1. Retomando. 

O debate, aqui, visa a credulidade humana, existente ainda hoje, de que os corpos celestes, como astros e estrelas, influenciam como concausas, ou mesmo determinam, os movimentos da vontade e do intelecto humano, isto é, o quão confiável seria a astrologia. Dado que, mesmo hoje, ainda há muita gente que acredita em previsões astrológicas, ou ao menos dá uma olhada nos horóscopos diários, não é um debate sem importância.

Vimos, no texto anterior, a hipótese inicial de que a astrologia teria um lastro científico, isto é, os astros e estrelas determinariam os atos livres do ser humano – a inteligência e, principalmente, a vontade. Vimos os três argumentos iniciais: o primeiro argumento diz que as forças que controlam o universo, sendo poderosíssimas e diretamente subordinadas a Deus, e tendo natureza angelical e inteligente, necessariamente incidiram sobre nossa vontade, determinando-a. O segundo argumento afirma que, do mesmo modo que as grandes leis físicas unificam os movimentos concretos das coisas, as grandes forças cósmicas seriam a causa unificadora do comportamento humano concreto. O terceiro argumento, finalmente, lembra que muitas previsões dos astrólogos se concretizaram, o que demonstraria que essas forças teriam grande influência sobre nós, nossa inteligência e principalmente nossa vontade.

Finalmente o argumento contrário simplesmente resgatou o ensinamento de São João Damasceno, Padre grego, que ensinava que os astros e estrelas não são de nenhum modo causa do comportamento humano livre. 

Feita esta breve revisão, examinemos agora a resposta sintetizadora de Tomás, na qual ele nos apontará um caminho para esclarecer o debate.

  1. A resposta sintetizadora de Tomás.

As forças cósmicas determinando as coisas materiais.

Tomás lembra que já ficou bem estabelecido, no estudo do artigo anterior a este, que as forças cósmicas exercem influência direta sobre tudo aquilo que é corpóreo, na Terra; isto é, estados basicamente sujeitos à influência dos astros e estrelas, no que diz respeito aos seres corpóreos da Terra e à sua submissão às forças físicas universais. Assim, as marés, a sucessão de dias e noites, a sucessão das estações, a gravidade e sua influência recíproca nos astros e estrelas, tudo isto se aplica sobre os entes materiais que estão na Terra – nossos corpos, inclusive. A influência, portanto, dos astros e estrelas sobre nossos corpos é inegável e direta, nesse sentido. 

Com isso, podemos afirmar que essas forças cósmicas atuam também sobre as faculdades sensíveis de nossa alma, já que elas dependem de órgãos corporais, materiais, para se atualizar. Por isso, a luz do sol permite que enxerguemos o mundo, enquanto a noite sem lua nos impede de ver. O movimento dos astros pode influir sobre a atmosfera, atingindo nosso tato com a variação de temperatura, por exemplo. Assim, podemos dizer que as forças cósmicas exercem influência direta, mas acidental, sobre as faculdades sensíveis: não é por causa dos astros que temos a capacidade de enxergar, mas sem as influências dos astros não podemos atualizar naturalmente essa capacidade. 

As faculdades espirituais são essencialmente imateriais.

Mas o intelecto e a vontade não são faculdades subordinadas a órgãos corporais, embora tenham influência indireta desses órgãos. É certo que alguns filósofos (e mesmo muitos psiquiatras e neurologistas dos nossos tempos, tão distantes de Tomás) consideram que a inteligência e a vontade humanas não são propriamente faculdades espirituais (e portanto imateriais), mas apenas fenômenos derivados das faculdades sensíveis e dos instintos apurados pela evolução. Para os que pensam assim, não há como escapar da ideia de que as forças físicas universais não somente influenciam, mas até condicionam e determinam nossa inteligência e nossa vontade, isto é, aquilo que conhecemos e aquilo que queremos. Nossos atos aparentemente livres, portanto, para os que pensam assim, não são mais do que instintos animais refinados, e portanto não escapam das determinações das forças físicas e cósmicas. Seríamos, nós humanos, apenas animais instintivos, embora com instintos mais complexos. 

A liberdade e a autodeterminação perante as forças físicas do cosmos.

