. A lei fundamental, que explica a diversidade da conduta humana, é a lei da liberdade, que consiste fundamentalmente na livre adesão ao amor de Deus, que é o nosso último fim. Assim, é pela adesão ou pela rejeição do amor de Deus na concretude da vida histórica que se explica a diversidade do proceder humano. 

O terceiro argumento objetor.

Há duas categorias de conhecimentos que procuram predizer o futuro dos seres humanos: os astrólogos, que se fundamentam em supostas correlações entre os astros e estrelas, por um lado, e no comportamento humano, por outro; e alguns cientistas que creem no completo determinismo do ser humano pelas forças físicas, biológicas e evolutivas, por outro. Ambos, muitas vezes, acertam suas previsões. Ora, eles não teriam uma taxa de sucesso em suas previsões se não houvesse, de fato, a determinação do comportamento humano pelas forças cósmicas. Assim, o argumento conclui, imprudentemente, que são as forças cósmicas, naturais, que determinam o comportamento humano.

A resposta de Tomás.

Não há dúvida de que muitos seres humanos vivem apenas sob as forças naturais, dominados pelas suas inclinações, pelos seus afetos cegos e pelas influências de forças externas como os instintos biológicos, as injunções evolutivas, as forças físicas e mesmo as estruturas sociais tradicionais. É por isso que os cientistas são, muitas vezes, capazes de prever o modo pelo qual os seres humanos se comportarão. Mas isto não significa que os seres humanos sejam completamente dominados por forças deterministas, ou que a liberdade humana seja ilusória. Significa apenas que são poucos, dentre nós, aqueles que conseguem exercer sua liberdade e cooperar com a graça de Deus. 

  1. Concluindo.

Tomás sempre teve muito respeito pela ciência de seu tempo. E no tempo de Tomás não havia separação entre astronomia e astrologia, como temos hoje. Para nós, hoje, a astronomia tem o status de ciência, mas a astrologia é apenas pseudociência, crendice popular. Mas este não é o centro do debate aqui. 

O centro do debate é a liberdade humana frente aos determinismos físicos e biológicos. Tomás não hesita em defender nossa liberdade, que é a natureza espiritual de nossa alma. Ela não está submetida a determinismos que pudessem ser manipulados cientificamente. E, graças a sua natureza espiritual, nunca estará.