Se admitimos que a inteligência e a vontade humanas são epifenômenos estritamente ligados ao corpo e suas faculdades, e nada mais são do que instintos animais muito sofisticados, então concluiremos que, no fundo, o ser humano não é livre, mas é um ser determinado pelas forças físicas. A liberdade humana seria algo, no fundo, ilusório, e as mesmas forças que regem os astros também regem nossas escolhas. Mas esta conclusão é insatisfatória, porque sabemos que o ser humano é capaz de introduzir novidade no mundo, novidade que não pode ser explicada apenas por determinismos físicos. Em suma, é indiscutível que o ser humano não é inteiramente determinado, em suas faculdades espirituais, pelas forças físicas que regem o universo. Há um grau de livre arbítrio em seu pensar e em seu agir.

É claro que, mesmo que saibamos que há um grau de livre arbítrio no ser humano, decorrente do fato de que a inteligência e a vontade são faculdades imateriais – ou seja, não somos totalmente determinados pelas forças físicas do universo material – não se pode negar o fato de que nós, humanos, somos seres corporais, e mesmo nossas faculdades imateriais são faculdades de um ser corpóreo. Assim, nossa dimensão corpórea e nossa biologia animal exercem forte influência sobre nossas faculdades espirituais: se estamos doentes, tristes, mal humorados, se não confiamos no interlocutor ou se, de algum modo, não temos as condições materiais para exercer nossos sentidos sobre o objeto do nosso conhecimento, então conheceremos mal, ou mesmo nos equivocaremos. Se conhecemos mal o mundo, também exercemos mal nossas capacidades de escolha, ou seja, nossa vontade. Quer dizer, nossa liberdade, embora imaterial, sofre influência das condições materiais do mundo, também. 

É claro que essa influência é muito mais forte sobre o intelecto do que sobre a vontade.  Mesmo alguém com poucos conhecimentos, em virtude de limitações materiais – pobreza, deficiências, isolamento, falta de acesso a estudo, etc. – pode ter virtudes morais muito bem constituídas, de tal modo a fazer boas escolhas mesmo diante de limites intelectuais. É claro que as escolhas sofrem influência do meio material em que vivemos, mas não são determinadas por ele. Temos um grau de independência.

Assim, as forças cósmicas, os astros e estrelas, as leis da física, tudo isto pode exercer influência sobre nosso intelecto e sobre nossa vontade. Muito mais sobre o intelecto do que sobre a vontade, como vimos. E a vontade é a causa própria dos atos humanos – é a raiz da liberdade. Deste modo, não há determinismo, mas apenas influência, das forças físicas, das leis cósmicas e dos corpos celestes sobre nossa liberdade

Portanto, aqueles que defendem qualquer grau de determinismo natural ou físico sobre nossas capacidades espirituais são, no fundo, materialistas ou biologistas, pensadores que acreditam que não somos essencialmente diferentes dos outros seres vivos; creem que, essencialmente, nossa aparente liberdade não passa de instintos muito desenvolvidos, moldados talvez pelas forças evolutivas ou pelo acaso. Mas não diferentes dos sentidos dos outros animais. Negam, portanto, que nossa alma seja espiritual. 

Mas não há dúvida de que muitos acreditam que o ser humano é apenas um ser patético, desprovido de qualquer poder perante o destino, as forças naturais e os “deuses”, isto é, os poderes que o superam. O próprio poeta Homero, na Odisséia (Canto XVIII, 135) dizia que “Vário é o feitio da mente dos homens que vivem na terra, tal como os dias, que o pai dos mortais e dos deuses lhes manda“. Para os que acreditam nisso, não há verdadeira liberdade para o ser humano, nem este é dotado de algo como uma alma espiritual capaz de conhecimento e vontade como faculdades independentes da matéria, mas o ser humano é apenas um joguete de forças naturais que o superam. Não é nisso que acreditamos, porque isto não é verdade: somos dotados, de fato, de alma espiritual e de verdadeira liberdade.

  1. Encerrando.

Após essa veemente defesa da alma espiritual, das faculdades supra corporais do ser humano e da realidade da liberdade humana, Tomás responderá aos argumentos objetores iniciais. Veremos isto no próximo texto.